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Solovestsky Outonal

Solovestsky Outonal

Vista do Mosteiro de Solovetsky a partir de uma margem oposta.

Ilhas Solovetsky, Rússia

A Ilha-Mãe do Arquipélago Gulag

Acolheu um dos domínios religiosos ortodoxos mais poderosos da Rússia mas Lenine e Estaline transformaram-na num gulag cruel. Com a queda da URSS, Solovestky recupera a paz e a sua espiritualidade.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A longa viagem chuvosa e perigosa de São Petersburgo cobrava-nos, havia já muito, um cansaço cada vez mais difícil de disfarçar e que o cochilar no carro pouco aligeirava. Chegaram como enorme alívio o raiar do dia e o momento em que pudemos subir a bordo do pequeno ferry. De igual modo, aquele em que a embarcação zarpou de Kem para as águas frígidas do Mar Branco com destino final na ilha maior do arquipélago Solovetsky.

O frio atroz no exterior e a distância considerável das margens não nos incitaram a subir ao convés mais que um par de vezes.

Foi com surpresa que após duas horas de navegação com partida em Kem, vimos definir-se, na projecção da proa, a silhueta imponente do mosteiro de Solovetsky, à imagem da ilustração que havíamos encontrado várias vezes nas notas de 500 rublos ainda em circulação.

O barco atraca a uma dezena de metros das suas muralhas. Somos recebidos pelos donos da casa em que nos íamos alojar. Mal entramos naquele lar de aluguer, percebemos que o íamos partilhar com hóspedes russos, então ausentes.

Descansamos algumas horas. Recuperados da directa rodoviária atroz da noite anterior, saímos para uma primeira exploração.

Contornamos a marina humilde que a serve e também as águas escuras em que se reflectem as cúpulas do edifício majestoso.

Cruzamo-nos com cabras à solta, gatos vadios, com freiras ciclistas e com moradores absortos nas suas tarefas. Num extremo da baía frontal à muralha, um  russo com olhar rasputiniano, cultiva vegetais no jardim de uma vivenda de madeira que mantinha em restauro.

Um súbito repicar místico dos sinos do mosteiro quebra o silêncio, até então, religioso. Minutos antes de terminar, vemos um batalhão de homens das obras aparecerem do portal que dá acesso ao domínio ortodoxo e refastelarem-se sobre a relva num breve repouso-convívio.

A sua presença tinha uma razão de ser superior mas que tardava em resolver o problema: Solovki, como é também conhecido o arquipélago foi o primeiro lugar russo a ser reconhecido pela UNESCO mas continuava a necessitar de mais e mais renovações.

Quando seguíamos no barco, um dos passageiros do país dos czares queixava-se, aliás a outros visitantes: “aqueles andaimes estão colocados nas cúpulas já nem sei há quanto. Os estrangeiros aborrecem-se porque lhes estragam as fotografias. Desilude-me muito que as coisas por cá, se façam sempre desta maneira!”.

A escuridão e o frio reinstalados convidam-nos a regressar aos aposentos. Quando entramos, cheira a refeição. Ficamos a conhecer os russos com quem dividíamos a casa e a saber que tinham feito jantar para todos. 

Alexey Kravchenko, o anfitrião que nos trouxera de São Petersburgo depressa nos põe à vontade, mesmo se, eram apenas umas poucas as palavras inglesas que os seus compatriotas articulavam. “Estão desejosos para saber como se diz “lobster” em português, mas os mais pequenos, sabem?”, comunica-nos e mostra-nos um papel que tinham desenhado. “Lagost...im? “ Não sei se vou conseguir dizer-lhes isto mas tenho que fazer um esforço. É o sonho de qualquer russo empanturrar-se com os peixes e mariscos frescos lá de Portugal!”

Sentamo-nos e partilhamos uma longa entrada de vodka, rodelas de pepino em picles e de tomate fresco, ainda enriquecida por pedaços de saló, uma banha de porco esfriada que os russos se habituaram a consumir para aligeirarem os efeitos imediatos do muito álcool que ingerem.

Conversa puxa conversa, apuramos que Andrey Ignatvev – o ex-estudante de chefe de cozinha que havia confeccionado o jantar - e Alexey Sidnev formavam uma dupla de geólogos da vizinha cidade de Archangelsk, ao serviço da região. E que de lá viajavam com frequência para trabalharem em Solovetsky.

