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Tempo de surf

Tempo de surf

Jovem surfista neozelandesa contempla o oceano Pacífico numa praia do norte da Baía de Hawke, no leste da Ilha do Norte. 

Ilha do Norte, Nova Zelândia

A Caminho da Maoridade

A Nova Zelândia é um dos países em que descendentes de colonos e nativos mais se respeitam. Ao explorarmos a sua lha do Norte, inteirámo-nos do amadurecimento interétnico desta nação tão da Commonwealth como maori e polinésia. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


São três as novidades que constata quem, como nós, chega pela primeira vez a terras de Rotorua: um aroma sulfuroso disseminado e intenso, a grande concentração de habitantes nativos e uma inesperada profusão de espectáculos culturais maori.

As duas últimas, mais que a primeira, atraíram-nos à cidade mas, ainda estávamos a quilómetros da sua entrada quando as partículas de enxofre na atmosfera nos invadiram as narinas. Quilómetro após quilómetro, embrenhámo-nos na zona termal mais dinâmica da Nova Zelândia, salpicada de géiseres, nascentes termais e poças de lama explosivas. Enquanto isso, o odor pestilento apoderou-se do interior do carro, das nossas roupas, bagagens, também das ruas e do quarto em que nos alojámos. Esse mesmo abrigo de beira de estrada estabeleceu um limite para a idiotice em que nos víamos há meses, a carregarmos uma tenda de campismo comprada, em Perth, no distante extremo ocidental da Oceânia. A tenda já nos tinha feito sofrer a bom sofrer para evitarmos pagar multas por excesso de peso das companhias aéreas. Decidimos livrar-nos dela e o Cash Converter que encontrámos pareceu-nos perfeito.

“Dá-me a ideia que não lhe deram grande uso!” atira Jonas, o jovem empregado de balcão maori, após o inevitável kia ora de boas-vindas e com boa-disposição e forte brilho no olhar.“ Desculpem mas, mesmo assim, vou ter que a examinar.” Enquanto o fez, o funcionário deu um seguimento frenético à conversa. Ao abrigo da famosa paixão maori pelo korero (tagarelice), falou de si e da família sem qualquer cerimónia ou complexos e questionou-nos, de forma inocente e interessada, quanto a nós e às nossas.  

Perdemos quase 70 dólares no negócio mas lucrámos a confirmação da afabilidade e vivacidade do povo maori, noção que tínhamos começado a formar, em Hobart, na Tasmânia, em convívio com Helena Gill uma anfitriã imigrada nas portas dos fundos da Austrália. E, noutros contactos na vasta Ilha do Sul, onde tanto a população geral como a maori são muito menores que as da vizinha do Norte. Só conhecíamos os maori desses primeiros contactos e, como a maior parte das pessoas que põem pela primeira vez os pés na Nova Zelândia, de “Piano” de Jane Campion - com Harvey Keitel a fazer de Baines, um marinheiro retirado e guarda-florestal que adaptara muitos dos costumes indígenas incluindo a excêntrica tatuagem facial - de alguns jogadores de râguebi e era quase só isso. Estava na altura de descobrirmos mais. Mesmo se em jeito de negócio, em nenhum outro lugar do país os maori exibiam tanto os seus costumes e rituais como em Rotorua. Confrontados com a inexistência de um verdadeiro festival ou evento étnico por aqueles dias, conformámo-nos com um dos espectáculos.

À entrada da aldeia temática, guerreiros munidos de bastões confrontaram-nos com os seus movimentos bélicos e esgares assustadores, usados ao longo do tempo para manterem ao largo os visitantes indesejados. Finda a ameaça, um chefe da aldeia saudou o recém-nomeado representante dos visitantes com um roçar de narizes acolhedor. Uma vez validada a nossa presença, deambulámos de casa em casa da pretensa povoação a admirar diversos costumes, artes e ofícios, alguns narrados e explicados pelos seus protagonistas. Seguiu-se um espectáculo musical e de dança que incluiu a mais desejada das actuações, um haka levado a cabo por homens e mulheres.

