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Quase a postos

Quase a postos

Nadadores já dentro de água prontos para mais uma largada do Jetty Swim.

Busselton, Austrália

2000 metros em Estilo Aussie

Em 1853, Busselton foi dotada de um dos pontões então mais longos do Mundo. Quando a estrutura decaiu, os moradores decidiram dar a volta ao problema. Desde 1996 que o fazem, todos os anos, a nadar.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Estávamos há três semanas em Perth e tínhamos já explorado as ruas históricas e solarengas da cidade e de Freemantle e ainda as praias imaculadas das imediações. Como tal, juntamo-nos à romaria veraneante dos seus moradores e viajamos em direcção ao sudoeste profundo da Austrália.

De acordo com os locais, “tudo começa em Busselton e só fica melhor a partir de lá.” Ainda sem deslumbres, as primeiras impressões matinais não nos permitem discordar. É um litoral de águas calmas em tom de esmeralda e areias brancas o que serve a pequena povoação, erguida numa arquitectura moderna assente no pré-construído improvisado. Depressa percebemos que, com o tempo, a estância tinha conquistado o papel de Meca regional da prática desportiva. E tudo fazia para manter a sua fama.

Ao fim de cada ano, Busselton acolhe uma competição do campeonato mundial Ironman que reúne oitocentos dos atletas mais resistentes do mundo, super-aptos a completar e vencer uma prova que combina 3.8 km de natação, 180 de ciclismo e 42 km de corrida. Como sempre, desde há algum tempo, a organização foi brilhante e voltou a destacar a Austrália aos olhos do mundo. Mas, como qualquer competidor, Busselton nunca está satisfeita e, quando não pode brilhar ao mais alto nível, vai praticando a uma escala nacional ou regional.

Caminhamos junto a água quando um transeunte nos interpela: “Estou a ver pelo equipamento que vieram fotografar a natação, certo?”. Passa-nos ao lado aquilo de que fala mas Mike põe-nos a par: “Ah não sabem de nada! Amanhã, às oito da manhã temos o Jetty Swim. É uma prova de natação muito concorrida por estes lados”. “Vão ser milhares dentro de água. Começa aqui no areal, dá a volta ao pontão e termina onde começou, mas do outro lado da estrutura”. O evento soa-nos a divertido e, nem que fosse só por isso, ia-nos permitir observar uma das nações mais desportivas do mundo em acção. Ficamos, assim, de aparecer antes da hora da partida.

No resto do dia, aproveitamos para descobrir Busselton e os arredores. Ao fim da tarde, damos com um drive-in que está prestes a recuperar o clássico hollywodesco de Baz Luhrmann, “Austrália”. Sem nada de demasiado importante para resolver, enfrentamos a fila de entrada que se prolonga por várias centenas de metros na faixa esquerda da estrada. Quando entramos, sobra apenas uma réstia de luz solar e ficamos mais longe do ecrã do que desejávamos. Vemo-nos também cercados de Utes (diminutivo aussie para utility vehicle) sobrelotadas e equipadas a rigor para o evento, com colchões a cobrir as superfícies desconfortáveis das suas caixas e recheadas de cerveja gelada e snacks.

