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Comunismo Imperial

Comunismo Imperial

Ciclistas pedalam em frente à velha muralha da fortaleza imperial de Hué, agora um domínio comunista, como todo o país.

Hué, Vietname

A Herança Vermelha do Vietname Imperial

Sofreu as piores agruras da Guerra do Vietname e foi desprezada pelos vietcong devido ao passado feudal. As bandeiras nacional-comunistas esvoaçam sobre as suas muralhas mas Hué recupera o esplendor.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O Vietname, ao estilo do Chile, é tão longilíneo que tem destas coisas. Após vários dias de exploração da capital Hanói, da baía de Halong e outras áreas do norte sob um Inverno tropical quase frio, sempre húmido e nublado, chegamos a meio do país e a meteorologia muda de figura. Em Hué, o céu exibe um azul resplandecente e brilha um sol tórrido.

Somos aficionados incondicionais do calor seja de que tipo for. A surpresa estival afaga-nos os sentidos e estimula-nos. Não perdemos sequer tempo a recuperar da tortura rodoviária da noite anterior. Instalamo-nos numa qualquer guest-house nas imediações da estação de camionagem, alugamos uma acelera e saímos em modo de exploração.

Logo ali, nas imediações, dezenas de condutores de uma frota de cyclos (os rickshaws movidos a força humana do Vietname) contemplam-nos e ao motociclo com desdém comparável ao que muitos taxistas lisboetas nutrem pelos recém-chegados tuk tuks.

Quarenta anos depois do término da Guerra do Vietname, algumas das feridas sociais abertas pelo conflito ainda saram. Vários daqueles homens eram suas vítimas.

Após a vitória norte-vietnamita e a anexação forçada do sul, os novos líderes comunistas baniram de todos os cargos estatais - e o máximo possível da sociedade - os homens vietnamitas que tinham colaborado com os E.U.A na aliança anti-comunista. Despojados de posses e de perspectivas de prosperidade, assim que conseguiram juntar parcos recursos, investiram em cyclos e numa das poucas profissões que lhes foi admitido exercerem. O ostracismo desvaneceu-se com o passar dos anos mas o governo faz tudo para controlar a proliferação destas triciletas emblemáticas que empatam o trânsito de Hanói, Ho Chi Minh e de outras grandes cidades.

Em Hué, em particular,  inúmeros condutores idosos ou os seus descendentes sujeitam-se ao último estertor da pena e da tradição e sobrevivem a pedalar contra a vontade das autoridades e contra a modernidade. 

Circulamos em redor do perímetro de 10 km da sua cidadela cercada de fossos e canais, pelas margens verdejantes dos rios Perfume e Nhung. Visitamos o reduto imperial e o coração da Cidade Proibida Púrpura onde os únicos servos admitidos eram eunucos que não ameaçavam a exclusividade das concubinas reais. Vamos para onde formos, ondula suprema a bandeira vermelho-amarelo-estrelada de Cot Co, no mastro mais alto do Vietname. Esta bandeira e várias outras não tão elevadas impõem a toda e qualquer era vietnamita, a agenda político-social e a realidade triunfal da República há já quatro décadas Socialista do Vietname.

Pouco antes da sua morte, em 1999, Harry G. Summers, um coronel norte-americano narrava com frequência um encontro que tinha tido com um congénere vietnamita de nome Tu, em 1975, durante uma visita a Hanói. “Sabe, vocês nunca nos derrotaram nas principais batalhas da guerra.” disse-lhe Summers no bom jeito gabarolas ianque. Ao que o coronel vietnamita, após uma breve pausa, respondeu com a subtileza e o pragmatismo que já garantira a resistência vietcong: “Até pode ter sido, mas isso é irrelevante, não é?”

Hué acolheu uma das batalhas mais sangrentas da célebre Ofensiva Tet de 1968. Foi a única cidade no sul do Vietname capturada pelas forças do norte por mais que alguns dias (3 semanas e meia) o suficiente para que quadros comunistas tenham implementado planos para liquidar milhares de elementos não cooperativos. Cerca de três mil civis, incluindo mercadores, monges budistas e padres católicos, intelectuais e outros foram abatidos a tiro, mortos à bastonada ou enterrados vivos. Mais tarde, durante a reconquista do sul liderada pelos E.U.A., o número de baixas entre os habitantes da cidade ascendeu a dez mil, na grande maioria civis.

Em plena Guerra Fria, as palavras do coronel vietnamita resumiram a ironia geopolítica do desfecho do confronto. Preconizaram ainda a longa vigência comunista que, como aconteceu com os condutores de cyclos, não tardou a sacrificar Hué.

