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Pacífico celestial

Pacífico celestial

Vista aérea de Mo'orea a partir de um avião da Air Tahiti que faz a ligação entre várias ilhas do arquipélago das Sociedade.

Mo'orea, Polinésia Francesa

A Irmã que Qualquer Ilha Gostaria de Ter

A meros 17km de Taiti, Mo’orea não conta com uma única cidade e abriga um décimo dos habitantes. Há muito que os taitianos veem o sol pôr-se e transformar a ilha ao lado numa silhueta enevoada para, horas depois, lhe devolver as cores e formas exuberantes. Para quem visita estas paragens longínquas do Pacífico, conhecer também Mo’orea é um privilégio a dobrar.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Descansamos e preparamos a exploração do Taiti à beira da piscina de Carole e das duas amigas, ambas Caroline, com quem a anfitriã partilhava a vivenda de Puna’auia. Elas, por sua vez, experimentam hulas tradicionais polinésias, as saias vegetais que, com o tempo, evoluíram e deram lugar aos populares páreos. Eram peças de vestuário essenciais para a sua participação na heiva, o festival e competição local de dança, em que entrariam como metros (francesas da metrópole) e assim se procuravam integrar na sociedade taitiana. As amigas tinham acabado de regressar de umas férias no Havai. Queixavam-se com frequência de que Caró estava sempre atrasada.  Com a melhor das intenções, de lá lhe trouxeram um presente, um espelho que versava “I am not retarded”. Compraram-lhe o souvenir com base no significado francês de “retardé”. Ao receber a prenda, Carole – bem mais dotada na língua inglesa – percebeu de imediato que alguma coisa não batia ali bem. Questionou-as sobre o que acharam que lá estava escrito. Quando lhes explicou o quê, entregaram-se as três a longas gargalhadas.

Por aquela hora, as amigas partilhavam ainda um compromisso. Saem à pressa. Nós, constatamos que o ocaso nos apanhava desprevenidos. Rumamos a uma praia nas imediações da ponta de Nu’uroa, na orla da lagoa delimitada pela barreira de recife que protegia a maior parte da ilha. Banhamo-nos. Conversamos imersos naquele mar amornado pela tropicalidade. Apreciamos a ilha ao largo. Reconstituímos nas mentes o mapa do grupo Barlavento do arquipélago das Sociedade. Concluímos que, pelo menos em consciência, contemplávamos Mo’orea pela primeira vez.

Carole reaparece a passear o seu labrador negro. Como o cão, o sol mergulha com estardalhaço sobre o horizonte. O súbito arrebol transforma o verde exuberante da ilha irmã de Taiti num contorno escuro e caprichoso envolto de dourado, o celeste e o marinho seu reflexo. À aparente distância de uma boa natação, a vinte minutos de barco, Mo’orea parecia-nos mais intrigante que nunca. Dias depois, em vez de desembarcarmos do ferry, acabamos por lá aterrar, chegados de Huahine, uma ilha mais distante do grupo.

O curto voo revelou-nos vistas aéreas de três dos vários cogumelos insulares característicos da Polinésia Francesa, o da Huahine de que descolamos, o de Mo’orea e também de Taiti, a irmã mais velha, ilha fulcral do arquipélago das Sociedade. Nos três casos, montanhas pontiagudas e luxuriantes despontavam de lagoas incríveis com tons de azul que mudavam do ciano a um quase petróleo consoante a profundidade do leito arenoso marinho. Delimitavam estas lagoas, atóis que combinavam orlas terrestres com secções de recife. Tal como nos permitira suspeitar a observação a partir do litoral oeste de Taiti, o maciço montanhoso no âmago de Mo’orea, podia até ser menor e menos elevado, revelava-se, todavia, uma esplendorosa obra de arte geológica, entrecortada e afiada até aos limites da imaginação pela actividade vulcânica e pela erosão milenar, em particular, das chuvadas tropicais que mantêm as montanhas cobertas de uma floresta viçosa.

O avião pousa na ponta nordeste, ao longo de uma zona excepcional de laje que concedeu a construção da pista singular da ilha.

