Esconder Legenda
Mostrar Legenda
Cabana de Brando

Cabana de Brando

Um sinal distingue a fale em que Marlon Brando se alojou no hotel Aggie Grey.

Apia, Samoa Ocidental

A Anfitriã do Pacífico do Sul

Vendeu burgers aos GI’s na 2ª Guerra Mundial e abriu um hotel que recebeu Marlon Brando e Gary Cooper. Aggie Grey faleceu em 1988 mas o seu legado de acolhimento perdura no Pacífico do Sul.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Quase todos os dias ou várias vezes por dia, Upolu é irrigada por bátegas fulminantes. A tarde tinha entrado perfeita mas, como noutros dias, voltámos a ser apanhados sem refúgio pela dinâmica meteorológica e por uma chuva morna que nos deixou ensopados. Foi, assim, com prazer que regressámos aos aposentos base, para duches prolongados e mudança de roupa.

Nessa noite, estávamos convidados para assistir à fia fia (festa/banquete samoano) do hotel Aggie Grey’s. Talvez devido à sagrada humildade polinésia, os responsáveis pela promoção de Samoa tinham-se esquecido de nos explicar onde nos iam alojar. Aos poucos, muito graças a um livro de capa dura que encontrámos no quarto e à internet que só apanhamos à varanda, lá nos inteiramos da importância histórica daquele lugar e da família que o fundou.

Agnes Genevieve Swann, nasceu, em 1897, em Upolu. Era a segunda filha de William Swann, um marinheiro que se instalou na ilha como  farmacêutico e de Péle, uma donzela cerimonial samoana. Pouco depois, devido a uma guerra entre os chefes do arquipélago, Agnes foi mandada para Fiji. Quando voltou, Samoa havia sido dividida entre a Alemanha e os E.U.A., segundo a Convenção Tripartida de 1899. Upolu foi integrada no Império Germânico. As desgraças não se ficaram por aí.

Em 1903, faleceu-lhe a mãe. Aggie passou a ser educada apenas pelo pai. Ajustou-se com tolerância à sua existência hedonista, aos problemas financeiros e à madrasta samoana. Confirmada uma já anunciada bancarrota, ela e as irmãs ajudaram o progenitor numa pequena loja distante da cidade. Mas à medida que cresciam, o isolamento atormentava-as. Engendraram, assim, o desejado regresso à urbe.

Após alguns meses nas graças de um amigo influente, Aggie tornou-se uma solteira desejada do circuito social “afakasi” (misto samoano e ocidental) e casou com dois neozelandeses promissores. A primeira relação terminou com a morte do primeiro marido. A segunda degradou-se com cinco filhos para criar, nova falência e retiro para longe de Apia. 

À distância, a vida da capital continuou a chamar por Aggie. Mas os únicos negócios lucrativos abertos às mulheres eram, então, ou bordéis ou bares. Os bares e Drinking Clubs de Apia tinham sucumbido à lei seca com que a Nova Zelândia procurou sanar o consumo de álcool excessivo dos samoanos.

Por fim, Aggie Grey teve a ideia que revolucionou de vez a sua vida: recuperou o British Club decadente da capital e começou a servir bebidas legitimadas por “autorizações médicas” que conseguia em números pouco sérios. 

Com o passar dos anos, transformou o novo Cosmopolitan Club no refúgio predilecto de expatriados aborrecidos e solitários, mais tarde, também de centenas de militares de passagem pela cidade. Fez uma pequena fortuna a servir a bebida preferida dos marinheiros americanos, uma tal de Tom Collins.

James Michener foi um deles. Este tenente da marinha desenvolvia, por essa altura, uma carreira profícua de escritor, autor de 40 títulos, em grande parte sagas familiares passadas em localizações sui generis do Mundo. O seu “Contos do Pacífico do Sul” e a adaptação parcial cinematográfica “South Pacific” revelaram aqueles confins ao Ocidente. De forma encoberta, foi a figura de Aggie Grey que serviu de inspiração a Michener para a caricata personagem Bloody Mary.

A aptidão convivial de Aggie e a sua experiência a lidar com homens funcionaram como um chamariz infalível. Amantes desiludidos e esposas furiosas deram ao negócio a publicidade de que já pouco precisava. Revelou-se algo comum a todos os seus empreendimentos, incluindo o hotel Aggie Grey’s que nos tinha acolhido.