Na sua origem de 1687, a povoação chamava-se Phu Xuan. Em 1802, já muralhada, tornou-se a capital de uma vasta área do sul então dominada por nobres que viriam a formar a poderosa dinastia Nguyen. Esta dinastia inspirou o nome hoje mais popular no Vietname, adoptado ou herdado por quase 40% dos habitantes. Também fundou um império que dominou parte substancial da Indochina. Os senhores feudais Nguyen mantiveram-se no poder até 1945 mas, de 1862 a 1945 – o longo período colonial francês - esse poder não passou de uma formalidade. 

Os novos líderes ex-vietcong que tomaram conta do país após o termo da Guerra do Vietname consideraram os edifícios seculares da cidade heranças vergonhosas do passado imperial da nação, declararam-nos politicamente incorrectos e vetaram-nos ao abandono. Por volta de 1990, numa altura em que o Vietname se havia já aberto ao Mundo, as autoridades locais compreenderam o potencial turístico daquele legado e promoveram os monumentos a tesouros nacionais. A UNESCO recompensou a reviravolta, designou-os Património Mundial da Humanidade e apoiou trabalhos de restauração e preservação de monta.

Ao explorarmos a cidade, sentimos cada vez mais dificuldade em distingui-la da sua história prolífica. Apesar do proselitismo tanto dos padres portugueses como, mais tarde, dos franceses e, não obstante a submissão da nação ao comunismo, em Hué, o budismo é tolerado de forma contranatura pelas autoridades da república socialista como em nenhuma outra cidade vietnamita.

Hué sempre teve o maior número de mosteiros do país e os seus monges mais reactivos e, por isso, mais notórios. De tal maneira que a torre Thap Phuoc Duyen do pagode de Thien Mu - também erguido por um senhor Nguyen e que, na década de 80, acolheu fortes protestos anti-comunistas -  se preserva como símbolo oficial da cidade. Disso nos informa um dos guias que impinge os seus serviços à entrada. Acabamos por o admitir e o cicerone refresca-nos a memória de outros factos surpreendentes.

“Em 1963, em plena Guerra do Vietname, Tích Quàng Dúc, um dos monges residentes mais inconformados, conduziu um Austin até Saigão com o objectivo de protestar contra a política anti-budista do governo Sul-Vietnamita. Acabou por se imolar em público.” Vêm-nos à mente as imagens da sua morte atroz em chamas que correram o mundo e inspiraram várias outras auto-imolações. “Muitos ocidentais ficaram menos chocados pelos suicídios que pela reacção da cruel Madame Nhu, a cunhada do presidente que o povo alcunhou de borboleta de ferro devido à sua requintada crueldade. Ela declarou que as auto-imolações eram meros churrascos e, como se não bastasse, ainda acrescentou: “deixem-nos arder que nós bateremos palmas”. 

Para chegar a Thien Mu, viajamos quatro quilómetros sobre a acelera, ao longo de uma margem luxuriante do rio Perfume em que se sucedem mausoléus seculares e sumptuosos de antigos imperadores. A torre tem 21 metros e surge destacada sobre uma elevação ribeirinha pelo que a detectamos sem dificuldade. Já dentro do pagode, juntamo-nos a comitivas de peregrinos que ali procuram expiação e aperfeiçoamento espiritual. Admiramos fiéis vietnamitas que acendem paus de incenso à entrada do templo. Mesmo sem o desejarmos, também somos purificados pelo fumo e pelo aroma libertado. 

Como qualquer nativo ou morador, Quang aproveita a sua presença para nos referir a formosura das mulheres de Hué, reverenciada por todo o país.

Já por nossa conta, regressamos ao sossego da margem do Perfume quando damos com um potencial arquétipo tanto dessa beleza como do exotismo vietnamita. Uma senhora trajada com calças púrpura e camisa azul de manga comprida contempla-nos acocorada à moda asiática e semi-acrobática sobre um pequeno muro elevado face ao caudal do rio. Um lenço que condizia com as restantes vestes e um mais que esperado chapéu non la protegiam-lhe a face do sol tropical e preservavam-lhe a clareza amarelada da pele, requisito incontornável da perfeição física por estas paragens realmente vizinhas da velha Cochinchina. A senhora só falava vietnamita. Com recurso a gestos ilustrativos e instigados pela empatia que emanava dos seus ínfimos olhos amendoados, depreendemos que a podíamos fotografar. Quando o fizemos, sentimos um grande sorriso por detrás do lenço colorido. Até ao fim do dia, continuámos à descoberta do encanto das gentes orgulhosas da antiga capital do Vietname.

Guias: Vietname+