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Foz incandescente

Foz incandescente

Passageiros de uma lancha observam o encontro da lava subterrânea do vulcão Kilauea com o oceano Pacífico.

Big Island, Havai

À Procura de Rios de Lava

São 5 os vulcões que fazem a Big Island aumentar de dia para dia. O Kilauea, o mais activo à face da Terra, liberta lava em permanência. Apesar disso, vivemos uma espécie de epopeia para a vislumbrar.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A maior ilha do Havai e dos Estados Unidos emprestou, na versão original, o nome ao arquipélago do Pacífico. Também para evitar confusões, é, hoje, conhecida como Big Island.

O título não engana. Com uma área de 10.432 km2, a sua superfície é o dobro da das restantes ilhas juntas e a Big Island não pára de aumentar. Cinco vulcões ligam-na ao interior da crosta terrestre. Dois deles canalizam lava em quantidades avassaladoras e depositam-na na superfície da ilha e no mar contíguo. O Kilauea é o mais activo do planeta e a sua presença avassaladora faz com que as restantes peculiaridades naturais da ilha estejam submissas ao protagonismo vulcânico.

Segunda cidade do 50º estado norte-americano, Hilo tem o estatuto de entreposto histórico e turístico. Acolhe os visitantes da ilha e reencaminha-os para onde mais fumega. Por norma, os lugares privilegiados ficam ao abrigo do Parque Nacional dos Vulcões que reúne áreas luxuriantes e inóspitas das encostas do Kilauea e do Mauna Loa.

Este último, dá sinais de vida pouco frequentes, até porque, acima dos 3.900 metros, o seu cume passa parte do Inverno coberto por um manto de neve, mas as aparências iludem. O interior do cone amplo abriga um lago de lava que, transborda de tempos a tempos e liberta rios incandescentes que semeiam a destruição. Nessas ocasiões, os cientistas e os fotógrafos devidamente acreditados conseguem as fotografias e vídeos espectaculares que renovam uma das imagens mais dramáticas que o mundo tem do Havai.

Por azar, quando exploramos o Parque nacional dos Vulcões, toda a lava flui por túneis subterrâneos e é apenas visível junto ao mar, muitos quilómetros para sudeste. Ficamos, assim, temporariamente limitados à contemplação da cratera abatida e fumegante do Kilauea e de outras paisagens lunares.

Seguimos pela Chain of Craters Road que nos conduz pela vertente sul do Kilauea e avançamos ao longo de um mar de lava sólida com padrões e texturas mutáveis, ora encordoada ora almofadada. O asfalto chega ao topo de uma arriba de que se vê uma extensão mais íngreme da encosta, e vários quilómetros negros para diante, o azul escuro do oceano. Detectam-se, a espaços, fragmentos isolados de vegetação poupada pela lava ou, no ver da mitologia havaiana, pela deusa do fogo Pele.

A estrada faz-se à encosta e corta o tapete de lava. Aproxima-se, em pouco tempo, da beira-mar fumarenta, cada vez mais empestada de enxofre. Procuramos o trilho que é suposto levar-nos a Pu’u Loa e aos seu petróglifos mas, sem que o esperássemos, a determinada altura, a lava sobrepõe-se ao asfalto e uma placa de trânsito dita o fim do percurso: “Road Closed”. 

O dia aproxima-se do fim e o ambiente é instável e inóspito, para não dizer perigoso. As próprias autoridades do parque desaconselham passeios pedestres para lá daquele limite. Como tal, regressamos ao carro e a Hilo, resolvidos a encontrar uma forma de observar a lava incandescente melhor que as centenas de metros de distância permitidas pelas autoridades na sua área de jurisdição.

Um simples folheto na recepção da pousada em que nos tínhamos hospedado apresenta-nos à Lava Roy’s Tours, entretanto condignamente promovida a Lava Roy’s Ocean Adventures. Como indicam ambos os nomes, detém e gere a empresa Roy Carvalho, o dono de ascendência portuguesa, com um avô de Aveiro e a outra metade da família nipónica. Roy é auxiliado por Kiko Freitas, descendente de emigrantes açorianos mas também de outros com sangue já por si cruzado, de Guam e das Filipinas. 

Havia já algum tempo que esta dupla voluntariosa mas tranquila tinha detectado a lacuna tanto na oferta turística de Hilo como na legislação da Big Island. Primeiro abordados pelos visitantes frustrados pela proibição de se aproximarem mais à lava, depois por sua iniciativa e promoção, a dupla começou a transportar passageiros em  lanchas que tripulavam até junto da boca dos túneis. 

Encontramo-los no seu quartel-general improvisado no parque de estacionamento do Isaac Hale Park, mais precisamente na Kalapana Kapoho Beach Road que faz de marginal para uma praia pública semi-rochosa, pouco ou nada frequentada devido às correntes e vagas fortes. Os pescadores usam um recanto deste lugar como ancoradouro temporário para as suas embarcações. Antes de se aventurar no novo projecto, Roy Carvalho era um deles. 

Uma tempestade tropical anuncia-se à Big Island e gera vagas com dimensões cada vez mais consideráveis. Roy não parece impressionado: “Pelo que vimos na internet, prevê-se que chegue mas ainda está distante. Temos mais que tempo para lá ir voltar sem chatices.”

Os seus anos de experiência naquelas incursões dizem-lhe que ainda estamos longe dos limites. De acordo, zarpamos sem mais demoras, com o objectivo de chegar ao destino sobre o pôr-do-sol.

Galgamos milhas ao longo da costa selvagem e enfrentamos, com navegação pró-activa, as ondas mais problemáticas. Quarenta minutos depois, encontramos uma multidão de espectadores aglomerados no local designado pelas autoridades do parque para observação lateral do fenómeno.

Prosseguimos por mais algum tempo até às imediações da lava. Roy avisa que, para nos mantermos na proximidade, tem que circular em forma de “oito”, de maneira  a enfrentar as vagas de frente. Mas já ninguém a bordo o ouve.

O timoneiro executa o plano, com cuidado redobrado para evitar colidir com uma outra lancha em missão idêntica, onde passageiros entusiasmados perscrutam a enxurrada de fogo de binóculos, tal como nós, perturbados pela agitação marítima e pelo fumo sulfuroso.  

As colunas de vapor contaminado continuam a elevar-se no ar, densas e escuras. Renovam-se de cada vez que novo fluxo incandescente entra em contacto com a água. Oito atrás de oito, o lusco-fusco instala-se e aviva o vermelho da lava e os efeitos naturais das explosões. Acolhe uma atmosfera dantesca que as vagas e a humidade ascendente reforçam.

A determinada altura, uma onda mais poderosa apanha o barco de lado e invade parcialmente a proa mais baixa. Nós sentimos, na pele, o mar mais quente que alguma vez nos tinha banhado. O líder da expedição fica apreensivo, disfarça o susto o mais que pode e pondera a razoabilidade de persistirmos com aquele cada vez mais insólito ritual.

Entretanto, escurece de vez. A natureza concede a Roy novo sinal e o derradeiro pretexto porque esperava. O havaiano submete-se às evidências e dá sinal de retirada: “Desculpem rapazes, está a ficar demasiado perigoso. É tempo de voltarmos !”