Hoje, menos de 40% dos quase 70 mil habitantes de Rotorua são maori, uma percentagem bem superior aos 15% do total da Nova Zelândia. Crê-se ter sido essa a última paragem de uma diáspora de mais de dois mil anos a bordo de grandes canoas waka que levou os polinésios do Sudeste Asiático até Fiji, Samoa, Tonga, ilhas da Polinésia Francesa e Cook, Havai e Ilha da Páscoa. Nos séculos posteriores à chegada a Aoteraoa – assim chamam os maori à Nova Zelândia – forjaram a sua própria cultura, diferenciada do resto da Polinésia pelo isolamento, o clima temperado em vez de tropical e a natureza condizente.  

Após o desembarque de James Cook de 1769 - 127 anos após a chegada pioneira do holandês Abel Tasman -, dependendo das zonas e das alturas, as relações entre os maiori e os europeus oscilaram entre uma cordialidade conveniente e as Guerras da Terra da Nova Zelândia mal resolvidas, em 1840, pelo polémico Tratado de Waitangi em que os colonos reconheceram que os maori eram os verdadeiros donos dos seus domínios e propriedades e que beneficiariam dos mesmos direitos dos súbditos britânicos.

Os nativos mantinham-se nos redutos ainda rurais das suas tribos. Mas, em 1930, o trabalho no campo já escasseava. Muitos indígenas migraram para as cidades fundadas pelos europeus. Essa confluência suscitou o abandono das estruturas tribais e a assimilação maori dos modos de vida ocidentais.

Mesmo se de forma menos óbvia que nas grandes urbes de Auckland e da capital Wellington, quando conduzimos pelos arredores de Rotorua, Taupo - onde demos pequenos passos para a humanidade subsumidos na névoa sulfurosa das Crateras da Lua - e outras povoações menores constatamos que a coexistência de maori e descendentes dos colonos apenas evolui.

Malgrado o acordado em Waitangi, os colonos já se tinham apoderado das melhores terras, com óbvia vantagem na vida moderna que impuseram à nação. Essa supremacia deixou os maori em apuros sociais e económicos, a começar pela dificuldade em aceder ao ensino superior e ter empregos qualificados e bem pagos. De acordo, a maioria das famílias nativas concentra-se em bairros periféricos com condições de vida bem mais precárias do que as da classe média de ascendência britânica ou de muitos emigrantes asiáticos ou de outras paragens. Em demasiados casos, dependem do cheque da segurança social, são mais propensos a doenças e a violência doméstica e constituem mais de metade da população prisional.

Mas, desde 1960, que a situação não pára de melhorar. Nessa década, um tribunal deu por ilegais as confiscações coloniais de terras. Pouco depois, o governo devolveu ao povo maori os seus lugares sagrados e recursos naturais. Para muitos maori que se consideram hóspedes dos brancos, só então terminaram as longas Guerras da Terra.  

O número de representantes maori no parlamento aumentou e o valor da cultura maori e do dialecto Te Reo – que já surge nos sinais de trânsito, mapas etc. etc. - dispararam com o aumento abrupto de visitantes estrangeiros às ilhas kiwi. Uma rede recente de jardins de infância, escolas e universidades garantem, agora, a educação na língua maori complementada por uma cadeia nacional de estações de rádio e canais de TV detidos e geridos pelos próprios maori que ganham mais e mais notoriedade.

Enquanto escrevemos este mesmo texto, decorre o campeonato do mundo de râguebi por terras dos velhos colonos ingleses. Como sempre acontece, a Nova Zelândia é a selecção que mais se destaca e atrai. Faz-nos mesmo interromper a sua criação para assistirmos ao massacre da França aos braços dos All Blacks (62-13) nos quartos de final. Sete dos jogadores All Blacks presentes na competição são maori. Todos os jogos da selecção kiwi têm início após hakas exuberantes que os maori concederam que fossem dançados também por jogadores pakeha e que até a nós intimidam. Aliás, há alguns anos, quando os maori decidiram introduzir um novo haka, toda a comunidade pakeha do râguebi se envolveu no debate, algo que ajuda a exemplificar a seriedade do compromisso interétnico que presenciámos dia após dia, por toda a Nova Zelândia, isto quando as próprias identidades maori e pakeha se diluem sob a fusão da genética. À saída de uns duches de praia de Whangarei, conhecemos Renee Lee. No meio do palavreado, a jovem surfista tatuada devolve-nos a complexa questão: “Maori..? Eu nunca sei muito bem se sou maori ou pakeha. O meu pai é maori e a minha mãe holandesa. A minha filha é loura... Digam-me lá vocês: o que acham que sou?”