Considerada património mundial UNESCO há mais de 20 anos a povoação continuava a ver os seus esgotos desaguarem na baía em frente do mosteiro e carecia de um verdadeiro saneamento básico. A dupla estava munida de uma velha carrinha soviética UAZ (Ulyanovsky Avtomobilny Zavod) verde militar e repleta de ferramentas gastas. Tinha como missão examinar o solo e recolher amostras para facilitar a decisão do tipo de canalizações (e profundidades ideais) a implementar. Uma obra menor se tivermos em conta a verdadeira epopeia por detrás do assentamento do mosteiro naquelas paragens boreais da Rússia.

Em 1429, dois monges do mosteiro Kirillo-Belozersky fundaram um novo mosteiro na área da ilha grande de Solovetsky agora chamada de Savvatevo. Um terceiro monge de Valaam chamado Zosima juntou-se-lhes. Este trio, criou as bases para que o novo reduto religioso se tornasse abastado e poderoso na protecção de uma fortaleza de pedra construída entre 1582 e 1594 e viesse a deter terras vastas em redor do Mar Branco.

No século XVI, quando já acolhia mais de 350 monges e entre 600 a 700 servos, artesãos e camponeses, sucumbiu ao cerco de 7 anos e consequentes pilhagens das forças governamentais czaristas. Nesse mesmo século e no seguinte, o mosteiro repeliu ataques da ordem Livónia (um ramo da Teutónica), da Suécia e, durante a guerra da Crimeia, de navios britânicos.

Não resistiria, todavia, à revolução bolchevique e aos caprichos ateístas das autoridades soviéticas. Em 1921, foi encerrado e substituído por uma quinta estatal. Dois anos depois, em pleno mandato de Lenine, seria transformado num campo de trabalho para inimigos do povo, em que, apenas no início relativamente perdulário, os prisioneiros se limitavam a manter o jardim botânico e as bibliotecas.

Ausentes durante décadas, os monges começaram a regressar em 1980, com a iminência da queda da U.R.S.S.

Nos dias que correm já são mais de dez. Encontramo-los a toda a hora nas áreas interiores da fortaleza, sempre bem identificados pelos trajes negros e barbas longas e ocupados com os seus inúmeros afazeres eclesiásticos. Enquanto exploramos o complexo, reparamos que um deles ora junto ao cemitério da Igreja da Anunciação, onde jazem os corpos de condenados mais importantes ao exílio no mosteiro.

Juntamo-nos a um grupo de visitantes russos e, com traduções cirúrgicas de Alexey da narração na sua língua, impressionamo-nos com a crueldade lúgubre também eternizada nos calabouços pedregosos em que entrávamos.

Em 1937, Estaline transformou o mosteiro de Solovetsky num dos seus gulags mais severos, a mãe de todos, como o apelidou Aleksandr Solzhenitsyn em “Arquipélago Gulag” a obra em que descreve a vida e morte sub-humanas a que foram submetidas dezenas de milhares de intelectuais, padres ortodoxos, membros de seitas religiosas e velhos bolcheviques e culaques, destes, cerca de 40 mil executados ou mortos por doença.

Ainda assim, por estranho que pareça, a espiritualidade da ilha parece sanada e atrai inclusivamente gente à procura de sentido para as suas existências.

Passeamos em redor das muralhas quando nos deparamos com um acordeonista que dá um recital de ocasião a moradores e visitantes em troca de alguns rublos para vodka. Curiosa pelo interesse destes forasteiros, Ludmila aborda-nos. Acabamos a falar em francês. A senhora tinha trabalhado muitos anos emigrada em Nimes, onde acabou por deixar filhos e as suas famílias, de tal forma desiludida com a vida que só encontrou conforto entre a comunidade religiosa e as orações de Solovetsky. “Já não suportava mais aquilo. Tratavam-me como gente de segunda” lamenta-se sem esconder uma óbvia saudade dos seus. “Aqui sim. Aqui estou com Deus.”

Quando a ouvimos proferir aquelas palavras, vem-nos à mente a conclusão destemida de Solzhenitsyn para a revolução que tinha permitido a morte de 60 milhões de compatriotas, muitos em Gulags como aquele: “Os homens esqueceram-se de Deus. É por isso que tudo isto aconteceu.”

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