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Abastecimento

Abastecimento

Gnus bebem água em diversos turnos num charco lamacento, durante o seu longo trajecto.

PN Serengeti, Tanzânia

A Grande Migração da Savana Sem Fim

Nestas pradarias que o povo Masai diz siringet (correrem para sempre), milhões de gnus e outros herbívoros perseguem as chuvas. Para os predadores, a sua chegada e a da monção são uma mesma salvação.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Há pouco mais de dois meses, deixámos o “Destino Improvável” a cruzar o famoso rio Mara e a partir da Reserva Nacional queniana de Masai Mara em direcção ao seu prolongamento no norte da Tanzânia. É aí que retomamos o de hoje.

Cruzamos as povoações sobrepovoadas e caóticas em redor da fronteira de Isebania-Sirari. Já com os carimbos respectivos nos passaportes, trocamos de jipe e de guia. Moses Lota apresenta-se e assume a navegação. Vencemos as terras altas da região de Tarime, bem mais verdejantes e agrícolas do que tudo o que havíamos visto nos últimos dias. Seis horas após a partida madrugadora, sentíamo-nos à vontade com o novo cicerone e estávamos de regresso à savana.

“Sara Maria e Marco de Jesus?” pergunta-nos o também condutor com o seu jeito propositadamente bobo de incredulidade que nos viria a divertir vezes sem conta. “Bom, contando aqui com o Moses, isto vai parecer é uma expedição bíblica.”

Cruzamos o portal Fort Ikoma do parque nacional Serengeti, registamo-nos com as autoridades e prosseguimos para o seu cerne. A viagem não tardou a ser agitada pela entrada em cena de uma das mais demoníacas criaturas de Deus. “Pronto, já vai começar!” anuncia o guia após uma forte estalada na própria face. Com o tecto do jipe aberto, bastaram apenas alguns segundos para todos partilharmos uma resistência inglória contra os incontáveis ataques de moscas tsé-tsé. Moses sossega-nos. “Essa história já não é o que era. Tinham que ser picados milhares de vezes e terem um azar do tamanho da Tanzânia para apanharem a doença do sono. Aliás, pelo contrário, com elas por perto, ninguém dorme neste jipe.”

Estamos a meio da tarde. Só temos que dar entrada onde nos iríamos alojar perto do anoitecer. De acordo, vamos completando o percurso em pleno modo de game drive, como denominaram os colonos anglófonos de África o hábito de conduzir pela savana a observar a fauna. Encontramos os primeiros clãs de leões com crias e dezenas de elefantes, até ao sol se pôr, ainda um enorme bando de hipopótamos indolentes mas irascíveis que preenchem quase por completo uma secção pouco caudalosa do rio Grumeti.

Damos entrada no Serena Lodge já de noite e depois da hora permitida. Guia mais que batido no ofício, Moses está disposto a favorecer o nosso trabalho e entra pelo portão preparado para a eventual descompostura. “Não se preocupem. Eu digo-lhes que tivemos que ajudar alguém com um furo!”

Mal saímos do jipe, um dos empregados do lodge ouve-nos a falar e aborda-nos num português hesitante e meio atrapalhado. “Olá, sou o Marcerino. Também falo português. Os meus pais são moçambicanos. Vivem na beira. Eu vim para cá ainda muito novo.” Marcerino – a placa de identificação na sua camisa confirmava o nome - viria a prestar-nos uma dedicação especial durante os dias em que nos alojámos naquele elegante hotel tanzaniano composto por edifícios em jeito de palhotas masai massivas distribuídos ao longo de uma das raras encostas íngremes da savana, entre acácias e arbustos também espinhosos.

À imagem de alguns outros da África selvagem, o lodge não é vedado. Queremos sair do quarto para jantar mas só o podemos fazer com escolta. O guarda-costas que nos bate à porta de lanterna em riste não perde tempo a iluminar-nos sobre a vantagem da sua presença. “Então que animais já cá viram hoje?” perguntamos. “Tem estado calmo.” responde. “Mas pode aparecer um pouco de tudo. Já fomos visitados por búfalos, leões, leopardos e até elefantes. Temos que estar atentos. A esta hora, os hóspedes estão com vontade de comer, não de ser comidos.”

Durante a noite, ouvimos rugidos arrastados de leão vindos de uma colina oposta. O topo dessa elevação seduzia-nos por suspeitarmos que devia conceder vistas incríveis a 360º. Com o sol a aparecer detrás dela, perseguimos o privilégio de lá ir.

