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Para diante, sempre

Para diante, sempre

Ganês admira a estátua dourada de Kwame Nkrumah, um dos mentores da independência do Gana e o primeiro presidente da nação.

Acra, Gana

A Cidade que Nasceu no Berço da Costa do Ouro

Do desembarque dos navegadores portugueses à independência em 1957, sucederam-se as potências que dominaram a região do Golfo da Guiné. Após o século XIX, Acra, a actual capital do Gana, instalou-se em redor de três fortes coloniais erguidos pela Grã-Bretanha, Holanda e Dinamarca. Nesse tempo, cresceu de mero subúrbio até uma das megalópoles mais pujantes de África.


(texto)


O trânsito de Acra pode revelar-se coisa séria. Vem à conversa de cada vez que abordamos os planos do dia seguinte e nunca é considerado de ânimo leve. Pois, nessa manhã, já pouco ou nada podíamos fazer para o evitar. Não tínhamos acordado nem demasiado cedo nem suficientemente tarde. O calor seco aumentava e exasperava Ben um funcionário do turismo nacional encarregue dos Eventos Especiais que respeitava a nossa vontade mas que se roía pelo ar condicionado a que estava habituado.

Nós, queríamos sentir o verdadeiro Gana. Tirar-lhe a temperatura e sujeitar-nos às suas forças e maleitas. Para os incontáveis vendedores de estrada, nada melhor que as ruas bem engarrafadas de carros, de táxis e, de preferência, de tro-tros (pequenos autocarros) à pinha. Sucediam-se às janelas abertas do jipe cobertos de uma panóplia de aparelhinhos electrónicos de fabrico chinês e de baterias, ou a oferecer raspadinhas e recargas de telemóvel, pastilhas elásticas, rebuçados, frutas e amendoins apresentados apenas por mulheres em fascinantes pirâmides que mantinham equilibradas sobre a cabeça.

Distraídos por esta oferta, pelos grandes outdoors coloridos e divertidos que admirávamos bem acima da Liberation Road, chegámos ao fulcro político da cidade, a Casa Flagstaff, palácio presidencial da nação, também conhecida por Golden Jubilee House e que, à data da inauguração, em 2008, teve um custo a condizer, entre 40 a 140 milhões de dólares, segundo afiançam fontes com interesses opostos. “Não se tiram fotos por aqui, O.k. ? É proibido. Se tirarem a responsabilidade é vossa!”

A Liberation Rd, transforma-se em Independence Avenue. Por conveniência dos sucessivos presidentes, o quartel general da polícia bem como as residências geminadas de centenas dos seus efectivos ocupam todo um quarteirão próximo. Destacam-se das suas pequenas varandas discos de parabólicas que fornecem TV internacional aos oficiais. A fachada dos prédios surge coberta por outdoors de marcas que aproveitam a localização privilegiada. Um deles impinge lares bem mais invejáveis, as “Imperial Homes: 7 Town Homes, Ultimate Luxury”.  

Nos últimos tempos, Acra produziu mercado para produtos do género, isto sem menosprezarmos o facto de a pobreza ainda habitar os seus intermináveis arredores.

 A capital lidera o boom económico do Gana que é nem mais nem menos que o segundo maior produtor de ouro africano atrás apenas da África do Sul. O Gana, por sua vez, tem mantido um dos PIBs mais elevados da África Ocidental e, é desde 2011, uma das economias que mais crescem no mundo.

Aos poucos, aproximamo-nos do litoral do Golfo da Guiné e do Kwame Nkrumah Park, um reduto da cidade dedicado ao homem que conduziu o Gana à independência da Grã-Bretanha, que serviu a nova nação como seu primeiro-ministro e, logo, como presidente. Nkrumah tornou-se respeitado no Gana mas não só, também devido à persistência com que defendeu o Pan-Africanismo e ao seu papel enquanto membro fundador da Organização da Unidade Africana, de que se tornou o terceiro líder.

