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Dali dos pequeninos

Dali dos pequeninos

Visitantes de bai divertem-se com um jogo gigante construído numa encosta da montanha Cangshan, acima de Dali.

Dali, China

A China Surrealista de Dali

Encaixada num cenário lacustre mágico, a antiga capital do povo Bai manteve-se, até há algum tempo, um refúgio da comunidade mochileira de viajantes. As mudanças sociais e económicas da China fomentaram a invasão de chineses à descoberta do recanto sudoeste da nação.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


De um momento para o outro, os petiscos surgem-nos pela frente como um desafio civilizacional a que não nos podemos esquivar. Temos grilos, gafanhotos e larvas, ligeiramente fritos, alinhados em espetadinhas de pau, expostos num equilíbrio precário na extremidade do grande wok em que, como os peixes de rio, os pequenos camarões e as restantes iguarias, a dona do negócio os cozinhava. Inauguramos a degustação pelos gafanhotos. Mais que estaladiços, são crocantes. Revelam um surpreendente gosto de bolacha de água e sal, das mais salgadas. Passamos aos grilos. Já tínhamos provado Doritos piores pelo que os repetimos sem esforço. Suspeitávamos das larvas e com razão. Confirmaram-nos uma textura esponjosa repulsiva. O seu travo, de algo entre o musgo e o lodo, repugnou-nos a condizer. Fazemos as caras feias que se esperavam, agradecemos à vendedora a atenção intrigada que nos prestara e regressamos ao périplo descomprometido pelas ruas geométricas da velha cidade muralhada.

Nos anos mais recentes, também Dali ganhara um sabor agridoce. Até meio da década de 80, manteve-se como uma das preciosidades históricas de Yunnan, uma das províncias mais afastadas das grandes metrópoles chinesas, a capital Pequim, Xangai, entretanto, Hong Kong e outras. Por lá passava a rota mochileira que explorava o recanto sudoeste da China para logo subir rumo a Lijiang, a Shangri La e a Lhasa, o coração trespassado do Tibete.

Por essa altura, Dali, à imagem das restantes paragens, preservava-se tranquila e genuína. Os forasteiros remediados traziam consigo, aos bochechos, novidades e diferenças que surpreendiam os nativos. Estes, preocupavam-se apenas o necessário com o acolhimento dos visitantes. Como as muralhas defenderam a velha Dali de ataques inimigos sem conta, o respeito cultural mútuo preservou a integridade da cidade. Assim foi durante algum tempo, até que, como se previa, a espectacularidade de Yunnan extravasou. Com a província destacada na imprensa internacional de viagens, os forasteiros aumentaram. Os moradores deixaram de resistir ao proveito amochilado que batia cada vez mais às suas portas. Simples lares foram transformados em pousadas, lojinhas de artesanato e recordações e em bares e restaurantes que começaram a servir crepes, kebabs e falafel, não só os siapaos, jiaozis e as iguarias excêntricas, demasiadas vezes demasiado picantes da região.

Após a viragem para o século XXI, uma das consequências do desenvolvimento tecnológico e financeiro da China, foi o surgimento de uma classe média endinheirada e que reclamou o direito a viajar. Lugares como Dali – e, ainda mais, Lijiang – depressa se viram invadidos por hordas de compatriotas, sobretudo de etnia han, exigentes e sobranceiros que agora percorrem as ruas e ruelas de olhos postos nas bandeirinhas tremelicantes dos guias. Por sorte, chegamos à região em época baixa, longe de qualquer um dos períodos de férias mais populares na China.

Apontamos ao mercado Shaping. Ainda era cedo e lá confluiam produtores das aldeias e lugarejos nas imediações de Dali, de em volta do grande lago Erhai e das montanhas que o contêm. Subimos a avenida principal em que decorrem as transacções atentos às mercancias e aos modos rudes dos vendedores. Mulheres de chapéus de vime sentadas no chão tentam impingir vassouras, cestos e outros bens, dispostos numa longa montra improvisada.

Logo ao lado, uma negociadora de matéria-prima para extensões comprava cabelo feminino. Com aparente sucesso, tais eram as pretendentes à espera para sacrificar os seus. Quando espreitamos o negócio, a senhora repara no da Sara. Sem cerimónias, apalpa-o e avalia-o. De calculadora em riste, faz-lhe uma proposta, alta que bastasse para a tirar do sério e quase – mas um quase bastante remoto – para que considerasse a oferta. De acordo, prosseguimos com a reserva capilar intacta e o mesmo número de yuans com que tínhamos chegado.

Mais para cima na rua, cruzamo-nos com bancas de vegetais, de raízes terapêuticas e de vestuário, com verdadeiros buffets de manjares exóticos, alguns bem mais desafiantes que os insectos fritos que tínhamos já provado umas horas antes. As mulheres que geriam as bancas de comida mantinham espalhadas tacinhas e alguidares com distintos molhos e ingredientes, massas, legumes, carnes. Cozinhavam-nos com recurso a pequenos fogões ou woks e serviam uma comitiva esfomeada que gritava os pedidos, se instalava e devorava as refeições com sofreguidão, sem desperdiçar os momentos para respirar com demasiada conversa.

Os produtos à venda e os vendedores sucediam-se. E confirmava-se a aversão dos Bai às nossas abordagens fotográficas. Em poucos lugares à face da Terra sentimos uma resistência tão forte às camaras e objectivas. Pedirmos permissão gerava recusas. Para mal dos nossos pecados, éramos rejeitados por uma série de personagens incríveis daquela China campestre e profunda, rica em modas e contrastes condizentes. Víamos os camponeses em trajes e boinas maoistas, senhoras bronzeadas sob longos lenços que se confundiam com hijabs. Cruzávamo-nos com negociantes de fatinho e chapéu de aba, com avozinhas de vestes garridas 100% bai ou com o jovem excepcional que, enfiado num fato branco e chapéu de J.R. Ewing han das Ásias, se sentia mais rejubilante que qualquer outro compatriota.