Recebe-nos Vanessa Boulais, outra jovem francesa apostada na vida alternativa, bem mais solarenga, livre e melhor remunerada da Polinésia Francesa. Vanessa tinha comprado um Twingo há apenas três semanas. É nele que seguimos para a sua casinha com jardim. Vanessa era enfermeira em Papeete, a capital do Taiti e de todo aquele território insular ultramarino. Só fazia os turnos da noite, de maneira a poder apanhar, na ida e na volta, o Aremiti 5, o ferry que ligava Mo’orea à capital. A nova anfitriã instala-nos. Faz questão de nos levar a um rent a scooter. De lá, ela segue para os seus afazeres. Nós, inauguramos o anseado modo de exploração.

Não há, em Mo’orea, uma Papeete ou sequer um centro urbano que se lhe assemelhe. Em vez, os seus dezasseis mil habitantes surgem dispersos por pequenas vilas, aldeias e lugarejos, com centro administrativo, vá lá que seja, em Afareaitu e Vaiare, communes a meio da costa leste.

Fazemo-nos à estrada circular que percorre o litoral recortado. Dela partem outras, íngremes, que conduzem a pontos elevados na encosta. Uma destas vias interna-se mais que as afins. É por ela que cruzamos os vales profundos de Opunohu e de Paopao, massacramos o motor fraco da scooter e seguimos montanha acima até passarmos o pitoresco Colégio Agrícola e atingirmos o miradouro Belvedere, o ponto mais elevado da ilha acessível por veículo. Nas suas alturas verdejantes, deleitamo-nos com a imponência pseudo-piramidal do monte Rotui (899m), com as suas muitas arestas aguçadas. Este monte mantém apartadas, sem apelo, as baías profundas de Opunohu e de Cook. Para trás e para o interior, ergue-se a montanha suprema de Mo’orea, o monte Tohivea (1207m), em tempos, parte da borda sul da cratera pré-histórica da ilha.

Mo’orea está como que dividida em três mundos distintos. Afareaitu e Vaiare, mais urbanas sem serem verdadeiras cidades, formam um deles. As aldeolas e povoações congéneres por que passamos enquanto damos a volta à ilha são outro. Nelas vadiam galinhas, porcos e restantes animais domésticos que os nativos entregam à natureza circundante. Estas povoações são formadas por agrupamentos de casas mais ou menos tradicionais, de fares com telhados de junco ou fibras de palmeira a outras, derivadas, já todas em madeira ou com materiais menos orgânicos. Sejam como forem os domicílios, os terrenos contíguos surgem ajardinados e florados com tal afinco que nos fazem suspeitar de contágio de um excessivo perfeccionismo colonial francófono.

A povoação da ilha é diminuta. Só de quando em quando nos cruzamos com um ou outro nativo por norma demasiado entregue aos seus afazeres ou indiferente para saudar os popas (estrangeiros) de passagem. Aliás, em poucos lugares do mundo sentimos tanta dificuldade como nas Ilhas Sociedade para conhecermos nativos e com eles convivermos. Terá sido igual ou pior nas comparáveis ilhas Cook.

Apesar de algumas excepções, continua a provar-se bipolar a relação dos polinésios das ilhas Sociedade com os seus colonos históricos. Vanessa não tarda a descrever-nos o que vive: “no exterior, os polinésios são o mais simpáticos que conseguem para com os metros. Nos locais de trabalho, a coisa muda de figura. Mantêm a educação necessária às funções mas durante as horas de pausa, por exemplo, é raro juntarem-se aos de fora. Nós, achamos que eles não gostam de nós que vimos da França metrópole porque consideram que lhes tiramos os postos de trabalho. O que até pode ser verdade mas não deve ser visto só assim. É a França que injecta dinheiro na Polinésia Francesa onde pouca gente paga impostos relevantes. A ideia que nos dá é que o trabalho desagrada aos polinésios. As mulheres, em grande número, ficam em casa. Os homens trabalham, mas não todos, nem de perto nem de longe e, quando trabalham, nem sempre o fazem com vontade.”

