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Conversa entre fotocópias

Conversa entre fotocópias

Representantes parlamentares sami debatem os problemas da nação durante um intervalo burocrático.

Inari, Finlândia

A Assembleia Babel da Nação Sami

A nação sami é afectada pela ingerência das leis de 4 países, pelas suas fronteiras e pela multiplicidade de sub-etnias e dialectos. Mesmo assim, no parlamento de Inari, lá se vai conseguindo governar


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


São quase 5 da tarde quando chegamos à entrada do recém-inaugurado Sajos de Inari, o edifício centro cultural e sede do parlamento dos sami finlandeses, visto como uma obra determinante para o seu desenvolvimento e auto-governo.

Por essa hora, reúne-se num anfiteatro interior uma pequena multidão enregelada para assistir à entrega de prémios da Porokuninkuusajot (Kings Cup), a prova mais importante do calendário de corridas de renas nacional. A sala ao lado, acolhe representantes das municipalidades preparados com os seus computadores portáteis e dossiês para uma extensa ordem de trabalhos. Todos têm lugares marcados numa mesa redonda mas antes de a sessão começar, servem-se de chá, leite, sanduíches, bolachas e pastelaria, disponíveis num bufê posicionado abaixo das cabinas dos tradutores.

Nem todos os munícipes se compreendem e o suomi que poderia resolver a dificuldade não é para ali chamado. Nalguns casos, as diferenças entre regiões ou sub-etnias vão muito para lá da língua e dos trajes coloridos que ostentam.

A sessão arranca. Acompanhamos as primeiras intervenções tranquilas e pausadas para sentir o pulso à sala mas, se o finlandês é, já de si, ininteligível, que dizer daquelas ainda mais exóticas línguas sami-fínicas.

O parlamento tem uma secretária de serviço que fala inglês. Marja Mannisto é uma mulher ocupada. Mesmo assim, dispensa-nos alguns minutos nos sofás do exterior para nos pôr a par dos temas em debate. 

As principais questões estão relacionadas com a convenção ILO (International Labour Organization) para os povos indígenas e tribais em países independentes. Os sami queixam-se de que, apesar dos progressos, 90% do território Sapmi continua a ser administrado pelo Metshällitus, o Serviço Finlandês para os Parques e Florestas e, como tal, na realidade, não lhes pertence. 

Marja explica-nos num inglês titubeante: “até aqui, os responsáveis finlandeses têm subsidiado a identidade sami de várias maneiras. Só para a edição de materiais de ensino nas línguas autóctones atribuiu este ano 290.000 euros. Ainda assim, quando a questão é territorial, têm tendência a proteger a população não sami que receia sentir-se estrangeira quando viaja para o extremo norte, ou perder o que considera o seus direitos históricos àquelas terras, a ali caçar e pescar. “

Outras disputas regionais não menos importantes concorrem com estas: “Utsoki quer separar-se da municipalidade predominante de Inari que lhe fica demasiado distante mas, só por si, seria demasiado pobre. Propõe, assim, juntar-se aos congéneres noruegueses com quem partilha uma língua sami distinta, a mesma escola, biblioteca, enfermaria e outros. Inari, por seu lado, tem vindo a perder população para o sul, especialmente Helsínquia (de mais de 7.000 habitantes há uns anos para menos de 7.000 agora). Deseja incorporar todas as regiões em redor. Rovaniemi – que, muito graças ao turismo, tem uma economia pujante - não necessita de Inari e defende a sua autonomia face à capital do Norte”.