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Cortejo garrido

Cortejo garrido

Sacerdotes ortodoxos levam a cabo uma procissão em honra de Santo Eutímio.

Suzdal, Rússia

1000 Anos de Rússia à Moda Antiga

Foi uma capital pródiga quando Moscovo não passava de um lugarejo rural. Pelo caminho, perdeu relevância política mas acumulou a maior concentração de igrejas, mosteiros e conventos do país dos czares. Hoje, sob as suas incontáveis cúpulas, Suzdal é tão ortodoxa quanto monumental.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Dona Irina Zakharova, a matryoshka proprietária da casa-pousada e híper-atenciosa anfitriã dá os últimos retoques na lida da cozinha. Pouco depois, incorre num longo briefing em russo que atrasa as aventuras gastronómicas dos seus mais recentes hóspedes. Alexey Kravchenko absorve cada uma das palavras metralhadas pela sopeira e responde o menos que pode num compromisso delicado entre a cortesia e a fome. Mal se liberta da pena, espreita para dentro do nosso quarto e dá o alerta porque esperávamos. “Cozinha livre! Vamos ao almoço!”

Há dias que este petersburguês pachorrento nos tentava impingir, em inglês, um tal de buckwheat. Não tínhamos a tradução presente e, quando comprámos o cereal no supermercado, ficámos quase na mesma ignorância. Comprovou-se, ao menos, a teoria de Alexey de que era fácil de preparar. Alguns minutos de frigideira depois, estamos à mesa a saborear uma refeição improvisada de peixe guarnecida com trigo sarraceno e vegetais que acompanhamos com diferentes medovukhas, cidras de mel com sabor de cerveja adocicada. Esta bebida conventual de Suzdal tornou-se num delicioso hábito maldito que nos acompanharia até ao norte da Rússia: a Novgorod no nosso caso; ao seu domicílio de São Petersburgo, no que disse respeito ao cicerone.

Alexey tinha colocado sobre a mesa vários pepinos pequenos, lavados mas por descascar. Devorava um atrás do outro quando reparou que não lhes tocávamos: “Então e os pepinos? “ pergunta-nos indignado. Explicamos-lhe que não estamos para aí virados até porque partilhávamos da noção portuguesa de que o pepino era indigesto e poderia facilmente arruinar-nos a tarde de exploração que se aproximava. À sua maneira eslavo-contida, Alexey quase salta da cadeira: “O quê? Estão a brincar, não? Eu sou louco por pepinos e não faço ideia do que estão a falar. Indigesto? Mas são só água. A mim não me dá problema nenhum, muito pelo contrário. Aliás... na Rússia, em geral, somos quase todos viciados. Por estes lados, ainda mais. Dentro de uns dias vão poder ver o quanto.” E continua a devorar mini-pepino atrás de mini-pepino.

Terminado o repasto e a recuperação da cozinha para uso dos restantes hóspedes regressámos à descoberta da bucólica Suzdal. 

Ao contrário de muitas das cidades medievais no Golden Ring - cintura histórica que envolve Moscovo - que tiveram que ceder à modernidade, devido à sua importância primordial, Suzdal conquistou um estatuto de protecção federal que limitou o desenvolvimento urbanístico e lhe permitiu permanecer como que parada no tempo, entregue à sumptuosidade e elegância das suas inúmeras e variadas igrejas e catedrais ortodoxas, aos mosteiros e conventos assim como a outros edifícios dentro e fora do kremlin local. 

À medida que caminhamos ao longo das margens ou quando atravessamos as pontes que o cruzam constatamos a graciosidade com que o rio Kamenka serpenteia vagarosamente pela povoação. E como a sua aparente imobilidade reforça o ambiente da época em que Suzdal atingiu o auge enquanto capital de diversos principados, séculos depois de os colonos viquingues terem navegado rio Volga acima, ocupado parte substancial da Rússia ocidental, Bielorússia e Ucrânia actuais – incluindo estas paragens por onde andamos – e fundado aquela a que chamaram Sursdalar ou Sudrdala (Vale do Sul), um termo que se repete nas sagas nórdicas. Tudo isto teve lugar sob a liderança de uma dinastia de nome Rus’ que viria a dar origem à nação russa.

Falta ao Kamenka a dimensão e fluidez do Volga. Mesmo assim, alguns descendentes menos destemidos dos fundadores escandinavos têm dificuldade em nele se meterem. Caminhamos com vista privilegiada sobre o rio quando nos apercebemos de um pai e filho receosos de mergulhar na água gélida enquanto a matriarca da família os incita e desespera pelo momento de máquina fotográfica em riste.

Mais à frente, um de tantos pintores em formação na cidade esboça a os cenários e o que se vai passando, sentado contra a muralha, sob as cúpulas verdes e dourada que se projectam do interior.

Em Suzdal, as igrejas e catedrais ortodoxas estão por todo o lado. A sua proliferação dispersa mas harmoniosa empresta ao lugar um estranho visual de conto de fadas. Uma vez que passamos junto da entrada do Mosteiro do Salvador, aproveitamos para nos inteirarmos um pouco mais da história a sério. 

Examinamos a torre do sino e os aposentos do Padre Superior. Deixamos a Catedral da Transfiguração do Salvador para o fim. Quando entramos, cinco homens todos vestidos em estilo negrume-Matrix parecem guardar a entrada para a nave principal. Num momento de fertilidade imaginativa, conjecturamos que esperavam por um qualquer multimilionário mafioso moscovita de visita à terra natal. Avançamos para o interior e examinamos as pinturas religiosas ortodoxas na companhia de duas crianças e dos pais que fazem o mesmo no sentido inverso.

