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Via caribenha

Via caribenha

Veleiro destacado no Manatee Creek, a alguns quilómetros de Key Largo.

Overseas Highway, E.U.A. 

A Alpondra Caribenha dos E.U.A.

Os Estados Unidos continentais parecem encerrar-se, a sul, na sua caprichosa península da Flórida. Não se ficam por aí. Mais de cem ilhas de coral, areia e mangal formam uma excêntrica extensão tropical que há muito seduz os veraneantes norte-americanos.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


São dez e meia da manhã. Miami estava uma hora e noventa quilómetros para trás. Tínhamos também deixado a vastidão verdejante e ensopada dos Southern Glades e continuávamos rumo à origem da U.S. Hwy 1, em grande parte denominada de Overseas Highway por a sua estrutura de asfalto e betão assentar no mar.

Esta estrada emblemática dos Estados Unidos levava-nos pela região anfíbia dos Sounds das Florida Keys adentro, ora por viadutos elevados face à vastidão de mangues e arvoredo alagado, ora por vias térreas mas em que vedações e sucessivas placas proibitivas mantinham inacessível a paisagem em redor. Não era para menos. À imagem dos famosos Everglades, os Southern Glades e a sua extensão marinha mantêm-se selvagens até mais não. Pantanosos e labirínticos, abrigam espécies como os crocodilos americanos, os jacarés e as panteras da flórida (pumas endémicos) que, confrontadas com a necessidade e a oportunidade, não desperdiçariam uma refeição humana.

É, assim, com algum alívio que vemos aparecer um desvio na estrada para um reduto em que, tudo aparentava, poderíamos sair do carro a salvo e desentorpecer as pernas.

Uma placa sinalizava a eminência de um Pelican Cay RV park. Um segundo sinal alertava que estávamos numa zona de “Crocodile Crossing” e uma impressão grafitada no muro que delimitava a estrada especificava que se tratava da área de travessia dos répteis US1 900136. As autoridades tinham os bichos e os seus movimentos catalogados e controlados. Ao contrário de nós que depressa suspeitamos que não deveríamos ali ficar muito mais tempo.

Damos com um parque de estacionamento e com um complexo de recreação privado e guardado a condizer. Antes de chegarmos ao pórtico de entrada, novo aviso com direito a tradução em castelhano chama-nos a atenção “No coolers, No Outside Food or Beverage”.

Os proprietários levavam a sério o seu direito ao lucro. De tal maneira que o segurança responsável pela cancela nos faz abrir o porta-bagagens e vasculha o habitáculo e a mala em busca de transgressões. Dizemos-lhe que só vamos dar uma espreitadela ao lugar. O funcionário relaxa das suas funções e concede-nos a entrada.

Atravessamos um grande bar desafogado com visual de resort. Só do lado de lá percebemos que estávamos na margem de um dos muitos braços de mar que sulcavam a região, um tal de Manatee Creek que ligava aquela esguelha de terra à imensidão marinha das Florida Keys.

Na ausência de areais, tendo em conta a perigosidade animal daquelas águas, o complexo funcionava como um dos inúmeros antros em que os pescadores da Florida se alojavam, de onde zarpavam para  pescarias ao largo e onde conviviam e trocavam as suas peripécias em noites bem regadas. Os próprios quartos do estabelecimento, palafíticos, davam para o canal. Em vez de carros - como acontecia em quase todos os motéis espalhados pelos Estados Unidos - tinham às portas embarcadouros e lanchas apetrechadas de grandes canas-de-pesca. Sentámo-nos por breves momentos a examinar o lugar. Ainda acompanhámos a partida de duas dessas embarcações para alto-mar.  Em seguida, retomámos a nossa própria jornada.

Dali, a US Hwy 1 prosseguia para sudoeste até encontrar a longa barreira de terra que separava as Florida Keys do Mar das Caraíbas. Intersectámo-la em Key Largo, a maior das Keys (ilhotas), com quase 53 km de extensão. Key Largo assume-se como uma meca do mergulho. A sua costa sul dá para um recife de coral bem preservado que atrai snorkelers e mergulhadores aos magotes ao seu John PennenKamp Coral Reef State Park, o primeiro parque submarino dos E.U.A.

Quando por lá passamos, o vento forte e uma camada persistente de nuvens reduziam a visibilidade subaquática a um quase nada. Apostados em mantermos intacta a reputação sedutora e tropical daquele limiar das Caraíbas, mantemo-nos em terra. Vasculhamos como por ali se entretinham os americanos veraneantes, entregues a expedições de caiaque e paddleboard entre os mangues, a exercícios de passes de futebol americano ou leituras nas enseadas dissimuladas pela verdura da beira-mar.

Entretanto desata a chover. Era o pretexto ideal para abreviarmos novo regresso à estrada. Tínhamos estadia marcada em Islamorada. O destino do dia distava 40km. Nesse trecho, a esplendorosa e arrojada  engenharia da Overseas Highway começaria a surpreender-nos.

Por volta de 1920, a extensão peculiar e insular da Flórida despoletou grande interesse de investidores imobiliários. Interessados em valorizar milhares de hectares no limiar do arquipélago que deliciariam a comunidade de pescadores da nação, esses investidores aliaram-se ao Miami Motor Club. Com o caminho de ferro entretanto completo e o serviço de ferry que transportava veículos até certas zonas insuficiente, pareceu a todos que a construção de uma via seria não só exequível como premente. Aos poucos e contra sucessivos contratempos, o projeto foi concretizado ainda que os espaços entre as ilhas mais distantes tenham continuado a depender dos ferries. Passadas as dificuldades financeiras da Grande Depressão da década de 30, a obra foi retomada. Milhares de homens ainda desenquadrados pela participação na 1ª Guerra Mundial e carecidos de rendimentos, obraram uma longa autoestrada marinha única, em boa parte assente em pilares fixos no leito do Mar das Caraíbas.

