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Torre de Vigia

Torre de Vigia

Militares controlam os movimentos do exército norte-coreano do lado de lá da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias.

Dorasan, DMZ - Coreia do Sul

A Linha Sem Retorno

Uma nação e milhares de famílias foram divididas pelo armistício na Guerra da Coreia. Hoje, enquanto turistas curiosos visitam a DMZ, várias das fugas dos oprimidos norte-coreanos terminam em tragédia


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Apesar da descontracção coreana, da vida nocturna animada e da crescente sofisticação da capital, há uma atmosfera militar em Seul a que é complicado escapar. Mal camuflados no ambiente urbano, os soldados sul-coreanos e norte-americanos vão surgindo um pouco por toda a parte e concentram-se no vasto Memorial de Guerra Coreano, onde descobrem o passado do conflito e se fotografam entre aviões, helicópteros e tanques desactivados.

Mesmo se sintomática, esta actividade ligeira pouco diz do velho confronto entre ambas as Coreias que dilacerou o país original e se prolonga, ameaçando aniquilar as nações artificiais que sobraram.

Sheung Lee, a nossa anfitriã em Seul trabalha numa editora até tarde. Chega a casa de rastos e sem tempo ou paciência para grandes dicas. Mas Alex, um seu amigo singapurense polido visita-a com frequência e, num quarto repleto de autocolantes de Winnie The Pooh, disserta sobre os temas sul-coreanos mais fortes – da “milagrosa” couve kimchi às populares cirurgias para ocidentalizar o visual das coreanas aumentando as pálpebras.

Faz também questão de nos explicar ao pormenor o que temos que ver na cidade. Sheung Lee ouve da sala e não resiste a participar, maugrado as olheiras e outros sinais de exaustão: “E a DMZ, Alex, estás-te a esquecer da DMZ. Eles que vão já amanhã bem cedo. Tem ainda mais piada a seguir ao Memorial da Guerra.”

É assim que muitos jovens sul-coreanos acabam por falar do lugar. Como uma atracção aberrante, uma espécie de parque temático militar que pode ditar as suas vidas para o bem e para o mal mas, nem, por isso, deve ser levado demasiado a sério.

Não havia porque desconfiar do conselho espontâneo de uma nativa. Assim sendo, na madrugada seguinte entramos, ainda ensonados, no autocarro que conduz a visita e, em três tempos, saímos do centro de Seul em direcção a norte e ao famoso paralelo 38.

Pouco antes do fim da 2a Guerra Mundial, a Coreia continuava ocupada pelo invasor nipónico que tinha aumentado o poderio do exército imperial recrutando coreanos de forma tal que, em Janeiro de 1945, aqueles representavam 32% da força laboral japonesa. Mas, em Agosto do mesmo ano, as duas bombas atómicas lançadas pelos E.U.A. sobre Hiroshima e Nagasaki apressaram a capitulação dos agressores e o fim do conflito.

Na Conferência de Potsdam, sob pressão da nova ameaça soviética, os aliados deliberaram a divisão da península sem consultar os coreanos, contra o que havia sido estabelecido na Conferência do Cairo.

No fim de 1945, após vários episódios político-militares, a administração da Coreia era já partilhada pelos EUA e pela União Soviética o que levou a frequentes revoltas dos coreanos. O processo terminou com a divisão política do país em duas zonas rivais separadas pelo Paralelo 38. Uma, a norte, comunista, validada pelos soviéticos e pelos chineses e outra, a sul, nacionalista, defendida pelos E.U.A.

Os planos de invasão do sul do líder norte-coreano Kim Il-sung obrigaram os Estados Unidos a mobilizar de novo as forças aliadas pan-mundiais para suster o alastramento da esfera comunista e desenrolou-se, por esse motivo, a Guerra da Coreia. De Junho de 1950 até 1953, ambos os lados avançaram e recuaram acima e abaixo do Paralelo 38. E, ironia das ironias, após o longo e destrutivo conflito, uma vez decretado o armistício, estavam muito próximos das posições originais.