O que é certo é que os nativos não parecem estar suficientemente insatisfeitos com o sacrifício da sua independência e integridade cultural. Os movimentos de separação têm-se revelado inexpressivos. Os polinésios sabem que a qualidade de vida que preservam há décadas depende da França. E, isto, apesar de as ilhas com menos expressão turística sofrerem uma séria falta das infraestruturas, cuidados de saúde e outros direitos abundantes em Taiti, em Mo’orea e noutras ilhas mais relevantes. Vanessa conta-nos o caso de uma mulher de vinte anos que havia dado à luz em Papeete, regressou de avião à sua casa na ilha de Maupiti e lá se viu vítima de uma infecção. Sem centro hospitalar em Maupiti ou voos frequentes para Taiti, já não conseguiu voltar a Papeete com vida.

Mesmo assim, os indígenas toleram a sua progressiva submissão à administração e cultura gaulesa, bem patente na proliferação das baguetes, dos Carrefours e dos inúmeros veleiros atracados nas marinas em redor da ilha pelos metros abastados.

E, no entanto, se o rumo histórico dos descobrimentos europeus tivesse sido distinto, hoje, a Polinésia Francesa seria espanhola ou inglesa.

Crê-se que o primeiro navegador ocidental a avistar Mo’orea foi, em 1606, Pedro Fernandes de Queirós, um eborense ao serviço de Espanha, mas os primeiros europeus a ancorarem e a permanecerem com sérias intenções de exploração foram Samuel Wallis e o bem mais famoso capitão James Cook, em 1769. A Baía de Cook local continua a honrar o explorador homónimo. Cook, por sua vez, foi o autor do baptismo das Ilhas Sociedade. Fê-lo em função do patrocínio da sua expedição concedido pela Real Sociedade de Londres (para o melhoramento do Conhecimento Natural). Também Charles Darwin viria a estudar tanto Taiti como Mo’orea.

Na ressaca destas primeiras abordagens, verificou-se uma verdadeira corrida ao domínio das inúmeras ilhas polinésias, disputada entre britânicos, espanhóis e franceses. Após sucessivos e intrincados eventos, os últimos anexaram Taiti e decretaram um Protectorado Francês que incluía já diversas outras ilhas em redor. Desrespeitaram uma tal de Convenção Jarnac, assinada em 1847, para contentamento dos britânicos. Daí em diante, não cessaram de alargar o seu domínio no Pacífico. Como os restantes, Mo’orea, um dos seus redutos mais próximos de Taiti, foi-se afrancesando.

O “terceiro mundo” de Mo’orea, também ele produto deste contexto histórico, é ainda mais complexo. Com o tempo, seduzidos pela sumptuosidade esmeralda-turquesa dos cenários divinais, os franceses fomentaram que a Polinésia Francesa se transformasse no mais requintado recreio insular do Pacífico do Sul. Mo’orea não fugiu à norma. Malgrado o amplo litoral da ilha, enquanto a circundamos, constatamos que as verdadeiras praias, com areais vastos, são incomuns, excepção feita às de Hauru Point e à de Temae – das raras públicas – a última nas imediações do aeroporto. Essa lacuna não impediu que dezenas de resorts luxuosos se tenham apoderado da beira-mar com acessos directos e luxuosos à lagoa turquesa no interior da barreira de recife. Por um lado, os resorts furtam aos habitantes e aos visitantes não hóspedes um convívio fácil e saudável com a incrível orla marinha. Por outro, mesmo se são empresas da metrópole e de outras partes do mundo a ficar com os lucros, os hotéis feitos de cabanas geminadas quase flutuantes dão emprego a uma boa parte dos nativos. Formam um reduto divulgado no resto do mundo como “chaves do paraíso” perfeitas para luas-de-mel e escapadas românticas. Como seria de esperar, é assim que o resto do mundo vê a mítica Bora Bora e, por extensão, Mo’orea. Demasiados forasteiros visitam estas ilhas por uns meros dias e têm contacto com pouco mais que o resort e lagoa circundante. Como qualquer outra das Ilhas Sociedade, Mo’orea é uma criação da Natureza demasiado longínqua e prodigiosa para ser desperdiçada.