Malgrado a abundância de figuras e a variedade de estilos, fotografarmos sem pedirmos suscitava esquivas imediatas ou raspanetes em dialecto nativo que, até poderiam ser bem dispostos, algo que a forma brusca de comunicar dos chineses em geral e, em particular dos Bai, não nos permitia depreender. Fazemos o que podemos. Quando regressamos ao interior das muralhas, desesperamos por uma distração que disfarçasse a inesperada frustração.

Dos seus pórticos para dentro, Dali vivia sob uma deslumbrante dupla personalidade. Víamo-la entregar-se aos mais distintos rituais de entretenimento com que prendava os forasteiros. Estes, fotografavam-se em trajes históricos Bai, protagonizavam intrincadas produções casamenteiras sobre os adarves ou os bastiões da fortaleza ou acotovelavam-se na eminência das torres de vigia, a que ascendiam para fotografarem os panoramas em redor.

Em simultâneo, noutras bolsas existenciais, o dia-a-dia local prosseguia à margem de toda aquela comoção turística. Os reformados entretêm-se em volta de mesas disputadas de mahjong. Talhantes cortam as peças de carne recém-chegadas, o dono de um restaurante chinês retoca a montra exuberante composta de molhos e arranjos de  vegetais. Ao lado, um jovem provavelmente seu filho implora fogo a um carvão de tal forma resistente que o força a substituir os abanadores de verga por um secador de cabelo.

Prosseguimos. Confrontamo-nos com batalhões tagarelas de alunos que, livres das aulas e entretidos com sucessivas tropelias, desfilam os uniformes azuis-escuros da sua classe estudante.

Embrenhamo-nos numa tal de Renmin Road. Lá encontramos a escola de que provinham. Desviamos para a Xinmin Road e damos de caras com uma igreja. Só por si, um templo cristão naquelas paragens limítrofes e crentes no politeísmo tradicional chinês ou, vá lá que seja, budistas ou muçulmanas da China já seria de admirar. Como se não bastasse, era uma das igrejas mais incomuns com que alguma vez nos tínhamos cruzado, com formas fiéis à arquitectura tradicional chinesa.

A igreja foi erguida em 1927 por missionários franceses com o propósito de revitalizar o Catolicismo de Yunnan, introduzido na região no século XVII, numa altura em que os missionários e os cristãos recém-convertidos eram frequentemente martirizados. Durante a Revolução Cultural Chinesa, sofreu uma destruição severa e foi fechada. Só seria renovada e reaberta pelas autoridades em 1984, quando recebeu um estatuto de Protecção Histórica que lhe permitiu perdurar sem mais atribulações. Preserva, assim, várias secções exuberantes de telhados retorcidos coroados por uma cruz dourada. Quando entramos, está vazia. O interior revela-nos um espaço similar ao das mais modernas e sóbrias naves das igrejas protestantes ocidentais. Num quadro exposto sobre o altar, Cristo traja uma túnica vermelha, tem uma capa azul às costas e surge envolto de um brilho dourado, à laia de profeta super-herói. As duas pinturas rudimentares dos anjos que o ladeiam, os caracteres chineses amarelos por debaixo complementam um conjunto artístico religioso de tal forma inusitado que nos deixa a coçar as cabeças. Fosse como fosse, depressa se esgotou o tempo para o apreciarmos. A guardiã do templo surge do nada e informa-nos que tem que o fechar, o mesmo que faziam milhares de seus concidadãos para quem já ia longo o dia à frente das lojas e negócios.

A iluminação artificial da área entre muralhas antecipa-se à penumbra. Aquece e empresta novo esplendor às torres de vigia sobre os pórticos de entrada. Os telhados em bico recebem dourados que contrastam com o azulão lusco-fusco do céu sempre limpo e com o verde reforçado dos muros abaixo, já de si forrados de vegetação trepadeira. Subimos a uma destas torres e duma janela no cimo fortificado, admiramos como a cidade se rendia à noite.

De regresso ao solo, a versão nocturna de Dali continua a surpreender-nos. O som de música chinesa popular desperta-nos os sentidos. Em perseguição da melodia, dobramos uma esquina apertada.

Sem que o esperássemos, confrontamo-nos com uma espécie de Flash Mob local. Dezenas de moradores tinham-se concentrado numa praça desafogada. Sem mais demoras, uma anfitriã idosa e um DJ inauguram a música e as hostilidades. As participantes integram uma ampla coreografia e dançam com uma graciosidade e harmonia, só possíveis pela repetição diária do ritual. Após a primeira canção, dançam várias outras, cada qual digna de novos movimentos individuais, para gáudio de alguns jovens que, à margem, riem a bom rir e, dessa sua maneira, celebram a vitalidade das mães, das avós, das vizinhas.

Quarenta minutos depois, de forma tão espontânea como havia começado, o encontro chega a um fim. A anfitriã interrompe de forma seca a a canção que se arrastava. À boa maneira chinesa, as dançarinas limitam-se a deixar de dançar. Não se despedem. Não se entregam a qualquer tipo de contacto ou lamechice afim. Em vez, viram as costas às senhoras que estão mais próximas e seguem o seu caminho. Há muito que Dali é como é. Os visitantes aos magotes ainda estão por a mudar.

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