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Praia soleada

Praia soleada

Banhistas estendem uma toalha junto a uma das cabanas exuberantes dos nadadores-salvadores de Miami Beach.

Miami Beach, E.U.A.

A Praia de Todas as Vaidades

Poucos litorais concentram, ao mesmo tempo, tanto calor e exibições de fama, de riqueza e de glória. Situada no extremo sudeste dos E.U.A., Miami Beach tem acesso por seis pontes que a ligam ao resto da Flórida. É manifestamente parco para o número de almas que a desejam.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Só decorreram vinte minutos desde que o “Island Queen” zarpou das docas da Bay de Miami. Passamos debaixo do grande viaduto da Port Boulevard. A linha de arranha-céus cinzentos define-se nas nossas costas contra o céu azul quase limpo de névoas ou nuvens. A bandeira da Land of Opportunity segue presa à popa da embarcação mas, do ângulo em que vemos, esvoaça, com as suas stars & stripes num plano ainda mais elevado. Não tardamos a navegar pelas primeiras expressões pessoais de sucesso conquistado à moda dos Estados Unidos. “À vossa direita está ancorado o fabuloso iate do Sr. Mark Cuban, que todos deverão conhecer do programa “Lago dos Tubarões”. Daí em diante, à medida que nos aproximamos da costa oeste de Miami Beach, a narradora de serviço pouco mais faz que anunciar outras embarcações e mansões. São todas propriedade de vedetas e milionários, americanos mas não só, umas menos expostas que outras. Com uns ridículos metros de vegetação a separá-las sucederam-se a casa do inventor do Instagram, a de Ricky Martin. Uma mansão usada por Shakira e por Usher em filmagens de videoclips e, a condizer, uma das casas do rapper Puff Daddy. “Esta é de Tomas Cramer, um arquitecto alemão.” acrescenta a narradora. “Queixava-se de que Miami era demasiado quente. Instalou ar condicionado por todo o interior. Não satisfeito, instalou um sistema também para fora que custou quase 100.000 dólares. Segue-se o lar de Verão de Phillip Frost, Mr. Viagra, ou Mr. Blue, como é mais conhecido. Cada uma das 32 palmeiras que veem naquele jardim veio de África com o custo unitário de 10.000 dólares. A mansão custa apenas 60 milhões de dólares.” A segunda maior casa da zona era de Elisabeth Taylor e de Eddie Fischer, um dos seus muitos maridos. No jardim, está um coelho preto oferecido por Michael Jackson. Outras, mais pequenas, pertenciam a Sylvester Stallone, a David Beckam, à brasileira Xuxa. A da cantora Glória Estefan incluía um estúdio de gravações de quatro milhões de dólares. Na Fisher Island, já quase a tocar a grande ilha de Miami Beach e com acesso apenas de barco e de helicóptero, situavam-se mansões de Tom Cruise, Jennifer Lopez, Sophia Loren, Boris Becker, assim continuou a apresentar a anfitriã ao microfone enquanto os passageiros, deslumbrados, se viravam ora para bombordo ora para estibordo.

Miami revela-se isto e muito mais. Muito mais, claro está, que a intriga de ADN e laboratório de “Dexter” e, bem anterior, de “Miami Vice” de que excertos de inúmeros episódios foram filmados naquelas mesmas águas e nas docas que tínhamos por diante.

É em Miami Beach, em particular, que todos os sintomas de prosperidade exacerbada e fama ou de anseio por as atingir dão à costa. Regressamos à doca e desembarcamos. No seguimento, conduzimos via estrada e ponte A1A até ao litoral oposto da grande ilha e sentimos as suas vibrações com o sol suave do falso Inverno local a massajar-nos as faces cada vez mais bronzeadas.

Incontáveis jovens – outros nem tanto – obcecados com a sua forma física e aparência sucedem-se no passeio irregular que ziguezagueia entre os coqueiros do Lummus Park e acompanha o Mar das Caraíbas. Fazem-no a correr, de patins ou de bicicleta, em skates evoluídos ou rebocados por cães destrambelhados. Num reduto pejado de beleza e classe como esta faixa privilegiada da Flórida, ninguém quer dar parte fraca. Se a meteorologia nem para passar a noite convida a ficar em casa, os corpos esculturais e dourados das vedetas servem de motivação inquestionável a todo e qualquer exercício.

Detêmo-nos diante de uma espécie de ginásio ao ar livre que agrupa barras de distintas alturas, muros, pneus e alguns outros equipamentos auxiliares móveis. Frequentam-no culturistas dedicados de distintos grupos num convívio de equilíbrio instável, longe da harmonia.

Aproximamo-nos e metemos conversa com eles, isto quando o seu ciclo de repetições e descanso o permite. Vencida alguma desconfiança inicial e ao seu ritmo, percebemos a dinâmica da sua relação. Lazar Novovic e Dusan Djolevic estudavam nos E.U.A. quando se conheceram através de um amigo. Adeptos do street workout, focados em transformar as suas vidas, encontraram num vídeo motivacional de Hannibal for King, um bodybuilder de rua de Nova Iorque idolatrado nos E.U.A. e um pouco por todo o mundo, uma forte inspiração para criarem os Bar Brothers, o seu próprio movimento de bem-estar e de determinação na vida, hoje, internacional e fortemente online.