A noite cai. Tentamos desligar do modo laboral e seguir a relação peculiar entre Lady Sarah Ashley (Nicole Kidman) e o rude sedutor drover (Hugh Jackman). Aproveitamos também para admirarmos, semi-in loco, as paisagens monumentais do inóspito Bungle Bungle (região do norte da Austrália Ocidental) exibidas no grande ecrã. Até que, a meio do filme, recebemos uma chamada telefónica da família, preocupada com a nossa segurança por se ter inteirado, nos noticiários portugueses, de vários mega-incêndios que lavram na região de Victoria. Como estamos a mais de 2500 km de distância, tentamos lidar com a situação como o drover aprendeu a lidar com Lady Sarah Ashley: com muita paciência e humor. Na manhã seguinte, por volta das sete, já estamos a tentar estacionar junto ao jetty de Busselton que os moradores e as autoridades asseguram tratar-se da estrutura de madeira mais longa do Hemisfério sul. O pontão começou a ser construído em 1853. Foi continuamente alongado até 1960 quando atingiu os actuais 1841 metros. Doze anos depois, seria considerado inapto para atracagem e carregamento de embarcações. Depois de um período de decadência, a cidade recuperou-o e ofereceu-o à população para sua recriação. À boa maneira australiana, os residentes aproveitaram a dádiva tanto quanto podiam. Deu-nos a ideia que, nos dias que correm, a cidade não poderia viver sem o seu jetty. Nem a cidade nem, pelos vistos, a imprensa local que publica, todas as semanas, uma estória dos moradores lá passada. Já foram abordados avistamentos de tubarões e relatos excêntricos de pescaria, propostas de casamento e celebrações de bodas, entre tantas outros acontecimentos e efemérides. O Jetty Swim, esse, teve a sua estreia em 1996. De evento organizado quase entre amigos, tornou-se numa competição internacional reputada.

Apesar da hora madrugadora, a chegada precoce de inúmeros nadadores ansiosos complica-nos a tarefa de arranjar lugar para o carro. Sobre o areal e o pontão, o espaço também não abunda. Milhares de corpos masculinos, femininos, de todas as idades e em distintas formas físicas exercitam-se sem parar, preparando os organismos para o frio da água e para o influxo de adrenalina que estão prestes a receber.

Vislumbramos Mike. Traja um uniforme da organização e usa um megafone para separar os competidores consoante a sua ordem de largada. Em três tempos, a multidão é dividida de maneira a que os mais lentos não atrapalhem os profissionais. E essa divisão, materializada nas diferentes toucas usadas pelos nadadores, forma, sobre o areal e também já ligeiramente dentro de água, um fascinante espectáculo multicolor.  

Distintas embarcações percorrem a área de mar em redor com a função de garantir que afastam possíveis tubarões ao largo, ou não estivéssemos na zona da Austrália com maior número de ataques destes temíveis predadores.

O público concentra-se sobre o relvado que antecede o areal e à entrada do pontão. Quando todas as cores estão alinhadas à beira de água e os nadadores de toucas amarelas (os mais rápidos) dentro dela, um policia estrategicamente colocado puxa de uma espingarda e dá o tiro de partida.

De imediato, centenas de competidores lançam-se nas águas frígidas do Índico. A organização deixa passar os tempos de intervalo necessários para as classes seguintes e a cena repete-se com colunas de toucas de outras cores até que todos os participantes nadam ao longo do pontão.

O jetty é, entretanto, aberto a mais público e uma verdadeira multidão percorre-o para achar e apoiar os nadadores familiares e amigos enquanto os stewards e salva-vidas ao serviço do evento verificam a segurança de quem segue dentro de água e, no caso das classes mais rápidas, a legalidade da sua natação.

Quando chegamos à extremidade oposta do pontão, já os competidores favoritos a dobraram e regressam a terra a grande velocidade, seguidos de perto por pequenas embarcações e motas de água.

Mais tarde, junto ao pódio, o último dos participantes demora tanto a completar a prova que a organização é forçada a começar a entrega dos prémios antes que saia de água. Enquanto são distribuídas as medalhas, é oferecido chá quente aos nadadores que acabaram de chegar e prestada assistência especial a vários outros que entraram em hipotermia. À boa maneira aussie, o sofrimento físico e a resiliência empregue para o vencer geram uma atmosfera de bem-estar que constatamos em incontáveis conversas entusiastas. Busselton tinha suplantado mais uma prova.

Nós, estávamos apenas a umas poucas centenas de quilómetros de contornar a esquina geográfica que separava o litoral índico do banhado pelo oceano Antárctico. Para sul, havia um outro mundo australiano por explorar.