Em 1935, um ciclone de categoria 5 varreu a zona. Destruiu muita da infraestrutura rodoviária e vitimou 400 trabalhadores, mais de metade veteranos da 1ª Guerra e suas famílias. A catástrofe fez as autoridades abortarem a construção.  Dissipada a polémica intensa levantada pelo furacão, viria a ser retomada num trajeto distinto.

A Overseas Highway com percurso íntegro do sul da Flórida até Key West em que agora conduzíamos, só seria inaugurada em 1938. No ano seguinte, o Presidente Roosevelt percorreu-a com a devida pompa e circunstância.

De Key Largo, descemos pela estreita faixa de terra que, como por clemência geológica, os milénios legaram ao Mar das Caraíbas. A Overseas Highway foi imposta às maiores de todas as keys da Florida, uma longa cadeia que vem desde a Biscaine Bay, a sul de Miami, e se prolonga por quase 200km até ao improvável extremo peninsular de Key West, a maior das suas cidades.

Chegados à Islamorada que nos acolheria nessa noite, instalamo-nos no hotel e saímos de imediato à descoberta. Uma realidade para que devíamos estar avisados naquele contexto marginal mas, ainda assim, capitalista dos E.U.A., surpreendeu-nos. Por mais que nos esforçássemos, o acesso ao litoral sempre iminente era monopolizado pelas propriedades particulares, casas de férias, hotéis, resorts e afins. De quando em quando, lá aparecia o fim de uma rua transversal que permitia a visão do oceano, em retalhos incaracterísticos, pouco ou nada atrativos. Só 10km para sudoeste, demos com uma praia pública, um retalho de areal salpicado por mangue que o recuar da maré vazia descobria, como revelava o imenso leito superficial para diante. A Anne’s Beach prestava-se mais a passeios caribenhos anfíbios que a banhos. Abandonamo-la em busca de alternativas e encontramos em Lower Matecumbe Key  um novo recanto surreal das keys, um complexo de bares e lojinhas de pesca e de recordações com extensão para novo ancoradouro.

Parte dos seus passadiços delimitavam viveiros repletos de grandes peixes. Os visitantes compravam baldes de isco e entretinham-se a alimentá-los. Como seria de esperar, os pelicanos caribenhos tornaram-se clientes habituais do lugar. Quando lá entramos, patrulhavam os passadiços, roubavam pedaços de peixe e disputavam-nos com alarido, para entretenimento das famílias que ali almoçavam ou se preparavam para zarpar para as suas sagradas tardes de pesca.

De Islamorada para sul, viajamos literalmente sobre o Mar das Caraíbas com “saltos” e paragens investigativas noutras poldras intrigantes. Passamos por Vaca Key e por Boot Key. Pouco depois, entramos na Seven Mile Bridge, a mais longa das Florida Keys, com 11.2 km e que mantém a companhia paralela da ponte original, bem mais apertada, ainda assim considerada uma maravilha mundial da engenharia quando foi completada em 1916, graças à obsessão de Henry Flagler, um magnata do petróleo que apostou em levar o seu Florida East Coast Railway de Miami, sobre o mar, até Key West.

Flagler gastou 30 milhões de dólares do seu próprio dinheiro naquela que foi chamada de “A Loucura de Flagler”. Mas, em Setembro de 1935, o mais poderoso ciclone a atingir os E.U.A. devastou boa parte dessa obra.

Avançamos até Pigeon Key, um ilhéu e antigo campo em que, entre 1908 e 1912, habitaram cerca de 400 dos milhares de trabalhadores contratados por Flagler a 1.5 dólares ao dia. Lá nos inteiramos de muitas outras curiosidades e peripécias, protegidos de nova súbita bátega de água nos velhos edifícios-museu.

Do Pigeon Key, prosseguimos para a Bahia Honda Key e para o Bahia Honda State Park. Ali, por fim, as Florida Keys desvendam-nos um pouco da sua faceta balnear: areais brancos de coral, coqueiros destacados acima de uma floresta de mangue, mas não só. Íbises percorriam o areal em busca de alimento, mesmo entre banhistas que ora absorviam o sol invernal ora se divertiam na água rasa.

A velha Seven Mile Bridge também por ali passava. Primeiro perdida entre as copas dos coqueiros. Logo, estendida ao longo do mar em toda a sua excentricidade geométrica de betão e aço.

O sol cai sobre o horizonte. Transforma a ponte e a praia numa silhueta inusitada, num fundo rendilhado que recebe a pintura primeiro prateada, entretanto dourada, daquele nobre fim de tarde.

É já noite cerrada quando damos entrada em Key West, a urbe mais meridional dos Estados Unidos continentais e o ponto habitado da nação ianque mais avançado nas Florida Keys. À imagem do Alasca, Key West ganhou fama de ser algo tresloucada. Como teorizam com orgulho alguns moradores “é como se tivessem abanado os E.U.A. e todos os maluquinhos caído para o fundo”. A Key West, dedicaremos um artigo tão à parte como a cidade.