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A fortaleza e a catedral

A fortaleza e a catedral

Charrete passa junto à base da muralha da fortaleza de Novgorod, também abaixo da Catedral Ortodoxa de Santa Sofia.

Novgorod, Rússia

A Avó Viquingue da Mãe Rússia

Durante quase todo o século que passou, as autoridades da U.R.S.S. omitiram parte das origens do povo russo. Mas a história não deixa lugar para dúvidas. Muito antes da ascensão e supremacia dos czares e dos sovietes, os primeiros colonos escandinavos fundaram, em Novgorod, a sua poderosa nação.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Na margem oposta do rio Volkhov, vários torreões destacam-se acima de uma muralha vermelha sólida. Dela se projecta também um cacho de abóbadas que algum brilho lateral nos revela douradas. O sol sujeita-se às cruzes bizantinas e afunda-se por detrás. Por momentos, o seu aparente leito não passa de uma silhueta mas, mal a luz diurna cede ao lusco-fusco e à iluminação artificial, o templo ortodoxo e a fortaleza que o envolve reconquistam a imponência devida.

Novgorod vive dias agitados. Na manhã seguinte à nossa chegada, é Sábado. Despertamos com o sol já apontado ao zénite. Passamos pela grande praça Pobedy Sofiyskaya que é delimitada pelo edifício soviético governamental e pela entrada oeste da fortaleza. A essa hora, um bando de ciclistas, patinadores, skaters e outros desportistas exercita-se. Aproveitam a lisura do piso, até que um evento há muito programado lhes reclama o lugar.

Aos poucos, centenas de polícias em camuflados reúnem-se e formam perante uma ala de distintas autoridades da região: políticas, militares, civis e – não poderiam faltar – também os representantes da Igreja Ortodoxa. Reparamos na sigla OMOH nas costas dos seus uniformes e percebemos que não são uma força qualquer. Integram uma unidade especial da Guarda Nacional da Rússia criada em 1988 dentro da Soviet Militsiya e que, findos os conflitos gerados pelo colapso da U.R.S.S., é considerada a polícia anti-motim. Os seus oficiais recebem galardões das autoridades e, dos familiares e cônjuges, também beijos e ramos de flores. Uma vez findos os discursos, tocado e cantado o hino da nação, a cerimónia termina e a praça regressa ao modo lúdico original.

Na Pobedy Sofiyskaya, como em tantas outras partes de Novgorod, as várias “Rússias” parecem medir forças. A ocidente, a fachada do edifício do Governo da Região de Novgorod não podia ser mais soviética. Preenchem-na, quase na íntegra, um alinhamento de colunas de estilo helénico que sustentam um frontão. Este frontão, por sua vez, é tão amplo e aberto que admite uma enorme escultura de bronze recortada em redor do símbolo incontornável da época, a foice e o martelo. Do lado oposto da praça, encontramos o pórtico principal da fortaleza milenar e colossal erguida pela Rus de Kiev. Sem acesso ao edifício governamental, atravessamos o fosso pela ponte levadiça e passamos para o interior das velhas muralhas atijoladas dominado pelo verde do Parque Kremlyovskiy (do Kremlin) e por vários monumentos sumptuosos. O compositor Sergei Rachmaninoff nasceu na região. Tem na cidade uma estátua de bronze. A grande obra é, todavia, o Milénio da Rússia, um monumento igualmente de bronze, erguido em 1862, e que celebra, em distintos níveis, os eventos que definiram a Rússia, desde a chegada dos Varegues às margens do lago Ladoga e a Novgorod até à criação do Império Russo sob a liderança de Pedro, o Grande.

À parte da catedral de Santa Sofia, os edifícios religiosos quase rivalizam, em número, com as torres da fortaleza. Voltamos a deixá-la e reencontrarmos o Volkhov.

