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Conversa ao pôr-do-sol

Conversa ao pôr-do-sol

Banhistas convivem na água morna do Mar de Sibuyan, enquanto um paraw desliza mais ao fundo.

White Beach, Filipinas

A Praia Asiática de Todos os Sonhos

Foi revelada por mochileiros ocidentais e pela equipa de filmagem de “Assim Nascem os Heróis”. Seguiram-se centenas de resorts e milhares de veraneantes orientais mais alvos que o areal de giz.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Amanheceu faz umas poucas horas mas, enquanto caminhamos aquém da floresta limiar de coqueiros, surpreende-nos a visão de dezenas de casais entregues a pacientes sessões fotográficas. Como o vemos, a maior parte está de lua-de-mel mas, mesmo noutros casos, pouco muda na servidão com que os jovens japoneses, chineses, sul-coreanos e taiwaneses se entregam aos caprichos das parceiras. Embelezadas em modo estival, estas assumem pose atrás de pose e aguardam pelos respectivos disparos da câmaras. Sempre que os visores dos aparelhos reflectem algum defeito, reclamam o renovar do processo. Sem alternativas, os namorados, noivos ou maridos fazem-lhes a vontade com sorrisos nos lábios e piropos elegantes.

Há um óbvio paralelismo entre a adulação pelas jovens modelos e a do litoral imaculado que as acolhe.

É com recurso a um outro retoque de cosmética durante a época  das chuvas habagat e a autoconfiança dos elogios passados que White Beach revalida, ano após ano, o título de Princesa das Praias Filipinas.

Até aos anos setenta, esta extremidade da ilha de Boracay, situada a 315km a sul da capital Manila mantinha-se um refúgio visitado apenas por viajantes intrépidos a quem havia sido revelado o grande segredo do Mar Sibuyan.

Em 1970, Robert Aldrich dirigiu Michael Cayne e Henri Fonda em “Assim Nascem os Heróis”, rodado em Boracay. No filme, Sam Lawson faz de um interprete de japonês que tinha evitado entrar em combate no teatro de guerra do Pacífico da 2a Guerra Mundial. Mas o seu comandante (Henry Fonda) destaca-o para uma base britânica perdida na selva nas então Novas Hébridas (hoje Vanuatu). Ali, Lawson não só se vê forçado a combater como conquista o estatuto de herói, após, segundo narra Tosh Hearne - um médico Cockney e soberbo da companhia (Michael Cayne) - ter matado quinze japoneses, possivelmente trinta, por sua conta.

Ao invés do enredo da longa metragem e do que, por essa altura se passava na vizinha ilha meridional Mindanao - que então abrigava os grupos islamistas, separatistas e terroristas MNLF (Moro National Liberation Front) e MILF (Moro Islamica Liberation Force) e, hoje, abriga ainda os resistentes BIFF (Bangsamoro Islamic Freedom Fighters) - Boracay e a bem maior Panay sempre se mantiveram pacíficas. Malgrado o conflito mais a sul, o passa-palavra da equipa de filmagens inglesa e norte-americana granjeou-lhes uma substancial notoriedade. 

Um dos visitantes ocidentais mais influentes que se seguiu à equipa de filmagem, um alemão de nome Jens Peter, louvou estas ilhas e em particular a White Beach num dos seus conceituados guias de viagem. A menção honrosa desencadeou um afluxo, a partir de então, quase contínuo de mochileiros curiosos e uma fama sem retorno. Uma década depois, a beleza dos litorais filipinos, em geral, corria mundo. A White Beach destacava-se dos demais e, nos anos 90, já dotada de inúmeros resorts de todos os tipos surgia com frequência em listas das melhores praias do Mundo elaboradas por publicações conceituadas de viagem.

Sem surpresa, nos países vizinhos –  Japão, Taiwan, China e Coreia do Sul – as agências de turismo passaram a vendê-la em pacotes turísticos como um paraíso barato logo ali ao lado das suas paragens asiáticas.

Até 1980, os únicos sons que se ouviam eram os do mar e de uma ou outra liquidificadora distante em plena produção de batidos, hoje, há uma frota de embarcações motorizadas de diferentes tipos ancoradas junto ao areal da White Beach para o que der e vier.  Clientes não faltam. Em intervalos dos seus muitos momentos fotográficos, os casais românticos – como os grupos de turistas asiáticos em geral esforçam-se por ser o mais destemidos possível. Na White Beach, pegou de moda ter aulas de mergulho.

Como acompanhámos da beira do mar sedutor de Sibuyan, a aventura da experiência revela-se contida mas, de acordo com a famosa psicologia de grupo que comanda o Extremo Oriente, é para todos. Literalmente.

Como um exército madrugador de ninjas desajeitados, centenas de vultos enfiados em fatos escuros de neoprene percorrem o areal conduzidos por um instrutor. Chegados à projecção no areal de uma grande barcaça, formam um círculo e recebem um briefing exaustivo que memorizam e passam a executar com precisão de autómatos. Segue-se uma não menos espalhafatosa incursão na água para dar início aos exercícios de submersão e, por fim, a viagem em direcção a alto mar que desassombra a praia.

Para lá da rebentação insignificante, permanecem ainda atracados dezenas de bangkas (a embarcação típica das filipinas) e de paraws (outros barcos à vela pitorescos) que, mal o vento se insinue, os veraneantes hão-de fretar.

Muitos outros forasteiros mantêm-se à sombra da linha de coqueiros, sentados nos bares e restaurantes ou entretidos com as bagatelas – óculos de sol, joalharia, relógios, roupa e tours – que um enxame de vendedores sediados no mercado ao ar livre de nome D’Mall lhes tenta impingir. O empregado de serviço de uma esplanada em que repousamos, oriundo de Manila, respeita a missão e o empenho quase guerrilheiro dos compatriotas mas não se refreia em beliscá-los: “São moros. Em época alta migram para cá de Mindanao, de Jolo e de outras ilhas Sulu, lá mais para baixo. Também são dos vendedores mais chatos que já alguma vez já pisaram as Filipinas. Eu até tenho pena de alguns turistas.”

Para os aliviar deste inevitável stress comercial e do surpreendente cansaço balnear, um regimento de massagistas residentes mantém-se a postos para aplicar nos corpos ainda por bronzear a magia das suas mãos.

Por norma, a meio da tarde, o vento e os desportistas filipinos residentes e estrangeiros apoderam-se da praia. Junto à água, os adeptos do windsurf e do kyte surfing tratam dos últimos preparativos antes de se fazerem ao mar quase alto enquanto que dois pelotões internacionais e multirraciais correm ao longo da praia e ultimam a forma física para uma corrida de barcos dragão a ter lugar nos dias que se seguem. Lideram-nos jovens orgulhosos, de óbvia etnia malaia, vários deles  híper-dedicados às suas imagens, com corpos esculturais, fatos de banho irreverentes, brincos, piercings, óculos escuros, pulseiras, bem como lenços ou bandoletes garridas a condizer com os conjuntos.

Terminado o aquecimento, o grupo regressa ao ponto de partida e divide-se. Cada equipa eleva um dragon boat sobre a cabeça. Em esforço solidário, vencem o areal alargado pela maré vazia, depositam-nos sobre mar, embarcam e zarpam com pagaiadas vigorosas.

Nas imediações, empregados de um resort fazem o seu próprio exercício diário: carregam centenas de malas de hóspedes asiáticos para a caixa de um camião. Para os proprietários da bagagem, o breve deleite filipino da White Beach está prestes a terminar. 

Guias: Filipinas+