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Picos florestados

Picos florestados

Cumes aguçados de Huang Shan, de que brotam pinheiros endémicos.

Huang Shan, China

A Montanha dos Picos Flutuantes

Os picos graníticos de Huang Shan, de que brotam pinheiros acrobatas, surgem em ilustrações artísticas sem conta. O cenário real, além de remoto, permanece mais de 200 dias escondido acima das nuvens.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Somos acordados de forma desesperante às 4 da madrugada. Um grupo de compinchas chineses despertara antes e tratava da sua vida como se mais ninguém habitasse a camarata. Ligam a TV com o volume no máximo, falam a altos berros e riem-se com programas de humor duvidoso. Ao mesmo tempo, servem-se de doses de noodles instantâneos cobertos de molhos em pó que, em contacto com água em ebulição, empestavam a atmosfera já de si bafienta.

Levantamo-nos indignados e improvisamos um pequeno-almoço mais saudável. Em seguida, deixamos o hotel Payunlou para o ar puro e fresco de Huang Shan.

Ainda é de noite mas a luz das lanternas frontais colocadas sobre a testa permite-nos orientarmo-nos no breu e vencermos os degraus que dotam o caminho até ao terraço de Monkey Watching the Sea. Chegamos às 4h30 mas o varandim estreito já está a abarrotar.

Conhecedoras da disputa diária por cada meio metro daquelas plataformas resgatadas às rochas, as agências de tours da região descarregam ali os seus clientes com mais de uma hora de antecedência, equipados com bancos portáteis, cobertores, almofadas e termos cheios de bebidas quentes.

Sacrificamos o conforto - de forma controlada, também alguma segurança - e conseguimos um lugar arrojado sobre o precipício que ninguém se atrevera ainda a reclamar. É ali empoleirados que, meia-hora depois, vemos o sol aparecer sobre o horizonte e iluminar uma vastidão de penhascos afiados a irromper da névoa e de uma base verdejante de vegetação trepadora.

Por norma, para se apreciar uma montanha tem que se olhar para cima, por vezes em ângulos  desgastantes para qualquer pescoço. A beleza de Huang Shan, todavia, revela-se quase sempre para baixo. Para baixo, e ao longo de desgastantes altos e baixos que os trabalhadores da estância foram equipando com mais de 60 mil degraus desde, no mínimo, há 1500 anos. 

O dia mal começou mas as coxas e os gémeos já nos fervem massacrados por aquelas mesmas escadarias que nos levaram, pouco depois, ao corredor apertado do Refreshing Terrace, o recanto limiar de onde se avista o Beginning to Believe Peak, assim chamado em honra de um peregrino do século XVIII que se mostrava céptico quanto à beleza de Huang Shan.

Até ao anoitecer, conquistaríamos com prazer masoquista inúmeros outros cumes e depressões apuradas por uma escultura natural pré-histórica de cortar a respiração.

Voltamos à zona de Beihai e cruzamo-nos com um qualquer sino-magnata sentado à laia de lorde num cadeirão-padiola de bambu e levado às costas por carregadores massacrados em uniformes azuis. Vemo-los deterem-se para o passageiro comodista comprar uma maçaroca de milho cozido a um vendedor por ali instalado. Pouco depois, respiramos fundo e enfrentamos a escadaria sem fim que nos conduziria a novas alturas.

Muitos dos picos e rochas de Huang Shan foram baptizados pelos chineses com nomes pomposos inspirados em figuras e narrações religiosas ou mitológicas. Nesse momento, ascendíamos lentamente rumo à longitudinal Flying over Rock, para variar, assim chamada por que assenta, em equilíbrio, sobre uma plataforma elevada exígua, onde parece ter aterrado do céu.

Foi mais ou menos isso que acharam os trabalhadores de Huang Shan quando viram surgir na sua montanha, em 1980, o falecido Deng Xiaoping, então, com 75 anos de idade.

A sua aparição foi de tal forma milagrosa que, após a visita do líder supremo, as autoridades chinesas abriram a montanha a visitantes estrangeiros pela primeira vez desde a revolução cultural.

Aliviamos a pressão crescente sobre os músculos e tendões quando avançamos por terreno liso até às imediações dos sopés dos picos mais elevados da cordilheira, o Bright Summit Peak (1840m) e o Lotus Peak (1864m).

Vários trilhos entroncam, por ali, junto às estranhas estações meteorológicas e de TV. Uma zona semi-aplanada acolheu um pequeno complexo de restauração em que se aglomeram centenas de almas estasiadas e esfomeadas. Refrescamo-nos enquanto admiramos a peregrinação longínqua em fila ao cume mais alto de Huang Shan.

Entretanto, retomamos caminhada, desta feita por uma longa levada erma que estimamos poder seguir às profundezas da Walking Fairy Land Bridge.

Prosseguimos 40 minutos a fio sem vermos vivalma, perturbados pela perspectiva do equívoco e de termos que subir, em vão, tudo o que estávamos a descer. Mas, por fim, após um túnel misterioso, lá vislumbramos o monumento, a unir a meio dois enormes paredões de pedra polida.

Naquele recanto místico, como um pouco por toda a parte, sustentam-se inúmeros pinheiros de Huang Shan de formas e tamanhos sortidos que os chineses consideram exemplos únicos de vigor por brotarem literalmente das rochas e terem, muitos deles, mais de cem anos.

Nessa altura, sentíamos as pernas tão duras como o granito predominante na paisagem, posto a descoberto há cerca de 100 milhões de anos quando um antigo mar sucumbiu a movimentos tectónicos extremos.

Confrontamo-nos com a “Illusion Scenic Area” mas também com a realidade dramática de que o passadiço suspenso que nos devia permitir atalhar o retorno para Beihai havia sido fechado por risco de colapso.

É, assim, já praticamente insensíveis a qualquer esforço da cintura para baixo que invertemos marcha para o cimo daquele domínio extraterreno que o realizador James Cameron transpôs para o ecrã em “Avatar”.

Também ele deslumbrado com os panoramas sublimes de Huang Shan, Cameron repetiu em conferências de imprensa que havia sido aquela a inspiração de grande parte dos cenários alienígenas do filme, em particular da montanha “Hallelujah”.

Cameron confessou, aliás, uma subserviência pouco cerimoniosa face à versão original. “Tudo o que tivemos que fazer foi mandar uma equipa para lá alguns dias e tirar fotografias. Depois, foi só recriar Huang Shan em Pandora”.

Segundo o enredo do filme, os humanos extraem desta lua habitável imaginária, um mineral precioso chamado unobtanium e a expansão da mineração ameaça a existência do povo humanóide azulado Na’vi.

Já Huang Shan, é considerada e retratada, há muitos séculos, como a montanha mais encantadora da nação e continua a gozar da protecção das autoridades chinesas. Para sorte dos terráqueos felizardos que desgraçam as pernas a desbravá-la.

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