É Verão. O caudal recuou substancialmente e empresta um areal mais que conveniente a que outros desportistas e banhistas dão bom uso. Um torneio de vólei de praia decorre entre o rio e a muralha. Canoístas e nadadores sulcam a água doce e uma multidão de adoradores do sol fazem por se bronzear, uns esparramados na relva viçosa, outros, encostados contra a base do Kremlin que, de frente para o torreão Dvortsovaya Bashnya, nos revela, por fim, a sua elegante redondeza.

Rus de Kiev, o estado embrionário daquela que - considerado o território -   se tornou a maior nação do Planeta, começou a definir-se no século VIII.

Por essa altura, os varegues (viquingues) tinham-se habituado a zarpar da Escandinávia e a navegar pelo Mar Báltico e rios Dniepre, Volga, Dniestre abaixo. Durante essas epopeias embarcadas, consoante as oportunidades e os rivais com que se deparavam, entregavam-se ao comércio, à pirataria e a acções mercenárias. Também navegaram o Mar Cáspio e o Mar Negro. Cada vez mais afastados das suas Noruega e Suécia nativas, interagiam e comerciavam com os gregos e com os mais distintos povos muçulmanos, tão longe como em Bagdade.

Novgorod, em particular, prosperava a olhos vistos. Enriquecia-a um comércio cada vez mais intenso de tecidos, metais, vinho, âmbar e outros produtos ali chegados do sul mediterrânico que os varegues lá instalados trocavam por peles de arminho, de marta e de outros animais capturados na Escandinávia. Já então consideradas um luxo, estas peles fizeram de Novgorod um lugar apetecido.

Mas os varegues também traziam do cimo da Europa hábitos guerreiros. Diferentes clãs lutavam demasiadas vezes entre si ou com as tribos eslavas e finesas com que partilhavam a zona. Os habitantes de Novgorod fartaram-se desse caos. Para o sanarem, convidaram um príncipe varegue já poderoso a governá-los. Rúrik tomou conta de Novgorod até morrer em 879. Oleg, o cunhado a quem passou o poder por o seu filho ser demasiado novo, consolidou um vasto domínio que abrangeu as zonas das actuais São Petersburgo (200km para norte) e Kiev (1000 km para sudoeste).

Oleg e os descendentes da dinastia Rúrika não tardaram a cobrar tributo às tribos não varegues que acabaram por incorporar. Por fim, esta mescla improvável de varegues e de tribos eslavas e finesas deu origem ao estado Rus de Kiev. Novgorod beneficiou de forte autonomia dentro do novo estado. Estabeleceu um regime de eleição de chefes locais com tempos limitados de liderança. Este regime é considerado o primeiro governo democrático da Rússia.

Os Rus de Kiev mantiveram-se pagãos por mais algum tempo. Pelo menos numa circunstância, Oleg atacou a capital do Império Bizantino. Os Bizantinos tinham construído uma tal de fortaleza Sarkel que, em favor do povo Cazar, limitou o comércio dos Rus ao longo do rio Volga. Furioso, Oleg reuniu um exército, distribuiu-o por 200 embarcações, navegou até ao Bósforo e cercou a poderosa Constantinopla. Só retirou após pilhar os arredores da cidade e a ter deixado em pânico.

Afastamo-nos da fortaleza que, em tempos, acolheu os líderes Rus. Algumas centenas de metros rio abaixo, damos com a Colina de Catarina e com novo monumento, de visual bélico e épico, claro está. Um cavaleiro que monta um cavalo empinado, empunha uma espada na vertical e atropela uma suástica. Atrás de si, no cimo de uma torre altiva, a proa de um barco viquingue foi combinada com a lagarta de um tanque e com uma série de lanças apontadas ao céu.

O conjunto – mas em especial o cavaleiro – atrai uma horda de fotógrafos casuais ávidos por ali se eternizarem. Contempla-os com a benesse de o fazerem ainda junto a um tanque ligeiro T-70M que terá passado incólume pela 2a Guerra Mundial.

