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Fogo posto

Fogo posto

Público admira o fogo aceso para espantar espíritos maléficos enquanto as fogueiras se elevam.

Helsínquia, Finlândia

A Páscoa Pagã de Seurasaari

Em Helsínquia, o sábado santo também se celebra de uma forma gentia. Centenas de famílias reúnem-se numa ilha ao largo, em redor de fogueiras acesas para afugentar espíritos maléficos, bruxas e trolls


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


À medida que a tarde e o autocarro 24 avançam, a temperatura já enregelante cai a olhos vistos e reforça a solidez do retalho do Golfo da Finlândia que se estende para oeste.

Segue a bordo um pequeno exército de crianças em fatinhos coloridos debaixo de roupa de Inverno que, à boa maneira finlandesa, lutam para conter a ansiedade gerada pela farra iminente.

Chegamos à última paragem. Os passageiros encasacados saem para o exterior de forma ordeira, ajeitam as golas, os capuzes e os gorros e enfrentam o cenário frígido.

Sem forma melhor de nos orientarmos, seguimo-los. Mas, como acontece a vários destes suomi em modo de descontracção, encantamo-nos com os lagos gelados, azulados devido ao esfumar precoce da luz setentrional e escondidos atrás de vedações naturais feitas de um capim alto e ressequido.

Bandos selvagens de patos, de gansos e de outras aves do frio chapinham em poças abertas pela corrente submarina, demasiado confortáveis naquela água realmente líquida para se incomodarem com a invasão humana.

Por fim, atravessamos uma ponte estreita, um acesso edificado em 1891-92, com madeira de árvores derrubadas durante as tempestades de Outono. Do outro lado, já estamos em Seurasaari.

Esta ilha foi usada durante algum tempo para pasto do gado de um senhor feudal da região. Mas, no virar para o século XX, as autoridades adaptaram-na para proporcionar tempos de evasão aos trabalhadores da cidade e de uma instituição em particular, a Serving Company. 

Esta empresa construiu, ali, mais de 30 edifícios recreativos entre bares e geladarias, barracas de vendas, fonógrafos públicos, máquinas de observação panorâmica e também a iluminação necessária. 

Durante o Inverno pouco misericordioso, a animação em Seurasaari parece aquém do que sugere tanta infra-estrutura histórica mas, mal a Primavera se impõe, a ilha ganha vida e acolhe a maioria dos seus cerca de 500.000 visitantes anuais, parte deles frequentadores de uma das três únicas praias naturistas do país dos mil lagos.

Da orla dos lagos, acedemos a um trilho de floresta sombrio, no encalço de famílias que se também se tinham deixado atrasar. Em ambos os lados do caminho, no meio das coníferas, surgem velhos moinhos e celeiros para ali levados desde 1909 de diferentes recantos da Finlândia, com o fim de integrarem um museu ao ar livre.

A espaços, estruturas intrigantes adicionais insinuam-se no meio do arvoredo despido: uma capela luterana em creme e branco sujo digna de uma Finlândia dos Pequenitos e, entre outras, uma cabine telefónica histórica verde com forro amarelo em que duas amigas se entretêm a fotografar-se.

Andamos mais algumas centenas de metros e somos aliciados com o aroma de fogo alimentado a madeira mal seca e de algum grelhado de carne ainda difícil de identificar. Até que entramos numa clareira e nos deparamos com uma multidão piqueniqueira, disposta em redor de um churrasco comunitário. 

Gente alourada grelha salsichas espetadas em galhos e reconforta-se da agrura meteorológica enquanto algumas almas alcoolizadas e à margem da sociedade bem sucedida da capital suspiram por eventuais caridades.

Os finlandeses cristãos são quase todos luteranos, só uma pequena percentagem da população segue os preceitos da Igreja Ortodoxa. Mas, muitos deles – a começar pelos samis distintos em termos étnicos e culturais do topo da Lapónia – preservam crenças ou simpatia por costumes nórdicos ancestrais. Era exactamente essa relação que reunia tantos finlandeses em Seurasaari. 

Como nos explica um avô dedicado: “Antes as pessoas do campo acreditavam muito a sério nestas coisas, que no Sábado Santo de Páscoa, os maus espíritos e as bruxas voavam sobre as quintas e os campos, que os trolls ordenhavam o leite das vacas e lhes cortavam o pelo, como às ovelhas e até aos cavalos. Pensava-se que o fumo e o fogo os afugentavam e, como tal, acendiam enormes fogueiras”.

À parte dos edifícios do museu, a fundação Seurasaari, forte defensora dos valores vernaculares finlandeses, começou também a transpor para a ilha, em 1982, uma encenação anual desta tradição e a convocar os habitantes de Helsínquia para a sua celebração. 

Quando deixamos o pequeno quiosque-café ao lado do churrasco já abastecidos de chá quente e bolos, vários funcionários tratam de acender as fogueiras, com o apoio de um carro de bombeiros estrategicamente colocado para eventuais emergências, apesar do solo nevado e molhado em redor da vegetação por queimar.

Tyra – a neta do senhor que nos explicara a origem do costume – passa por nós vestida de bruxinha sardenta, rodeada de amiguitos endiabrados acabados de conhecer. Um bando de espíritos infantis em êxtase acomoda-se sobre um monte de neve suja. Dali, como pequenos Neros deliciados, observam as chamas apoderarem-se dos troncos e folhas verdes e ganharem dimensão em poucos segundos.

O fascínio mantêm-se por algum tempo mas, com a monotonia da combustão, muitas destas crianças debandam para confrontos de bolas de neve ou em busca de ovos e outros doces que os familiares esconderam no bosque lúgubre por detrás.

Com o apogeu do fogo, é inaugurado numa estrutura montada em jeito de anfiteatro, um recital de poesia e canto que recruta dezenas de outros miúdos sob a tutela carinhosa de Marita Nordman, uma anciã com 80 anos, figura incontornável do folclore finlandês que vemos mais tarde circular em redor das fogueiras com uma pequena cesta com tricotados, bordados e outros adereços típicos dos modos antigos da Finlândia.

O festival termina. Pouco depois, os bombeiros de serviço extinguem as fogueiras já moribundas. A condizer, também o dia anuncia o seu último estertor. Como por obra divina, enquanto o frio aperta como nunca, o céu nas redondezas abre de um azul petróleo para tons de laranja e magenta que se adensam.

Dezenas de convivas resilientes procuram a bola incandescente do Sol. Seguimos mais uma vez os nativos por um trilho de que não nos tínhamos apercebido e que termina na orla da floresta, de frente para uma outra enseada gelada do Golfo da Finlândia.

Do lado oposto, o grande astro afunda-se lentamente e cria um fundo avermelhado decorado pelas silhuetas de árvores e estruturas longínquas, também pelo fumo de uma chaminé que se destaca acima da vegetação.

Após o desaparecimento ilusório do Sol, a escuridão instala-se de vez. Regressamos à paragem do autocarro com auxílio de lanternas e, pouco depois, ao braços aconchegantes da Helsínquia sofisticada.