Repetem-se as excursões de miúdos inquietos que os professores agrupam aos pés da sua estátua dourada para logo inaugurarem palestras formadoras. Acima, Nkrumah aponta, determinado, para a frente, diz-se que também em direcção ao parlamento ganês. Foi a forma com que o autor da estátua ilustrou uma das expressões predilectas do político: “Para diante, sempre, para trás, nunca.”

Mas a estátua que se destaca, altiva, em frente ao mausoléu de mármore majestoso que a antecede está longe de contar a história toda. Completa-a uma outra, mais antiga, decapitada, que subsiste numa área aberta e descaracterizada poucos metros após a entrada no parque.

Em 1962, Nkrumah conquistara o Prémio Estaline da Paz. Alinhou-se e ao Gana com a esfera comunista mundial. Em plena Guerra Fria, o mais provável é que a CIA tenha actuado de forma a trazer o Gana para o mundo capitalista com apoio de outros governos incluindo o da Grã-Bretanha e o francês. Como sempre acontece nestes casos, a verdade jaz, difusa, sob um manto de acusações e contra-acusações rebatidas. A outra sua estátua permaneceu em frente ao velho parlamento de Acra.

Factual foi a forma como, em 1966, o rival Emmanuel Kwasi Kokota e a sua National Liberation Front tomaram o poder enquanto Nkrumah levava a cabo uma visita oficial ao Vietname do Norte à China. Nkrumah nunca mais regressou ao Gana. Exilou-se em Conacri, receoso de ser raptado e assassinado. Faleceu em Bucareste, em 1972, com 62 anos, de cancro na próstata.

Durante o golpe que depôs Nkrumah, a estátua foi vandalizada. Até 2009, a sua cabeça esteve desaparecida. Nesse ano, o governo lembrou-se de a reclamar. Uma mulher que a tinha guardado devolveu-a. Por fim, a cabeça foi colocada sobre um pedestal, junto à restante estátua.

Apontamos à Black Star Square, a praça que Nkrumah mandou construir para honrar a visita da rainha Elisabeth II alguns anos após a Grã-Bretanha ter liberado o Gana. Encontramo-la tão deserta como se mantém em quase todo o ano, ainda que mais colorida. Dezenas de toldos brancos ou com as cores da bandeira do Gana precedem o grande arco da independência em que os representantes dos países convidados acompanham as celebrações nacionais. Apuramos que está a ser preparado um encontro de fé de uma das várias super-igrejas evangélicas activas no país. Detemo-nos, assim, uns instantes a admirar o monumento ao soldado desconhecido e fazemo-nos a outra zona de Acra em tudo distinta.

Atravessamos Victoriaborg e damos com outro bairro formado por casario entre o antigo e o abarracado e, de novo, com forte azáfama comercial. Percorremo-lo até chegarmos a um farol sobranceiro listado de vermelho e branco que nos confirma que estamos em Jamestown. Acossam-nos, ali, alguns candidatos a guias.

Por mais anos que passem desde o fim do período colonial, Acra não tem como se livrar dos traços urbanísticos das potencias que disputaram a região séculos a fio. A cidade de hoje acolhe dois milhões e duzentos mil habitantes. Dispõe-se em redor de um forte britânico, de um dinamarquês (Christianborg) e de outro holandês (Fort Usher) e integrou as comunidades que viviam nas imediações. Jamestown desenvolveu-se em função do James Fort britânico – hoje usado como prisão. A sua população ribeirinha depende quase na íntegra da pesca que, nem de longe nem de perto, lhe garante conforto de vida quanto mais prosperidade.

Na base do farol, dezenas de taxistas preparam as suas relíquias automóveis para as próximas viagens. Um homem e uma mulher jogam um dos Ludos de cartão populares não só no Gana mas também nos vizinhos Togo e Benin. Este ludo, em particular, surge ilustrado com quatro figuras importantes do país entre cantores, políticos e jogadores de futebol; outros contam com personagens de fama planetária. Por essa altura, o guia que conquistara o direito de nos acompanhar forçava já o seu papel e o pagamento que, no fim do percurso, haveria de reclamar. “É ela que está a ganhar!” afiança-nos, confiante de que a missão lhe começava a correr bem. “Já tinham visto este jogo? Toda a gente joga isto por cá. Muitas vezes traz a foto do vosso Cristiano Ronaldo.” Subimos ao topo do farol. As suas explicações desdobram-se, ansiosas, num âmbito bem mais abrangente de temas.  

