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Torres del Paine I

Torres del Paine I

Estrada de terra batida conduz a um dos lagos que cercam as Torres del Paine.

PN Torres del Paine, Chile

A Mais Dramática das Patagónias

Em nenhuma outra parte os confins austrais da América do Sul se revelam tão arrebatadores como na cordilheira de Paine. Ali, um castro natural de colossos de granito envolto de lagos e glaciares projecta-se da pampa e submete-se aos caprichos da meteorologia e da luz. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Punta Arenas, a capital da 12ª região do Chile, a de Magallanes y Antárctica Chilena situada no estreito que viabilizou ao explorador português a travessia pioneira do oceano Atlântico para o Pacífico, estava a quase 200 km para sul. No pequeno cybercafé israelita de Puerto Natales, éramos demasiados os viajantes contemporâneos agarrados aos velhos computadores. A navegação na Internet podia comparar-se àqueles dias - às vezes semanas – desesperantes para os comandantes e tripulações das embarcações em que não soprava sequer uma brisa. As discussões estéreis com Moshe, o dono pouco paciente do estabelecimento sucediam-se.

Já nada nos surpreendia aquela diáspora de jovens judeus, também ali, no fundo da Terra. Em tempos dependente das exportações de lã, de carne e de peixe, Puerto Natales beneficiou da crescente popularidade do vizinho Parque Nacional Torres del Paine e tornou-se no seu portal. Ainda mais quando a empresa estatal NAVIMAG começou a admitir a bordo viajantes estrangeiros e, além dos modos tradicionais de chegarem, estes passaram a chegar vindos, por mar, do norte, de Puerto Eden.

Os israelitas são conhecidos por se instalarem em lugares pouco dispendiosos e que sabem, de antemão, que fazem ou farão, em breve, parte dos itinerários incontornáveis dos seus compatriotas.  No que dizia respeito às Torres del Paine, não eram só os hebreus adolescentes que as idolatravam, era o universo dos aventureiros e curiosos pelo mundo. De acordo, apressámo-nos a despachar os preparativos logísticos em falta e deixámos a cidade ribeirinha e então soturna atraídos pelo magnetismo das montanhas mais fotogénicas e majestosas da vasta Patagónia.  

A primeira abordagem rodoviária àquele domínio de granito começou por nos sublinhar a insignificância, à medida que a carripana subia, a muito esforço, as ladeiras de terra batida desprotegidas de eventuais quedas por longas ribanceiras. Mais para diante, cruzámos a porteria da Laguna Amarga e a Ponte Kusanovik. Já instalados e a pé, passámos para o trilho principal circular que contorna os principais picos e os pequenos glaciares entre eles abrigados. Expostos aos elementos, sentimos o vento veloz de oeste, ainda mais cortante, nas faces, devido à temperatura quase congelante que se fazia sentir.

Caminhá-lo na íntegra, pode demorar de sete a nove dias intermediados com repouso em acampamentos ou refúgios e, como pudemos testemunhar, sujeitos a meteorologia caprichosa e por vezes inclemente que tanto pode significar as quatro estações numa tarde, como dois dias de chuva ou neve quase ininterruptas.

Esse é um castigo suave se tivermos em conta a beleza dos cenários. As Torres del Paine (Monzino, Central e D’Agostini) são o centro de tudo. Erguem-se quase na vertical a aproximadamente 2800 metros acima da estepe da Patagónia, cada qual com a sua altitude. A Paine Grande atinge os 3050 metros e os picos de Los Cuernos 2200 a 2600 metros. Sob um céu nublado, revelam-se algo acinzentados mas, quando a luz crepuscular neles incide, tinge-os e à restante montanha de tons quentes que afagam a alma de quem quer que os admire.

Apesar de, hoje, o Parque Nacional Torres del Paine ser um dos mais visitados do Chile e uma paragem incontornável dos itinerários aventureiros da Patagónia ou da América do Sul, durante muito tempo permaneceu no mais absoluto anonimato.

Até à chegada dos primeiros colonos europeus, os nativos Alacalufes, Onas e Tehuelches viviam do que caçavam, pescavam e recolhiam da natureza. Nem os colonos que quase os exterminaram conseguiram ultrapassar a dureza do clima e do solo que tornavam qualquer tipo de tentativa agrícola impossível. Já a pecuária foi um caso diferente. A área actual do parque fez parte de uma das muitas herdades ovelheiras que ocupavam aquelas paragens da Patagónia. Quase só os colonos e alguns indígenas tinham tido o privilégio inconsciente de admirar Paine e os seus panoramas únicos. O nome do lugar tinha, aliás, sido dado por um grupo dos últimos, os Tehuelches, inspirados pela tonalidade azul predominante das suas lagoas gélidas. Mas o isolamento não foi absoluto. Ao longo do tempo, alguns visitantes foram chegando.  

Lady Florence Dixie, viajante, escritora, correspondente de guerra e feminista britânica destacou-se num grupo que se crê ter sido o dos primeiros turistas da zona e, no seu livro de 1880, baptizou as três torres de Paine de “Agulhas de Cleópatra”. Nas décadas imediatas, vários cientistas e exploradores europeus se seguiram até que, em 1959, o parque nacional foi estabelecido primeiro como Nacional de Turismo Lago Grey, e, em 1970, com o nome actual.

