Esconder Legenda
Mostrar Legenda
Voo marinho

Voo marinho

Moa entra no mar raso de braços abertos, numa pose evocativa do culto de tangata manu

Ilha da Páscoa, Chile

A Descolagem e a Queda do Culto do Homem-Pássaro

Até ao século XVI, os nativos da Ilha da Páscoa esculpiram e idolatraram enormes deuses de pedra. De um momento para o outro, começaram a derrubar os seus moais. Sucedeu-se a veneração de tangatu manu, um líder meio humano meio sagrado, decretado após uma competição dramática pela conquista de um ovo.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Ditaram o destino geológico e a recente urbanização colonial chilena que a caldeira mais exuberante da Ilha da Páscoa ficasse encaixada no recanto sudoeste do seu quase triângulo, num domínio verdejante trancado pela enorme pista do aeroporto, abaixo da capital Hanga Roa.

Tínhamos prestado a nossa homenagem à maior parte das formações de moais que guardavam a ilha e visitado a pedreira de Rano Raraku em que os nativos antes os geravam. Estava na hora de abordarmos Ranu Kao e a velha aldeia vizinha de Orongo. Metemo-nos no jipe que usávamos há vários dias. Contornamos o espaço vasto do aeroporto. Detemo-nos junto ao início do trilho que conduz à caldeira do vulcão extinto, há muito um lago com a superfície coberta por um manto de retalhos multicolor de erva verdejante e água escura. Do cimo da orla, o cenário arredondado por diante arrebata-nos. Aquela era, de longe, uma das paisagens mais incríveis de toda a Polinésia e do oceano Pacífico em redor. Ficamos uns bons vinte minutos a contemplá-la. Só passado esse tempo, sentimos justo prosseguirmos borda fora rumo ao mar azulão e a Orongo.

As ruínas da povoação cerimonial estavam logo por ali. A ausência de outras pessoas, um silêncio natural desafiado pelo vento, pelo ressoar difuso do Pacífico abaixo e por ocasionais guinchos de aves marinhas envolveram a caminhada e a entrada na povoação de um mistério e solenidade que nos chegaram a arrepiar. Por fim, atingimos a secção em que a falda da caldeira quase se abria ao oceano. No extremo leste dessa espécie de falha, confrontamo-nos com um amplo crasto de construções feitas de pedras empilhadas com o interior apenas acessível por aberturas ínfimas alinhadas junto ao solo ervado.

Diante do agrupamento, junto ao limiar da aldeia e do sudoeste de Rapa Nui, encontramos uma formação rochosa repleta de petróglifos intrincados. Mesmo se a visão distante mas rival de três ilhéus perdidos na imensidão do oceano e do céu nos reclamava a atenção, examinamo-los com cuidado.

O vento era, ali, mais intenso. Fazia ondular o verde vegetal a nossos pés e o azul marinho-celeste sem fim. Ao mesmo tempo, rodeava os ilhéus de um branco pulsante. Estimulava-nos a curiosidade quanto ao que levara os indígenas rapa nui a instalar-se naqueles confins indómitos da sua ilha e a sulcar as rochas com tanta dedicação.

Como tudo o que diz respeito à Ilha da Páscoa, o tema intriga e apaixona uma larga comunidade de historiadores, arqueólogos e outros estudiosos. Teorias não faltam. Nem explanações aturadas dessas explicações. Em algo, a maior parte parece coincidir: uma nova realidade surgiu pouco depois de os indígenas rapa nui terem começado a derrubar os moais que antes haviam esculpido e erguido.

De um momento para o outro, Make Make, o deus criador, supremo e omnipotente deixou de proteger o povo Rapa Nui, incapaz de prever a catástrofe que, com a sua fé cega na supervisão dos moais, acabou por gerar.

As árvores da ilha terão sido quase todas cortadas para servirem de rolos e roldanas que permitiam a complexa deslocação dos moais da pedreira em que eram esculpidos para os lugares que lhes eram destinados. Sem árvores, os nativos deixaram de poder construir barcos e de pescar. Em pouco tempo, exterminaram as galinhas e aves afins da ilha. Até mesmo as aves marinhas se terão tornado escassas, de tal forma raras que os nativos as sacralizaram.

A Ilha da Páscoa é o lugar da Terra mais isolado. Dista 1850km das ilhas do Pacífico mais próximas, as do arquipélago, hoje, também chileno de Juan Fernández que ainda fica a 600km do continente sul-americano.

Ora, numa sociedade tão só e esperançada na benevolência do sobrenatural, a emergência do culto substituto do dos moais, o tangata manu (homem pássaro) não se fez esperar.

No século XVIII, os navegadores europeus começaram a ancorar nas enseadas da ilha. O pioneiro foi o holandês Jacob Roggeveen, em 5 de Abril de 1722, o Domingo de Páscoa que inspiraria o baptismo de Rapa Nui.

Em Novembro de 1770, chegaram os primeiros navegadores espanhóis e, quatro anos mais tarde, o incontornável britânico James Cook. Os diários dos espanhóis confirmam que todos os moais estavam de pé. Já os registos de James Cook, informam que alguns haviam sido derrubados.

