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Dourado sobre azul

Dourado sobre azul

Charretes no Parque Itzamná, com o lusco-fusco a apoderar-se de Izamal.

Izamal, México

A Cidade Mexicana, Santa, Bela e Amarela

Até à chegada dos conquistadore espanhóis, Izamal era um polo de adoração do deus maia supremo Itzamná e Kinich Kakmó, o do sol. Aos poucos, os invasores arrasaram as várias pirâmides dos nativos. No seu lugar, ergueram um grande convento franciscano e um prolífico casario colonial, com o mesmo tom solar em que a cidade hoje católica resplandece.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Após dia e meio, a frente fria que nos perseguia e apoquentava desfaz-se sobre a Península de Iucatão. Tínhamo-la passado a explorar os arredores de Mérida, com incursões a vários cenotes, as lagoas subterrâneas abundantes nesta região oriental do México.

À segunda tentativa, a meteorologia recompõe-se. Izamal encanta-nos de vez. Quando lá chegamos de Chichen Itza, a meio da tarde, o sol que fulminava a paisagem verdejante havia-se suavizado. Luís, o condutor, justifica-se com a caloraça resistente para se furtar a nos acompanhar: “não, meus amigos, eu, aqui, já vim vezes sem conta. Não há nada que fosse agora descobrir. Divirtam-se vocês. É um lugar bonito, mas simples, não têm como se perder.”

Uma feira de rua pejada de marquesitas (pequenos negócios sobre carrinhos de empurrar), bancas mais ambiciosas de petiscos e um bailarico pitoresco animam a praça central. Famintos de tanto tempo entregues às pirâmides maias e presos ao percurso que as ligava à cidade, começamos por nos instalar num comedor sob as arcadas do Mercado Municipal Izamal Iucateca. Lá devoramos pitéus bem mexicanos: frijoles, chaya com huevos e as horchatas a que, desde que disponíveis, é raro resistirmos.

Almoçamos com vista privilegiado sobre a vaqueria que, sem que o esperássemos, se enrola e desenrola, ali ao lado, ao som das trompetes, das guitarras, dos acordeões, violinos e da voz estridente dos cantores de serviço. Uma troupe de dançarinos, eles trajados com fatos, calças e panamás brancos, elas com vestidos brancos e floridos, colares a pender do pescoço e flores a prender os cabelos, rodopia de braços erguidos ao céu, ao ritmo acelerado e estridente da música. De quando em quando, estes protagonistas interrompem a sua exibição. Então, o povo de Izamal toma conta da festa e fá-la arrastar-se sem clemência.

Terminamos o animado almuerzo. Acompanhamos o bailarico por algum tempo mais. Até que constatamos que o sol tinha descido demasiado do seu zénite tropical e nos dedicamos à missão que ali nos tinha levado: Izamal, a povoação, cidade das três culturas – maia, colonial e a actual mestiça -, uma das primeiras a ser declarada pelas autoridades mexicanas “pueblo mágico” da nação.

Só a esquina da Calle 31A com a 30 nos separava da rampa empedrada que conduzia ao antigo Convento de San António de Pádua, abrigado numa plataforma verdejante acima do âmago colonial da cidade. Passamos pela marquesita “La Bendición de Dios” e inauguramos a ascensão. Cruzamo-nos com visitantes que, alheios ao pandemónio popular abaixo, completavam os seus périplos religiosos ao templo.

O cimo da ladeira revela-nos o pórtico de entrada intrincado, destacado acima das arcadas em redor do complexo. Reparamos pela primeira vez no amarelo predominante que alegrava Izamal. Mesmo se manchado por um caos de produtos e da gente que o percorria, o mercado Mercado Municipal Izamal Iucateca era amarelo. Os edifícios térreos em volta do Parque 5 de Maio, idem. Como amarelo se revelou todo o exterior do convento.

Entramos no jogo de sombras criado pelo ocaso iminente e cruzamos o pórtico. Do lado de lá, um relvado viçoso tão amplo como o de alguns campos de futebol preenchia o átrio rectangular.

Estávamos perante um dos conventos mais antigos do hemisfério ocidental, construído, em 1561, sobre as ruínas de Pap-hol-chac; erguido aliás, com as mesmas pedras que compunham esta que foi uma das maiores pirâmides do Iucatão. Logo após a chegada e a imposição dos conquistadores hispânicos aos povos mexicanos, a destruição dos templos maias sistematizou-se.

Um dos principais responsáveis terá sido o frade Diego de Landa. De Landa desembarcou em terras de Iucatão nesse mesmo ano de 1561, incumbido pela Coroa Hispânica de converter os nativos. Conduziu a missão quase sempre à força, com métodos, por vezes brutais. Crê-se que, entre outras atrocidades, mandou queimar 27 códices e destruir milhares de ídolos dispersos pelas povoações maias. Graças à sua intolerância, só três manuscritos maias subsistem, e contra a vontade do frade que não suportava a ideia de muitos dos recém-convertidos continuarem a praticar ritos da sua antiga religião, fundidos com a crença e os rituais do catolicismo.

