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Dança dos cabelos

Dança dos cabelos

Mulheres de Huang Luo exibem os longos cabelos num espectáculo que exibem na sua aldeia.

Longsheng, China

A aldeia chinesa dos maiores cabelos do mundo. Nutridos a arroz, claro

Numa região multiétnica coberta de arrozais socalcados, as mulheres de uma aldeia renderam-se a uma mesma obsessão capilar. Deixam crescer os seus cabelos anos a fio, até um comprimento médio de 170 a 200 cm que faz da aldeia recordista. Por estranho que pareça, para os manterem belos e lustrosos, usam apenas água e o cereal. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Passamos quase cinco horas no pequeno autocarro em que nos tínhamos metido na estação de Yangshuo. Apesar de aquele ser um dos pontos de passagem incontornáveis do circuito chinês de mochileiros, só dois outros estrangeiros seguiam a bordo. Em boa parte do tempo, dormitaram nos lugares de trás só por eles ocupados. Nós, acompanhámos os trejeitos do percurso: as escarpas de calcário durante algum tempo após a partida. Os arredores do típico caos urbano de Guilin, cidade do centro-sul, pequena, à escala chinesa, com os seus quase 5 milhões de habitantes. Uma auto-estrada que dela nos afasta em direcção às montanhas e, logo, uma via secundária bem mais sinuosa que trepa para norte de uma primeira vertente e a percorre para leste.

Mais de trezentos quilómetros depois, o motorista faz-nos sinal a nós e à outra dupla de forasteiros. Em redor, só víamos mais e mais vertentes, convertidas em terraços de arroz verdejantes. Nem uma única povoação digna de registo. O motorista esboçou um apontar para fora do autocarro e para baixo. Ficámos sem perceber se se limitava a correr connosco para despachar o frete ou se nos indicava algum lugarejo escondido na cota da encosta inferior ao asfalto. Fosse como fosse, descemos. Atravessámos a via e espreitámos. À esquerda, disperso numa zona afundada da vertente, entre terraços e cedros, dispunha-se um casario tradicional de telhados pardos, entre o cinzento e o castanho, as estruturas abaixo, com dois ou três andares e varandas, tudo erguido em madeira escura e bambu. Lanternas chinesas emprestam-lhes algum vermelho festivo e auguram aos moradores vidas felizes e negócios prósperos.

Ping’ an, uma aldeia com mais de seiscentos anos, situa-se em plena crista principal dos terraços de arroz de Longsheng, nome que se deve traduzir como “da Coluna Vertebral do Dragão.” Está, portanto, não só nas imediações da estrada de acesso como sobre as costas do grande sáurio. E, tal como aconteceu nas principais cidades turísticas ocidentais, os moradores de várias povoações de Longsheng mas sobretudo de Ping’ an apressaram-se a adaptar os seus domicílios ou a construir adicionais para lucrar com os visitantes. Abundam agora, em Ping’ na, as pequenas pousadas e quartos para alugar, a maior parte, listados nos intermediários online do costume.

Não nos dirigimos logo para lá. Uma bandeira chinesa, tão escarlate e auspiciosa como as lanternas, esvoaça sobre um velho telhado terroso. Intrigados quanto ao que ali haveria, leves por termos trazido de Yangshuo apenas o essencial para um ou dois dias, metemo-nos por um trilho íngreme que não tarda a alargar. Passados dez minutos, o trilho desvenda-nos um terraço. E o terraço, uma incrível panorâmica sobre a vastidão verde-amarelada e listada a toda a volta.

Apenas Ping’ an, Huang Luo e um ou outro lugarejo quebravam a homogeneidade deste sinuoso padrão agrícola. Como só o turismo havia corrompido o modo de vida ancestral dos chineses de etnias e culturas Dong, Zhuang, Yao e Miao destas paragens. E estes são só os grupos primordiais. Em termos oficiais, as autoridades identificam treze grupos indígenas distintos na região. Um em particular, interessava-nos bem mais que os outros.  

Se é verdade que os forasteiros começaram a, ali, afluir pela beleza dos terraços de arroz e pelo prazer das longas caminhadas, a determinada altura, uma excentricidade cultural das mulheres Yao, em particular, passou a atrair tantos ou mais visitantes.

De acordo com várias fontes da imprensa chinesa, mesmo que os terraços de arroz de Longsheng contem com pouco mais de meio milénio, a tribo Yao terá em redor de dois mil anos. Ora, algures neste tempo, as mulheres Yao consolidaram uma crença comunal de que o cabelo era a sua posse mais sagrada e valorizada, uma espécie de amuleto de queratina que supostamente lhes garante longevidade, riqueza e boa sorte.

De acordo com a mesma crença, o cabelo de uma mulher Yao é cortado duas vezes na sua vida: aos cem dias, e aos dezoito anos, na última das ocasiões, como ritual de maturidade. O cabelo cortado é enrolado e mantido a preceito. Mais tarde, é oferecido ao futuro marido como presente. Após o casamento e o parto, este cabelo é usado em jeito de extensão enrolada do actual. Marca o estatuto e a diferenciação entre uma mulher casada e uma solteira.

Até há algum tempo, com excepção para o marido e os filhos, ninguém podia ver o cabelo solto de uma mulher. Dizem-nos, na aldeia, que se um homem visse o cabelo de uma mulher solteira, teria que passar três anos na família dessa mulher enquanto genro. No mínimo algo inconveniente, essa regra foi abandonada no final dos anos 80. Não terá sido a única tradição sacrificada.