Damos a volta ao varandim e a Acra mais próxima revela-se-nos. Jamestown surge em óbvio destaque, o seu areal vasto e repleto de barcos de pesca e redes para diante, um campo de futebol pelado e demasiado desviado do padrão rectangular para acreditarmos que teria medidas oficiais. Um casario gasto e cinzentão que se prolonga a toda a volta do Fort James. Regressamos ao solo.

O guia conduz-nos pela povoação, ao longo de um litoral piscatório com aroma a condizer. Nesta praia ampla nada condizente com um cenário tropical invejável, centenas de pescadores e varinas em trajes com padrões garridos da África Ocidental encarregam-se da faina do dia. Ainda percorremos as ruas interiores do bairro que preservam testemunhos encantadores sem bem que algo decadentes dos tempos em que os britânicos controlavam a Costa do Ouro: a velha estação de correios, o mercado abrigado num edifício de ferro-forjado verde-amarelo.

De Jamestown, viajamos, em vão, até ao castelo de Osu (antigo Christianborg). Havia recentemente sido capturado pelo exército ganês para suas instalações militares. Passamos pela rua homónima, essa, aberta ao público e cosmopolita, pejada de restaurantes, de lojas de roupa e de artesanato em que visitantes de todas as partes procuravam as melhores compras pelo menor número de Cedis – moeda ganesa - possível.

Anos antes de viajarmos para o Gana, tínhamos admirado um documentário sobre os incríveis fazedores de caixões de Acra. Nunca mais nos esquecemos do tema e resolvemos investigar se a sua actividade se mantinha tão viva como então. Frank, um outro motorista da autoridade de turismo nacional, acha piada ao repto e conduz-nos.

Saímos para os arredores litorâneos de Acra. Damos com a primeira oficina, atrás de paredes destruídas e de algum entulho. “Agora já são muitas menos, informa-nos Frank. O governo decretou o alargamento desta estrada e correu com grande das oficinas de caixões que aqui se concentravam. Sobram algumas mas não tem comparação com as que existiam antes.” Investigamos o atelier e o trabalho dos carpinteiros. Identificamos, num ápice, caixões excêntricos em forma de máquina de filmar, de martelo, de besouro e de outros animais, o que quer que os falecidos ou as suas famílias tenham desejado e encomendado a tempo do derradeiro suspiro.

Um dos jovens carpinteiros interrompe os vaivéns da sua plaina. Dá-nos as boas-vindas e mostra-nos todo um catálogo plastificado, longe dele sugerir que iríamos necessitar dos seus produtos nos próximos tempos.

Ainda visitamos uma oficina concorrente mais próxima de Acra. Recebe-nos Eric, também ele ocupado a terminar um grande peixe fúnebre encomendado à última hora. “Este está a dar-me bastante trabalho. É em madeira de lei. Dependendo das posses das pessoas, podemos fazer os caixões nesta madeira ou em madeira mais fraca. Quando nos encomendam do estrangeiro faço-os sempre em madeira de lei. Se recebo muitas encomendas de fora? Sim, sim, graças a Deus, recebo. Eu vou a algumas feiras. Tenho até clientes que revendem os meus caixões nos seus países”.

Subimos ao primeiro andar de uma estrutura feita de tábuas desprovida de parapeitos ou outra protecção contra eventuais quedas. Fazia de montra e acomodava vários outros caixões exóticos. Um tinha a forma de um velho telemóvel Nokia, outro de garrafa de Star - a mais famosa cerveja nacional - outro ainda de um avião da Ghana International Airlines. Pedimos ajuda a Frank e fotografamo-nos dentro da urna da cerveja Star. Estávamos prestes a partir. Queríamos levar do Gana apenas boas-recordações.