Reza a história que o proselitismo de Landa era de tal forma cruel que, quando chegou aos ouvidos dos mestres da Inquisição Espanhola, estes se chocaram e chamaram Landa de volta à metrópole. Subsistem dúvidas quanto à reacção do frade à descompostura que recebeu. Certos historiadores afirmam que se terá arrependido e que se lembrou de compensar o seu comportamento criando “Yucatan antes y despues de la Conquista”. Outros, creem que o a Inquisição o terá obrigado a escrever o livro. Seja como for, por mais contraditório que pareça, a obra escrita de Landa é, ainda hoje, uma fonte crucial de conhecimento dos Maias e da sua cultura. Muito devido à sua acção pioneira, Izamal tornou-se um importante polo católico de peregrinação, em vez de maia.

A poucos metros da entrada da nave da igreja da Purísima Concepción, um Papa João Paulo II de bronze contempla o horizonte do cimo de um pedestal que versa. “Desde Yucatan, Bendigo a los Hermanos Indígenas y a Todos los Habitantes del Continente Americano.” A multidão que acolheu e louvou o sumo-pontífice em Agosto de 1993, presta-lhe um comovente tributo cromático.

Até essa altura, como é apanágio das povoações coloniais mexicanas, as casas da cidade estavam pintadas em tons pastel. Várias eram já amarelas. Mas, há mais de um milénio que Izamal funcionava como um centro de peregrinação em que os maias veneravam Kinich Kakmo, o seu deus do Sol. Ora, boa parte dos habitantes partilham a mesma ascendência maia e falam, ainda hoje, tanto maia como castelhano.

Quando, em 1993, foram informados de que João Paulo II visitaria Izamal e lá daria missa concordaram de imediato na necessidade de embelezar da cidade. Um deles sugeriu que deveriam pintar todos os edifícios, convento incluído, da mesma cor. O amarelo pareceu, a todos, óbvio. Izamal já tinha a relação maia milenar com o Sol. O milho que alimenta a cidade e a região é amarelo, como o é a metade esquerda da bandeira do Vaticano, a nação católica de que procederia o Papa para os abençoar e prendá-los com uma estátua da Virgem Maria com uma coroa de prata.

Contornamos o átrio pelo prolongamento das suas arcadas. Até que damos com nova rampa e com a saída noroeste do complexo. Também esta conduzia a um parque, o Itzamná, tal como a cidade baptizado em honra do deus maia supremo, o regente dos céus, do dia e da noite.

Descemos a rampa. Já de volta ao plano inferior e mundano da cidade, confrontamo-nos com uma praça de charretes ali estacionadas para proporcionarem passeios pelas ruelas da cidade. Negamos as insistentes propostas dos donos e seguimos em modo pedestre de exploração.

Com a festa ainda a concentrar as atenções e animação no Parque 5 de Mayo, esta face de Izamal permanecia numa paz sedativa. Os condutores das charretes conformavam-se com o interregno e conversavam acalmados pela talassoterapia da fonte e do lago no centro da plaza. Um ou outro raro ciclista ou motociclista contornavam o parque pela sua frente. E uma camioneta de distribuição da Coca-Cola, desafiava o amarelo predominante com a arrogância do seu vermelho capitalista.

Sem que os esperássemos, malgrado o apelo cromático quase sanguinário do camião e do “Disfrútala” destacado a branco sobre a traseira, é uma outra bebida, 100% mexicana, que acaba por nos atrair.

Atravessamos o parque. A sua aresta noroeste faz confrontar as Calles 31A e 28. Ali, o proprietário do café e mercearia que ocupava o meio da bifurcação reabastecia o estabelecimento para os dias vindouros servido por uma pick up carregada de caixotes de cerveja Sol. Uma placa rendilhada anunciava “Prohibido o Consumo de Bebidas Alcohólicas em la Via Publica”. De acordo, aos poucos, Francisco e alguns auxiliares descarregavam-nas para o interior do negócio onde, a salvo dos caprichosos agentes da lei, lhe trariam bom lucro. Naquele peculiar cenário pós-colonial amarelo, a descarga exibia uma forte fotogenia publicitária. Sem termos como lhe resistirmos, metemos conversa com o grupo de homens e dispomo-nos a fotografar a cena até que os actores se mostrassem saturados da intrusão.

As luzes dos velhos candeeiros acendem-se e anunciam a entrada em palco do lusco-fusco. A iluminação nos muros e sob as arcadas conferiam ao velho convento um visual holográfico, como se fosse, a qualquer momento, levitar para a abóbada celeste.

Regressamos ao Parque de 5 Mayo. Por aqueles lados, a vaqueria tinha terminado, mas o bailarico saíra reforçado por dezenas de jovens recém-chegados e sedentos de diversão. Há muito que Luís nos aguardava, ansioso pelo fim da já longa jorna e pelo descanso no seu lar doce lar.

Antes de a ele regressarmos, subimos a rampa do convento uma derradeira vez para contemplarmos o panorama em redor. Descortinamos, ao longe, uma pequena multidão sobre os 34 metros do que restava da pirâmide Kinich Kakmo, do deus do Sol

O grande astro preparava-se para mergulhar nas profundezas da mitologia e da Terra. Estava hora de recolhermos ao refúgio nocturno merideño que nos calhara.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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