Temos a sorte de os encontrar aos três juntos. Lazar e Dusan estão ocupados a filmar um vídeo com Hannibal e, ao mesmo tempo, com os seus próprios exercícios. É Hannibal quem mais fotografamos e que nos dedica mais do seu tempo. “A minha história é curiosa: eu parti as mãos com muita gravidade. Os médicos disseram-me que nunca mais as ia poder usar convenientemente. Ignorei-os e segui um tratamento alternativo que incluía uma série de exercícios calisténicos. A determinada altura, dei comigo como que viciado nesses exercícios e altamente motivado pelos progressos. Levei os exercícios ao extremo, moldei todo o meu corpo e comecei a criar vídeos motivacionais para ajudar outras pessoas a chegarem a objectivos difíceis. Hoje, viajo pelo mundo a mostrar o que faço e a inspirar outros desportistas. Mas não pensem que é fácil. Tenho duas mulheres, três filhas e apenas um filho. Quanto estou em Nova Iorque vivo rodeado de mulheres. Para me safar, saio com o meu filho mas, mesmo assim, estou sempre a ouvir acusações por conviver com outras mulheres em forma...”

Pedimos a Hannibal the King uma última foto. Ele exibe-nos uma posição extrema conhecida por bandeira, com o corpo bem esticado na horizontal a usar uma das barras laterais como eixo. Depois, despedimo-nos dele e do grupo a pensar se não seria, boa ideia para melhor nos prepararmos para as nossas viagens seguirmos, pelo menos, parte das suas técnicas e ensinamentos.

A manhã chega ao fim. A praia logo em frente compõe-se e os nadadores-salvadores substituem-se no fim do primeiro turno do dia.  Asseguram a continuidade do seu Bay Watch do cimo das cabanas salva-vidas típicas destas paragens, de tal forma exuberantes e bem-dispostas que os banhistas forasteiros as cercam uns atrás dos outros de telemóveis em riste e determinados em com elas se fotografarem de recordação.

Já estamos bem fora da época dos ciclones e nem o algum vento que se faz sentir, afecta a mansura em que se desenrola o Mar das Caraíbas. Todas as cabanas têm bandeiras roxas içadas, o que nos intriga. Perguntamos a um banheiro que se compõe na varanda da cabana o significado da cor. Este responde-nos com uma altivez e secura a que já nos habituámos em quem tem um lugar de autoridade nos E.U.A., por mais insignificante que seja: “Alforrecas, detectámos umas poucas alforrecas na água”.

Contemplamos o mar próximo salpicado de vultos. O facto de se tratar de uma chatice familiar e, assim queríamos crer, diminuta não nos demove de um já merecido mergulho. Enquanto chapinhamos na água, somos sobrevoados por dois zepelins publicitários. Ao largo, navega uma barcaça que exibe anúncios num painel. Pensávamos nós que conhecíamos a fundo o universo balnear. Devíamos ter previsto que numa praia dos E.U.A., algo de novo apareceria.

Mas, se Miami Beach inova, fá-lo com um respeito empreendedor pelo seu património histórico. Regressamos ao interior da ilha já com a tarde bem avançada. Estávamos alojados no The Hall, hotel boutique que havia adaptado uma de 1200 estruturas Art Deco de Miami Beach (a maior concentração do mundo), a maior parte construída entre 1923 e 1943. Em redor, vários outros se destacavam pela arquitectura da época, em especial o Park Central, entre as 6th e 7th street, poiso frequente de estrelas clássicas de Hollywood: Clark Gable, Rita Hayworth, Carole Lombard e afins, personagens que condizem com o tempo áureo de alguns calhambeques coloridos por ali estacionados em regime de Vallet Parking, a nosso ver, uma das mais oportunistas e irritantes pragas comerciais dos E.U.A.

Com o ocaso a instalar-se e os banhistas a regressarem do areal ao domínio de betão e asfalto, vemo-nos atraídos pelo chamamento da Ocean Drive. Os néons dos hotéis Boulevard, Colony e Starlite não tardam a devorar os tons de pastel diurnos dos edifícios e a apoderar-se da cromia daquela glamorosa avenida marginal. Sinalizam, assim, a reinauguração da vida nocturna tresloucada do bairro.

Não tarda, bares como o Churchill’s Pub – de gerência britânica - atraem uma horda heterogénea de punks reciclados, hipsters curiosos e metaleiros ou qualquer que seja o tipo de fãs das bandas que ali tocam ao vivo sem qualquer coerência de género ou notoriedade. Algo semelhante se passa no Liv, apesar de abrigado no interior do hotel Fontainebleu e, como tal, bastante mais exclusivo que o Churchill’s ou o Nikki Beach, este, assente em diversas cabanas e dotado de bares tiki sobre a areia da praia da SoBe, a South Beach de Miami Beach.

Por essa hora, a agitação mais visível ainda é a de uma fila crescente de visitantes da ilha que se querem fotografar em frente ao famoso relógio/termómetro Miami Beach no limiar do Lumus Park.