Regressamos à estradinha Sofiyskaya e, por ela, à ponte pedestre que cruza o Volkhov para a metade já não amuralhada da cidade. No tempo em que o fazemos, a comitiva de um casamento surge no sentido contrário. Na dianteira, um pequeno noivo, em óbvia dificuldade, carrega a noiva ao colo. A estreiteza da ponte e a curiosidade sobre o feito, fazem-nos dar-lhes passagem. Aproveitamos para meter conversa com uma senhora loura que segura um caniche cor-de-avelã ainda mais felpudo. Ela esclarece-nos. “Isto é costume cá da cidade. Atravessar a ponte toda com a noiva ao colo é visto como uma bênção para o casamento. Não há homem que não o tente fazer e vão ver que, mesmo aflito, aquele também vai conseguir!” De facto, o ritual foi cumprido, para júbilo dos convivas que o felicitaram com abraços e muito champagne.

Retomamos o passeio. Aproximamo-nos do “Na Korme” uma grande embarcação transformada em restaurante. Para desilusão dos visitantes da cidade mais interessados no seu passado, trata-se de uma fragata mercante oitocentista sem declarado contexto histórico em vez de um portentoso navio viquingue. Mas, História nunca faltaria em Novgorod. Nas imediações de uma tal de arcada Gostiny Dvor em que tínhamos apreciado o fim do dia anterior, uma série de novos templos ortodoxos e outros edifícios, levaram-nos a retomá-la.

Os anos passaram em Rus de Kiev. Apenas vinte antes da viragem para o século XI, e no seio de sérios eventos políticos que incluíram o assassínato de Oleg às mãos de um outro irmão, Vladimir viu-se obrigado a viajar à Escandinávia. Ali, com a ajuda do regente da Noruega seu parente, recrutou um exército. No regresso, não só reconquistou Novgorod e solidificou as fronteiras do reino contra as frequentes incursões de tribos búlgaras, bálticas e outras. Converteu-se ao Cristianismo e cristianizou Rus de Kiev.

A Crónica do eslavo Néstor descreve o quão criteriosa se revelou a sua decisão. Vladimir decidiu enviar emissários para apreciarem as distintas religiões dos estados poderosos que reclamavam que a Rus de Kiev adoptasse as suas fés. Quando os enviados lhe transmitiram as suas impressões, não tardou a rejeitar o judaísmo. Jerusalém tinha acabado se ser perdida para os muçulmanos. A seu ver, isso provava que Deus havia abandonado os Judeus. Sobre os Búlgaros muçulmanos, os emissários testemunharam ter sentido não existir felicidade, apenas desgosto. Bastante mais grave, ter-se-á revelado o facto de o Islão proibir a carne de porco e o álcool. Confrontado com este tabu, Vladimir terá observado “Beber é a alegria de todos os Rus. Não podemos existir sem esse prazer.”

Os enviados de Vladimir relatam ainda o que acharam da fé Cristã Latina e Germânica anterior ao Cisma. Nas igrejas do Ocidente, encontraram falta de beleza. Já quando se dedicaram a avaliar a crença cristã Ortodoxa do Oriente da Europa, presenciaram uma liturgia divina realizada na basílica de Hagia Sophia. A cerimónia deixou-os extasiados: “não sabíamos se estávamos no céu ou na Terra. Tal beleza, não a conseguimos descrever.” Vladimir mostrou-se agradado com esta derradeira narrativa dos seus homens. O facto da aliança com o Império Bizantino lhe assegurar grande vantagem política, tornou mais fácil a decisão. Hoje, os Russos preservam-se Cristãos Ortodoxos. Para o bem e para o mal, também são o povo europeu que mais álcool consome. Está no sangue da nação russa.

Durante muito tempo, as autoridades soviéticas tudo fizeram para mitigar a origem da nomenclatura “Rússia” e para que a população pensasse que era apenas e só eslava. Chegaram ao ponto de rejeitar apelidos que soassem a escandinavo ou germânico e a impingirem que Rúrik e a dinastia Rúrika nunca tinham existido. Quanto a isso, os novgorodienses não hesitam: o sangue demasiadas vezes alcoolizado dos russos também é viquingue. Foi bombeado para toda a nação por Novgorod e pelo estado de Rus de Kiev.

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