A tribo Yao já era então formada por em redor de seiscentas pessoas agrupadas pelas quase oitenta famílias de hoje. Em Longsheng, formam apenas um pequeno clã dos 2.6 milhões de Yao disseminados por várias províncias chinesas. Outros descendentes de Yao existem também no Laos, na Tailândia, Vietname e, em pequenos números, pós-emigrados para o Canada, França e os E.U.A.  

Os Yao da região de Longsheng tornaram-se, ali mesmo, sedentários e rurais. Durante largo tempo, foram considerados pobres para os padrões destas partes relativamente férteis da China.

Quando os turistas chegaram para contemplar a beleza dos terraços de arroz, descobriram que as mulheres Yao tinham, aconchegados sobre a cabeça, cabelos muito maiores que as das restantes tribos. Esticadas, a maior parte das cabeleiras da tribo mede entre os 170 e os 200 cm. Ora, isto faz com que, no geral, Huang Luo seja a aldeia com os cabelos mais longos à face da Terra.

Em termos individuais, o mais comprido alguma vez registado entre os Yao mediu pouco mais de dois metros, mesmo assim, incomparável com o record pessoal de outra chinesa. Em 2004, Xie Qiuping, tinha um cabelo com 5.6 metros.

As mulheres Yao começaram a pedir dinheiro para que os turistas as fotografassem. Primeiro, só pelas fotos. Mais tarde, passaram a vender-lhes artesanato, postais e outras mercadorias.

Com o decorrer dos anos e o influxo de forasteiros, de secretos, os seus cabelos tornaram-se um espectáculo. Mesmo conscientes da sua pesada carga comercial aproveitámos e assistimos.

Durante a exibição, as mulheres trajadas de negro e vermelho, fazem rodopiar os cabelos. Deixam-nos cair e penteiam-nos. Juntam-nos e formam coreografias com movimentos graciosos em que manipulam ainda as cabeleiras umas das outras. Por fim, enrolam-nas no turbante capilar com que, por hábito, as vemos no dia-a-dia.

Mas também participam homens na exibição. De início, apenas locais, logo, são convidados turistas. A ambos, as mulheres aplicam um outro dos seus ritos Yao peculiares. Durante uma determinada dança, para provarem a sua simplicidade e interesse pelo outro beliscam-lhes os rabos. Nem todos os estrangeiros estariam avisados. Nenhum reclamou.

Após o espectáculo, apesar de os visitantes não falarem dialectos chineses e as nativas pouco ou nada saberem de inglês ou outras línguas, há um momento de convívio. Com os ingressos já pagos, os espectadores têm direito a fotografias gratuitas mas só com os cabelos das senhoras presos. Em troca, logo após, as mulheres Yao impingem-lhes trajes bordados tradicionais, malas, mochilas, cobertores e tantas outras das suas mercancias.

Um outro tema que fascina sobretudo as visitantes estrangeiras de Huang Luo é o que fazem as mulheres Yao para que os seus cabelos tão longos se mantenham saudáveis e lustrosos e, sem espécimes brancos até tão avançada idade, nalguns casos, até aos 80 anos. O segredo está no cenário extraordinário em redor, está no que há milénios as alimenta e que há milénios aproveitam para nutrir o cabelo: o arroz.

Desde há uma eternidade que a água fermentada após a lavagem do arroz foi usada no Oriente tanto pelas mulheres do campo como por imperatrizes para conseguirem cabelos exemplares. Com tanto arroz em redor, para as mulheres Yao, manter essa crença e costume não foi um capricho, foi praticamente uma falta de alternativas. Isoladas das cidades pelas montanhas e vales e pela mera distância, a penetração de champôs e até de sabões modernos terá sido um fenómeno bem tardio do século XX. Em simultâneo, se água de arroz lhes garantia cabelos imaculados com o vigor adicional de uma tradição, porquê deixar de usar o arroz?

Nos dias que correm, as mulheres juntam-se no rio que atravessa aldeia e, com frequência, lavam os cabelos de forma comunal. Misturam arroz glutinoso com a água e enxaguam suavemente as cabeleiras até as sentirem bem gelatinosas. De tempos a tempos, complementam esta lavagem com “tratamentos” especiais com água de arroz fermentada.

Um estudo realizado nos 80, no Japão – onde o cabelo das mulheres será semelhante – chegou à conclusão que “a água de arroz diminui a fricção na superfície capilar e melhora a elasticidade”. Margaret Trey, uma especialista em saúde, beleza e bem-estar do jornal “The Epoch Times” sublinha que “ligeiramente amarga, a água de arroz é rica em antioxidantes, minerais, vitamina E e uma outra substância que só a fermentação do arroz produz. Esta combinação faz mais do que trazer brilho aos cabelos. Torna-os mais suaves, fortes e, no geral, saudáveis.   

Acredite ou não, Huang Luo aparece desde há algum tempo em várias páginas e blogs especializados em conselhos de beleza com imagens da aldeia, das mulheres e, claro está, dos seus cabelos prodigiosos. Se melhor informadas sobre o mundo da publicidade, os cabelos das mulheres Yao poderiam render-lhes bem mais que as entradas dos turistas nos espectáculos diários, as vendas do seu artesanato e os postais. A questão está em que as grandes marcas de beleza querem continuar a vender os seus champôs, amaciadores e silicones, não arriscar que as mulheres ocidentais os comecem a substituir por uma qualquer água de arroz de fazer em casa.

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