Toca o sino lá fora. Os homens de negro entram de rompante na sala e fecham a porta. Ocorre-nos que podíamos estar em apuros. Os “seguranças” alinham-se sobre um degrau elevado de acesso ao altar e dão início a um recital de canto coral relâmpago em russo, amplificado pela acústica perfeita do templo. Menos de dois minutos depois, a cantoria fabulosa termina. Nós e os outros adultos batemos palmas contidas pelo espanto que perdurava. As crianças recuperam da surpresa. Os intérpretes apressados, esses, saem disparados pela porta como se nada se tivesse passado. 

Os eventos surpresa não se ficariam por aí.   Num dos dias seguintes tínhamos planeado sair cedo em direcção a Bogolubovo, uma de várias povoações menores nas redondezas mas, Alexey acorda mais uma vez tarde e atrasa a partida. Por estranho que pareça, em boa hora.

Já são onze da manhã quando nos aproximamos do centro de Suzdal. Sem que o esperássemos, avistamos um cortejo garrido que se interna numa rua recolhida em que se alinham dezenas de izbas, as casas rurais de madeira típicas destas zonas campestres, construídas sem recurso a metais e pintadas em tons fortes.

Pedimos a Alexey para estacionar na berma e corremos para nos juntarmos à procissão. Na cauda da marcha seguem beatos masculinos e femininos. Lideram-na sacristãos e acólitos porta-estandartes, seguidos de sacerdotes ortodoxos quase todos com barbas fartas e grisalhas. Faz um calor desconfortável mas os religiosos trajam phelons e phelonions, batinas litúrgicas todas negras ou bordadas e debruadas que combinam dourados com cores vivas. Quatro destes padres carregam sobre os ombros um pequeno relicário também ele dourado envolto num pano aveludado escarlate. Vencidas algumas centenas de metros, apurámos que se tratava de uma cerimónia dedicada a Santo Eutímio, um asceta  do século XIV que, abençoado por outro monge mais conceituado de nome Dionísio, conquistou a admiração do Príncipe Boris Konstantinovich de Novgorod e Suzdal e, em 1332, fundou o Mosteiro do Salvador, nesta última povoação.

Respeitado devido à fé profunda que mantinha, Eutímio viria a ascender a Padre Superior do mosteiro, onde empregava aquela devoção para aperfeiçoar a vida eclesiástica. A sua hagiografia descreve ainda que rezava com disciplina espartana, por vezes, em lágrimas e que transpôs para o mosteiro o estilo de vida cenobita que havia levado anos antes, com o exemplo inspirador de Dionísio. Eutímio morreu em 1404 e foi enterrado na Catedral da Transfiguração. Em 1547, foi canonizado e o seu culto disseminou-se por toda a nação, com vigor acentuado entre os fiéis de Suzdal. 

Quase todos os participantes do cortejo entoam salmos religiosos ortodoxos a viva voz, se bem que incomparavelmente mais desafinados que o blitz-quinteto que nos havia assustado. Até que a procissão entra pelo portão apertado da Igreja Sinodal do Ícone Ibérico da Mãe de Deus, o seu destino final.

Os padres sobem a escadaria curta, depositam o relicário no interior do templo e dispõem-se em frente ao altar, preparados para dar início à liturgia. Os crentes distribuem-se de pé aquém de um grande lustre e de uma panóplia exuberante de artefactos religiosos dourados, coroas de flores e imagens de Santo Eutímio. Quando o sacerdote que conduz a missa dá início às orações e cânticos, imitam-no com dedicação. 

Numa lenta mistura química, a profusão de velas acesas, os muitos crentes e a meteorologia da zona geram um bafo pesado que intensifica a mistura dos cheiros da cera queimada, dos incensos e de suor. Os fiéis seguem a eucaristia entregues a Deus, mas alguns perdem a concentração e deixam-se levar em mesquinhices. Pela nossa parte, na confusão da entrada, tínhamo-nos esquecido das pernas removíveis que promoviam os calções a calças e poderiam legitimar a nossa presença aos olhos da Igreja Ortodoxa. Duas senhoras em particular reparam na falha. Em vez de cantarem e acompanharem a cerimónia, dedicam-se a reportá-la aos crentes em redor que, felizmente, a ignoram. Apreciamos a comunhão, outros ritos e rituais encerrados pouco depois de os crentes beijarem um crucifixo dourado que o sacerdote que reza a missa segura contra o peito. Finda a cerimónia, os crentes regressam à rua, seguidos dos padres que aproveitam para cumprimentar a Madre Superiora do convento anexo com sentimento.

Nesse e noutros fins de tarde, apreciamos a vida pacata de Suzdal. Os grupos de amigos reunidos em redor de cervejas e guitarras em frente a um meandro do Kamenka, nas costas ervadas das arcadas do mercado. Na face contrária, vendedores entretêm-se com longos diálogos só interrompidos quando surgem compradores dos seus frutos silvestres. Vemos enormes bandos de corvos ora esvoaçantes ora pousados dedicados a devorar os vermes e insectos no relvado em frente à igreja de madeira de São Nicolau. Por ali, admiramos ainda cumulus nimbus ameaçadores deslizarem detrás da projecção das cúpulas e cruzes ortodoxas da Catedral da Natividade da Virgem. 

Seriam estes os últimos dias de pacatez indisputada de Suzdal.

Chegamos a Sábado de manhã. Deliciamo-nos com o mingau de arroz que Dona Irina nos tinha preparado para o pequeno-almoço, deixamos Alexey mais uma vez no sétimo sono e saímos a pé. 

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