Oito anos depois, a UNESCO nomeou-o Reserva Mundial da Biosfera e a fama do lugar atingiu novas proporções. Hoje, exploram-no 150.000 visitantes por ano, 60% dos quais são estrangeiros.

Caminhamos nas imediações da base da torre Sur quando avistamos um bando de guanacos atentos à intrusão de criaturas inesperadas no seu vasto território. Com a vista apurada que têm, os camelídeos depressa sentiram o alívio de se tratarem de humanos e não dos pumas que os predam com grande voracidade, como às ovelhas e aos potros tresmalhados. Os guanacos e os pumas convivem, em Torres del Paine, com os lamas, as emas, flamingos, condores e muitas outras espécies animais, algumas endémicas.

Enquanto caminhamos vamos constatando a riqueza frígida do  ecossistema que os acolhe composto de estepe, florestas de coníferas, rios, lagos e glaciares. Alguns dos ventisqueros do parque – como preferem chamar os sul-americanos das vizinhanças aos glaciares devido à tendência que têm em canalizar o vento – são reduzidos e muito dissimulados entre os picos rochosos. É o caso do Serrano. Outros, são braços do gigantesco campo de gelo da Patagónia do Sul (em que a Argentina e o Chile continuam a debater as suas fronteiras) e têm dimensões a condizer. O Grey é um destes. Naquela altura, a sua frente permanecia acessível de barco através do lago homónimo. Aproveitámos a benesse e não tardámos a abordá-lo.

Nuvens escuras como breu cobrem a Quebrada de los Vientos e dispersam-se sobre as águas cada vez mais agitadas. Mesmo assim, temos ordem de embarque. Pouco depois de zarparmos, o Grey parece crescer e agita-se sob a tempestade que se desenrola mas que nos limitamos a apreciar quase como se do interior de uma cuba de máquina de lavar a roupa, protegidos pelos vidros reforçados do barco.  

O dilúvio termina em três tempos. A meio caminho da frente do glaciar, a chuva pára e o céu limpa-se para gáudio dos passageiros. Subimos de imediato para o cada vez mais disputado convés. Num ápice, temos a vista inaugural dos sete quilómetros de largo do glaciar, ainda distantes, mas já impressionantes, encaixados entre as falésias da cordilheira de Paine.

O comandante aproxima-se o mais que pode do gelo, em câmara lenta. Aos poucos, vemos o azulão e a dimensão esmagadora daquele incrível fenómeno intensificar-se e a temperatura descer para graus negativos de rápido enregelamento.

“Agora vamos fazer silêncio absoluto, amigos, por favor ”. A tripulação volta a afastar-nos para distância segura e pede aos passageiros que parem de cochichar de maneira a que pudéssemos ouvir o crepitar do glaciar e assistir ao estrondo da próxima derrocada. Mas o desabamento demora e desilude pelo que decidem passar ao próximo número. Dois deles saem num pequeno zodiac e capturam fragmentos diminutos de gelo do lago. No regresso ao barco principal, inauguram uma palestra acerca das águas congeladas milenares que já tínhamos presenciado, semelhante, noutros glaciares e a que não tomámos a atenção devida. Pouco depois, teve início a viagem de regresso e a tormenta retomou o seu acto.

Mais que não resistirem ao chamamento desta natureza crua e poderosa do fim do mundo, algumas personagens responderam-lhe e eternizaram-na com o melhor da sua arte. Um dos mais associados à Patagónia e a estas paragens de Magallanes foi o escritor inglês Bruce Chatwin.

Ao serviço da Sunday Times Magazine, Chatwin viajou no contexto de frequentes reportagens internacionais. Em 1972, entrevistou a arquitecta e designer de 93 anos Eileen Gray, no seu salão de Paris. Entre a decoração do salão, chamou a atenção de Chatwin um mapa da Patagónia que a entrevistada havia pintado. “Sempre lá quis ir.” disse-lhe Chatwin. Ao que Gray respondeu: “Também eu. Vá lá por mim.” 

Passados dois anos, Chatwin foi mesmo. Voou até Lima e atingiu a Patagónia um mês depois. Explorou a região por alguns meses e reuniu histórias e peripécias alegadamente de pessoas que se lá instalaram chegadas de outras partes. Em 1977, publicou “Na Patagónia”, uma narrativa em redor de uma demanda sua por um pedaço de brontossauro que havia sido deitado fora do escritório dos seus avós anos antes. A obra fez de Chatwin um dos escritores britânicos mais conceituados do pós-guerra. No entanto, aos poucos, os residentes das zonas narradas foram negando grande parte das personagens e conversas descritas por Chatwin o que transformou a sua obra em ficção.

Bruce Chatwin morreu de SIDA em 1989. “Na Patagónia” continuou a inspirar milhares de aventureiros a explorarem a região. O livro tem sido um bom aliado das imagens do Parque Nacional Torres del Paine que entretanto se globalizou.

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