Renovaram-se, então a Coreia do Norte (RDPC) e a Coreia do SUL (RC) separadas por uma DMZ coreana, um território de ninguém entre duas fronteiras fortemente militarizadas.

Paramos pela primeira junto ao terceiro de quatro túneis de infiltração escavados pela Coreia do Norte que, confrontada com a acusação do sul, afirmou servirem apenas para extracção de carvão. E, à medida que avançamos na semi-penumbra do seu interior, divertimo-nos com várias situações mas mais que nunca quando a guia excêntrica explica que as manchas de negro que vemos nas paredes foram também obra dos norte-coreanos que tentaram ilustrar a sua teoria, tingindo o granito escavado.

Segue-se uma passagem pela estação de comboio de Dorasan que em tempos ligou o norte ao sul mas que foi desactivada quando os norte-coreanos fecharam aquela fronteira, após acusarem o sul de politicas confrontacionais. 

Entre várias imagens expostas, destacam-se, ali, as da visita de um Presidente Bush visivelmente intrigado e, acima de tudo, a de um painel gráfico e colorido que expõe linhas ferroviárias asiáticas e europeias com partida daquela estação e da Península Coreana, um sonho que a Coreia do Sul alimenta, apesar de as suas ligações terrestres continuarem barradas pelo orgulhoso regime comunista.

A derradeira paragem da visita à DMZ faz-se junto ao observatório de Dora, um dos inúmeros pontos de que o exército sul-coreano controla os acontecimentos a norte. São principalmente militares os presentes neste lugar. Os poucos civis dedicam-se a espreitar a Coreia do Norte pelos monóculos instalados. Mas há uma forte névoa que deixa perceber apenas o poste gigantesco (terceiro maior do mundo com 160m) de que esvoaça uma bandeira norte-coreana que nos dizem pesar cerca de 270 kg. 

Percebem-se também gradeamentos e muros longínquos, e outros edifícios perdidos numa vastidão de tom castanho, seca e inóspita.

São os fantasmas arquitectónicos de Kijong-do, uma aldeia norte-coreana de paz ou de propaganda, como lhe prefere chamar o Sul.

O regime norte-coreano assegura que a aldeia aloja uma quinta comunal explorada por 200 famílias e que é servida por um infantário, escola primária e secundária e um hospital. Mas a observação cuidada a partir da fronteira sul-coreana permitiu concluir tratar-se sim de uma aldeia Potemkin construída em 1950 com grandes custos com o propósito de incentivar a deserção dos sul-coreanos para o norte e de abrigar os soldados que asseguram a vasta rede de artilharia defensiva de fortificações e bunkers ao longo da fronteira. Trata-se da única povoação norte-coreana detectável a partir do sul da DMZ.

Como se não bastasse a fraca visibilidade, é proibido fotografar ou filmar para diante de uma Photo Line bastante recuada face ao limiar da plataforma, pintada a amarelo sobre o solo o que impede os visitantes de fazerem qualquer registo do que está para o outro lado.

Submetemo-nos aos regulamentos por aparente ausência de alternativas mas um jovem casal consegue improvisar. Ela trepa para as cavalitas do namorado e, posicionada bem mais acima face ao muro, aponta uma máquina compacta para norte e começa a disparar.

O atrevimento diverte os soldados sul-coreanos de guarda que, por certo, já o presenciaram antes. Mas depressa cumprem as instruções e obrigam o casal primeiro a desfazer a acrobacia e, logo, a apagar as fotos.

Dali, para norte, qualquer passagem seria definitiva ou, no mínimo, muitíssimo problemática como o provaram duas jornalistas norte-americanas recentemente capturadas e salvas graças à admiração do ditador King Jong Il pelo ex-presidente Bill Clinton.