Perguntamos na recepção se há algum trilho em especial. “Haver há e parte já aqui detrás. Mas não vos está a passar pela cabeça lá irem assim sem mais nem menos, pois não?” Na verdade, não tínhamos ponderado a pequena expedição em todos os seus aspectos. Fosse como fosse, volvido algum tempo, o pessoal do lodge passou de nos recusar o passeio a providenciá-lo com segurança bélica. Marcerino apanha-nos à saída da recepção: “amigos já podemos ir. É por aqui.” Pelo caminho, junta-se-nos um ranger do parque enfiado numa farda militar verde e que segura, contra o tronco, uma velha AK-46. “Ainda ontem estava um clã de leões instalado naquela encosta. Não se assustem, mas a metralhadora tem mesmo que ir connosco.”

Samson, o ranger de cabelo rapado que segue na frente do grupo parece homem de poucas conversas. Como a colina, também a sua face tensa nos desafia. “Acabamos por meter conversa. Em plena ascensão do outeiro abordamos o desejo que mantínhamos - como tantos viajantes curiosos - de subir ao monte Kilimanjaro, o grandioso tecto de África. Os olhos de Samson parecem, de imediato, brilhar. “Subi lá acima há uns tempos numa prova de selecção para rangers dos parques da Tanzânia. Éramos mais de cinquenta e só oito atingiram o cume. Eu fui um deles.  Agora tenho este trabalho.”

Chegamos ao topo e admiramos os cenários em redor. Para todos os lados menos o da vertente oposta tomada pelo Serena Lodge, a savana estendia-se pelo infinito colorida por alguma vegetação baixa, verdejante ou ressequida consoante a água no subsolo. Enquanto retomamos o fôlego, os quatro recorremos a binóculos ou às nossas teleobjectivas e perscrutamos aquela África imponente ao pormenor. Detectamos manadas de búfalos e de elefantes, de gnus, zebras e girafas, qualquer um dos conjuntos animais, ínfimos no cenário da pradaria sem fim. Pouco depois, com o sol ainda baixo no horizonte, regressamos ao lodge e saímos de jipe no seu encalço.

Moses Lote conduz-nos dezenas de quilómetros por estradas de terra batida e a pouca velocidade, tal como é suposto dentro do parque. Começamos por seguir quase só entre manadas de gazelas e impalas. Não tardamos a entrar numa zona húmida - por vezes até ensopada. Num ápice, a fauna e flora do Serengeti prova-se bem mais diversificada.

Sucedem-se os charcos uns mais lamacentos que outros que atraem os espécimes a que o calor começa a causar sede. Um bando de marabus paira suavemente dos alto dos ramos de uma árvore seca para a beira da água que passa a disputar com hipopótamos, babuínos arruaceiros e vários herbívoros receosos.

Quando nos aproximamos deste charco, damos conta que uma manada de elefantes cruza a savana na nossa direcção. Alguns paquidermes mais jovens divertem-se a investir sobre uma caravana de gnus a que não percebemos o fim e que a presença de vários jipes intimidava de atravessarem a estrada. Moses detém o nosso e vira-se para trás: “Estão mesmo com sorte! Sabem porque parámos todos aqui? Há um clã de leões agachado no meio da erva à espera dos gnus. Alguns dos condutores de jipes fazem aumentar o espaço disponível para a travessia. Os bois-cavalos não se fazem rogados e precipitam-se, a galope, sobre a armadilha dos felinos. Centenas deles passam pela única leoa que conseguimos detectar, a uns pouco metros, sem que esta ataque. Em vez, minutos depois de toda a caravana passar para o lado de lá da estrada, percebemos que duas outras mais distantes já arrastavam um gnu adulto e uma cria recém-capturados para sombra de uma árvore.

“Estão a ver? Por isso é que os predadores os preferem. São fáceis.” atira Moses. ”Deus criou-os à pressa. Além de se ter esquecido do cérebro, fê-los com peças suplentes de uma série de outros animais. Não admira que estejam sempre tão bem classificados na lista dos Big Ugly cá de África.”

Com a época seca a instalar-se naquelas paragens, caçadas como a que tínhamos acabado de acompanhar, tornar-se-iam mais raras nos meses seguintes. Os gnus bebiam com avidez a água das lagoas e riachos que subsistiam. Vimo-los percorrerem a savana em mais e mais caravanas intermináveis, para cá e para lá, à espera que os líderes das manadas dessem o sinal de partida ou já em plena migração para as terras distantes mas contíguas de Masai Mara, percurso em que se vêem forçados a atravessar os caudais infestados de crocodilos dos rios Mara e Grumeti. As nuvens carregadas trazidas pela monção cíclica do leste de África já se tinham para lá mudado. Por essa altura, irrigavam prados bem mais verdes e suculentos que os daquele vasto Serengeti.

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