De início, os habitantes de Rapa Nui estavam organizados em redor de um sistema de classes bem estruturado, com um ariki (chefe supremo) acima dos chefes de nove clãs. Com a sua existência ameaçada pela falta de árvores e de alimento, um grupo de líderes guerreiros terá organizado uma espécie de golpe de estado. Fundaram, assim, a nova religião que venerava Make Make e legitimava o sub-culto de Tangata Manu.

Daí em diante, ano após ano, jovens guerreiros (hopus) de cada clã eram nomeados pelos ivi-attuas (xamanes) de cada clã rival para participarem numa competição realizada de Julho a Setembro. Os competidores começavam por se concentrar nas grutas da ravina no prolongamento da cratera de Ranu Kao. Dessas grutas, deviam atravessar a nado o mar infestado de tubarões até Motu Nui, o maior dos ilhéus ao largo, antecedido de Motu Iti e do afiado Motu Kao Kao. Ali, aguardavam a chegada das manutara, as andorinhas-do-mar-escuras que migravam anualmente de outras partes do Pacífico, para lá nidificarem.

O participante que colhesse o seu primeiro ovo, escalava ao penhasco supremo de Motu Nui. Do topo, gritava para o seu xamane algo do género: “Temos o ovo, vai rapar a cabeça”. Então, os participantes derrotados nadavam juntos de volta à base de Rapa Nui. O felizardo, regressava sozinho, do ilhéu, com o ovo enrodilhado numa meda de longas ervas atada sobre a cabeça. Depois, tinha ainda que escalar os rochedos afiados que o separavam das alturas de Orongo para o entregar ao respectivo ivi-attua. Era declarado o Tangata manu, o ivi-attua do participante vencedor. Triunfante, esse xamane liderava, então, uma procissão que cruzava parte da ilha, até à zona a que o seu clã pertencia.

Três dias após ser colhido, o ovo era vazado, enchido de fibras vegetais e colocado na cabeça rapada e pintada de branco ou vermelho do Tangata Manu. Lá permaneceria por um ano mas, mais importante que o direito ao adereço, o Tangata manu passava a ser considerado tapu (sagrado). Recebia distintos tributos e oferendas de comida. Conquistava, aliás, para o seu clã, o direito de controlar a distribuição dos recursos escassos da ilha durante o ano seguinte, sendo o mais crucial, o privilégio de colherem os ovos postos pelas aves em Motu Nui durante cinco dos doze meses da sua vigência e residência em Orongo. No restante tempo, o Tangata manu permanecia num retiro espiritual num edifício erguido para o acolher.

A Orongo que examinávamos e de que perscrutávamos o trio de ilhéus terá sido erguida como a povoação oficial do evento que, contando com o cerimonial envolvido, durava quase um mês. Servia como ponto de chegada de uma marcha prévia dos clãs participantes com início em Mataveri, junto ao actual aeroporto.

Com a prova encerrada, eram gravadas nas rochas de basalto imagens de Make Make e do novo tangata manu. Na actualidade, perduram em Orongo e em redor cerca de 480 petróglifos. Algumas rochas exibem imagens dos homens-pássaro. Outras combinam os tangata manus com linhas comemorativas do deus Make Make.

Além de nada aliviar o já longo calvário do povo Rapa Nui, o novo culto colidiu com a obsessão dos missionários europeus entretanto instalados na ilha em converter os nativos ao Cristianismo. Foi banido sem apelo.

A partir de meio do século XIX, tornaram-se cada vez mais frequentes as incursões de traficantes de escravos vindos do litoral do Peru. Estes raides, epidemias fulminantes de tuberculose, varíola e outras doenças trazidas pelos forasteiros e deportações para outras paragens do Pacífico, causaram a diminuição drástica da população da ilha.

Em 1871, de muitos milhares (entre 7 a 20.000 no auge de Rapa Nui), sobravam 111 indígenas na ilha. Criadores de gado compraram boa parte das terras da há muito desmatada Rapa Nui que passou a servir de pasto aos seus ranchos.

Volvidos 17 anos, a Ilha da Páscoa viu-se anexada pelo Chile. Os nativos sobreviventes foram agrupados na zona da actual capital Hanga Roa. Só em 1966 lhes foi concedida a cidadania chilena. O censo de 2017, registou 9400 cidadãos que se consideraram de etnia Rapa Nui ,a habitar um pouco por todo o longilíneo Chile. Mesmo que o critério peque por excessiva ambiguidade, a Ilha da Páscoa abriga 7700 habitantes dos quais 60% se consideram descendentes dos aborígenes da Ilha da Páscoa.

Dias depois da nossa incursão a Orongo, Moa – de longe, o nativo que conhecemos na ilha mais determinado em recuperar a cultura Rapa Nui - leva a cabo uma série de orações e ritos em frente às formações de moais, hoje, quase todas reerguidas. Numa dessas estranhas actuações, coberto apenas com uma pequena tarja de cintura e com um estandarte da nação Rapa Nui atado à perna direita, o indígena entra pelo mar raso ao lado de um dos ahus. Altivo, orgulhoso, confronta a imensidão do oceano Pacífico e abre os braços numa pose simbólica do saudoso tangata manu.

Os séculos passaram e as embarcações dos colonos europeus ancoraram e zarparam. Por mais que evoque a história em tempos gloriosa do seu povo, dói a Moa a consciência de que nem o deus criador Make Make, nem os sucessivos Homens Pássaro salvaram a excêntrica mas frágil civilização Rapa Nui das garras da civilização ocidental.