Esconder Legenda
Mostrar Legenda
Auto-flagelação

Auto-flagelação

Antipos (auto-flageladores) sangram depois de se terem cortado, nas imediações tropicais de um cemitério de Gasan.

Gasan, Filipinas

A Paixão Filipina de Cristo

Nenhuma nação em redor é católica mas muitos filipinos não se deixam intimidar. Na Semana Santa, entregam-se à crença herdada dos colonos espanhóis.A auto-flagelação torna-se uma prova sangrenta de fé


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Por estes lados, o Verão dura todo o ano mas os festivais raramente são de música. Ainda é quinta-feira e o fim de semana vislumbra-se, à distância. A noite afirma-se e o Morion Park & Arena de Boac acolhe uma multidão ávida de diversão. As tendas de comes e bebes e artesanato começam por reter e entreter os convivas com o alto patrocínio da corporação e cerveja São Miguel que foi criada, em 1890, num bairro homónimo de Manila e não no país hermano, como também pensávamos.

Entretanto, os animadores desculpam-se em tagalog (o dialecto filipino) segundo nos explicam, por interromperem um êxito pop nacional que fazia fibrar os velhos altifalantes e o povo e som começa então a chegar difuso de um palco semi-iluminado que avistamos sobre a vedação.

A mudança provoca uma pequena migração em massa que as autoridades são obrigadas a controlar. A esforço, os agentes distribuem as pessoas pelas bancadas limítrofes e impedem-lhes a passagem para um campo cimentado e para a base das colunas romanas de gesso que o decoram.

Gerry Jamilla, o nosso cicerone de serviço, termina o seu halo halo (sobremesa filipina feita de gelado, gelatina, leite condensado, feijão e pedaços de fruta) à pressa. Ajuda-nos a conseguir uma boa posição no meio do povo e avisa-nos que não nos podemos levantar demasiado para não gerarmos sombras indesejadas. Depois, some-se na confusão.

Uma voz em off convoca os actores participantes para o palco. Assim que a chamada termina, a assistência em peso ignora a presença das autoridades e invade a área cimentada central, barra a iluminação dos holofotes e disputa os lugares de honra não oficiais, nem sequer permitidos, frustrando centenas de outros espectadores que guardavam os seus assentos há horas.

Estamos numas Filipinas provincianas. A nação mais latina da Ásia é também um paraíso oriental da corrupção institucional e do laxismo inquestionado. Não nos passou sequer pela cabeça que os organizadores tentassem recuperar a situação. A confirmá-lo, dois ou três agentes desesperados acabam por ajudar os infractores a acomodarem-se, enquanto os prejudicados dedicam aos rivais uma vaia monumental.   

Entretanto, as coisas acalmam. Um grupo de bailarinos de visual cândido dá início ao seu número: uma dança etérea que representa a criação do mundo até ao paraíso de Adão e Eva e prossegue com representações teatrais dos momentos altos da Bíblia. O público é crente como poucos mas não deixa que a fé interfira com a boa disposição. De cada vez que um aspecto ou interveniente revela vulnerabilidade satírica, há um adolescente que manda uma boca no escuro e desencadeia risadas contagiantes, censuradas sem convicção pelos mais velhos. O rei Herodes e Pôncio Pilatos são vítimas de apupos abertos e até bolas de papel lhes chovem em cima. Para bem destes actores, a peça fica-se pela condenação de Cristo.

Na tarde de sexta-feira, como mandam as regras, é reencenada a Via Crucis, animada por centenas de Moriones (mascarados de soldados de romanos) por dois ladrões e um Jesus voluntário que os centuriões apoquentam e chicoteiam até à Cruz com realismo impressionante. Para lá do drama, encanta-nos o facto de os papéis de Maria Madalena e das restantes santas mulheres serem desempenhados por ladyboys, rapazes efeminados que abundam na ilha de Marinduque como um pouco por todas as Filipinas. Também apreciamos a descontração com que é encerrado o acontecimento chave do  Cristianismo, com os espectadores inquietos a apoderarem-se do Monte das Oliveiras para se fotografarem a ser martirizados pelos centuriões, ou sob a ameaça das lâminas a fingir das suas espadas. Algumas horas e quilómetros depois, encontrámos ferimentos a sério e uma atmosfera em tudo diferente.

“Agora preparem a mente”, diz-nos Gerry. “Vocês lá na Europa não têm nada parecido com isto mas não se assustem. Tentem levar tudo como mais uma das vossas experiências étnicas.”

Assim que chegamos  à paróquia de Gasan começamos a ver homens de tronco nu e corpos manchados de vermelho que brilham sob o sol escaldante do meio da tarde. Depois, subimos a escadaria e damos com o cemitério da cidade ocupado por antipos – assim chamam os filipinos aos seus dedicados auto-flageladores. Surgem divididos por distintos clãs, à sombra de jazigos e acomodados entre campas ou sobre elas, com vista para coqueirais frondosos. Açoitam-se com um pequeno chicote que agrupa ripas de bambu diminutas e produz um teq teq característico. Mas não é este o único instrumento que os tinge de vermelho. O sangue é inicialmente libertado com recurso a lâminas partilhadas e, assim que o fluxo parece ter parado, os antipos pedem a colegas que lhes voltem a golpear os corpos quase sempre magros. Reparamos também que, apesar de ser levada a cabo por expiação e solidariedade religiosa para com o sofrimento de Cristo, a flagelação tem lugar como uma espécie de convívio e serve de pretexto para longas conversas.

Mas nem todos os corpos aguentam a violência infligida. O sol continua a subir no horizonte e o calor tropical aperta. Há um cheiro orgânico que se instala e provoca náuseas em alguns dos fiéis. Um deles perde mais sangue do que era suposto e também os sentidos. Acaba assistido por outros antipos que o deitam no solo ervado e ventilam.

Horas depois, o número de baixas aumenta demasiado. Certos grupos interrompem a punição e regressam às ruas do centro de Gasan onde a Sexta Feira Santa se aproxima do fim.

Aos poucos, a noite instala-se e um cortejo de andores iluminados percorre avenida já repleta de crentes, intercalado por uma sub-procissão de papoas, mulheres de luto pela perda de filhos, que caminham lentamente debaixo de tufos vegetais.

Mas, como calculávamos, os auto-flageladores não se tinham sumido de vez. A parada católica parece ter já terminado mas o fundo da rua revela um enorme séquito cabisbaixo e sofrido que a população solidária se limita a observar e, aqui e ali, a fotografar.

Com sua derradeira passagem, a Sexta-Feira Santa dá lugar à Páscoa. Nos dias que se seguem, esta improvável nação católica celebrará a magia da Ressurreição. O sangue que homenageia Cristo só voltará a ser derramado no ano seguinte.

Guias: Filipinas+