A noite fia-fia tem início. Orgulhosa da sua herança, Marina Grey, nora de Aggie, esposa do filho Alan Grey (gerente do hotel), toma o microfone e a palavra: “Gostava de vos apresentar estes belos jovens samoanos todos eles a trabalhar aqui no Aggie’s. Amanhã, um deles será o vosso empregado ao pequeno-almoço, uma delas tratar-vos-á do quarto e outras vão ajudar-vos na recepção ou nas compras que fizerem na loja. Por favor, um aplauso caloroso para eles.”

Sobre um palco com aspecto vegetal - de tantas folhas de palmeira e outras plantas que o enfeitam - músicos da ilha preparam o público para o seu contagiante espírito de diversão e comemoração. Quando o objectivo está assegurado, junta-se-lhes um grupo de dançarinos enérgicos e hiperactivos em trajes típicos do arquipélago. Acompanham as melodias aceleradas que cantam com coreografias mímicas da Polinésia, batendo braço contra braço e com os braços nas pernas de forma quase acrobática e ao ritmo infernal que distingue as danças samoanas das bem mais lentas maori, havaianas ou taitianas.

Várias exibições depois, Marina Grey é chamada de novo ao palco. Apesar da sua figura clássica e algo british, junta-se à última dança de forma elegante e harmoniosa o que surpreende e encanta os hóspedes estreantes. Logo após, inaugura um buffet repleto de pratos tradicionais samoanos a que os espectadores se fazem em filas longas mas fluídas. E, no entanto, foi a servir fast-food americana que a sua sogra Aggie cozinhou o sucesso da família.

Com o advento da 2ª Guerra Mundial, as forças armadas norte-americanas afluíram em força a Upolu, a partir de Pago Pago, a capital da vizinha Samoa Americana. Os Seabees (força de construção da Marinha) não tardaram a falar a Aggie Grey sobre a adoração ianque por hambúrgueres.

“Os americanos tinham todo o dinheiro do mundo, não sabiam o que lhe fazer e estavam em guerra. Eu preocupava-me a sério com aqueles rapazes.” Declarou a senhora, em 1977, a um repórter do Free Lance Star. “Comprei uma vaca, reuni cebolas, sal e pimenta, tal como me disseram para fazer. Na primeira venda, tive que perguntar ao GI como se impedia que se desfizesse tudo. Ele saltou para o outro lado do balcão, alisou as almôndegas e disse: “Vês, é fácil”.  

Aggie estima que serviu hambúrgueres a mais de 12.000 Seabees e GI’s. Com o dinheiro, fez do Cosmopolitan Club um hotel e construiu fales adicionais para hospedagem. Gary Cooper, William Holden, Marlon Brando, todo o elenco de “No Sul do Pacífico” e tantas outras personalidades do showbiz elevaram-no ao estrelato. Aos 80 anos, Aggie ainda encantava os hóspedes e convidados com exibições prodigiosas de hula e as suas tiradas humorísticas e calorosas. Faleceu em 1988, com 91 anos. O Aggie Grey’s foi só parte da sua herança.

Desde o primeiro momento, o quarto que nos calhou pareceu-nos básico, com uma decoração polémica, para não dizer de mau gosto. Mas já tínhamos percebido que o Aggie Grey’s nunca tivera que se preocupar em demasia com os efémeros luxos ocidentais. Era da aura da sua mentora que prosperava.

Até há pouco, milhares de hóspedes escolhiam-no – ao original e à versão SPA entretanto construída - como base para descobrir Upolu, uma das ilhas incontornáveis da Polinésia e ao Pacífico em redor.

Em Dezembro de 2012, o ciclone Evans deixou o hotel original em péssimo estado mas, um semestre depois, reabriu. Para a maior parte dos fãs históricos do Aggie Grey’s o pior estava para vir.

Há alguns meses, Tupaimatuna Lulai Lavea e Lupesina Frederick Grey - representantes do grupo e da holding Aggie Grey’s -  fecharam negócio com a cadeia Starwoods. Algum tempo depois, os Aggie Greys’s passaram a chamar-se Sheraton Samoa Aggie Grey's.