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Parada e Pompa

Parada e Pompa

Oficial lidera parada militar da cerimónia de abertura do Dia da Marinha, em frente à Praça Senatskaya.

São Petersburgo, Rússia

A Rússia Vai Contra a Maré mas, Siga a Marinha.

A Rússia dedica o último Domingo de Julho às suas forças navais. Nesse dia, uma multidão visita grandes embarcações ancoradas no rio Neva enquanto marinheiros afogados em álcool se apoderam da cidade.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


É Domingo. Cento e oitenta quilómetros e quatro horas após a saída de Novgorod, reentramos em São Petersburgo. Por volta das 9 da manhã, a cidade revela-se bem mais tranquila do que antes a havíamos conhecido. Deixamos a bagagem num quarto pré-alugado e saímos feitos mortos-vivos para o metro e para as margens mais majestosas da grande Peter. Quando subimos da estação de Admiralteyskaya, reparamos finalmente no dia que fazia, de céu limpo e um calor que, apesar de húmido, também nos parecia tórrido.

Caminhamos pelos jardins Aleksandrowski até à praça Senatskaya. Ali, deparamo-nos com uma realidade à parte.

Dezenas de barcos e submarinos à tona surgiam entre as pontes Blagoveshchenski, Dvortsovi e Troitsky, no meio do Neva ou contra os paredões que o delimitam. Uma multidão colorida preenchia as margens elevadas também distribuídas por filas intermináveis estendidas ao longo das embarcações.

Ao mesmo tempo, tinha início a cerimónia de abertura da efeméride, mesmo em frente à estátua altiva do Cavaleiro de Bronze que presta homenagem a Pedro, o Grande, o fundador da cidade e da marinha russa. É atribuída a Peter Alekseyvich Romanov – o nome original do magno czar - a máxima de que “Um Regente que só tem um exército tem uma mão, mas aquele que tem uma marinha, tem duas.” Séculos depois da sua morte, nenhum dos oficiais presentes na cerimónia ou dos marinheiros em formação sobre o submarino “Sankt Petersburg” emerso no meio do Neva se atreveria a discordar.

Aproximamo-nos da parada mas pouco conseguimos vislumbrar por entre a assistência madrugadora. Assim, mesmo sem convite para  o evento ou candidatura prévia que fosse, munimo-nos das carteiras de profissão, colocamos ao pescoço as câmaras com as lentes maiores que carregávamos e insinuamo-nos ao espaço interno reservado a políticos influentes, sacerdotes ortodoxos, altas patentes e jornalistas. A assessora que nos atende acha estranho os cartões escritos apenas em alfabeto romano, em vez do quase totalista cirílico mas, após identificar “Press” a vermelho, acaba por nos dar passagem.

É já do interior privativo de Senatskaya que acompanhamos as paradas imponentes, os discursos, as palavras de ordem para a TV. Nem Putin nem Medvedev estão presentes. Em vez deles, outros dignitários abaixo na hierarquia lideram o protocolo. Mais tarde, a assessora volta a  abordar-nos em russo. Não propriamente pelas palavras, percebemos que nos convoca para a entrevista de um almirante aos meios de comunicação. Limitamo-nos a fotografar o cerco estabelecido pelos colegas da casa.

Finda a cerimónia, a multidão debanda. Uma barca mexicana de três mastros de nome “Cuauhtemoc” atrai gente sem fim. Há música latina a bordo e tanto os tripulantes como um figurante do rei azteca de Tenochtitlan exibem um exotismo e acolhimento sedutores.

Atravessamos a ponte Blagoveshchenski para a outra margem. Também ali se formaram filas ao longo de outras embarcações, abençoadas pela presença altiva da catedral Andrejewski. Subimos a bordo do paquete de guerra “Dimitrograd”. Sobre o convés, acompanhamos as tropelias de dezenas de crianças em êxtase com as baterias de canhões, mas também de aspirantes russas a modelos que fazem incessantes boquinhas e atiram as cabeças para trás determinadas em que as câmaras nas mãos das amigas captem a sua imaculada sensualidade.

Estamos sobre os 60º Norte. O dia de Verão não dá sinal de ter fim. Regressamos aos jardins de Admiralteyski esperançados em ainda assistirmos a um outro atractivo oficioso da celebração.

Chegados à frente do enorme colégio naval, repousamos num banco ainda vago, próximos de outros ocupados por bandos de jovens marinheiros, semi-fardados em camisolas de alças às riscas e em pleno convívio ébrio em redor de uma viola.

Aproximamo-nos uma ou duas vezes de máquinas fotográficas em riste e conseguimos, de imediato, a sua atenção e poses e caretas divertidas. Não insistimos em demasia para não os aborrecermos logo no primeiro contacto. Voltamos a sentar-nos e reparamos que mais fotógrafos os observam de outras posições.

Entretanto, junta-se a nós um grupo de repórteres televisivos visivelmente inquietos. “De onde é que vocês são? Já se passou alguma coisa? Nós achamos que não se vai passar nada. O pior já aconteceu lá atrás na Praça do Palácio, sabem? Um activista desfraldou uma bandeira gay no meio dos militares e foi espancado por estes animais. Tenham cuidado com eles, são muito, muito perigosos.”

Já antes tínhamos ouvido confissões deste tipo. Alexey Kravchenko, amigo e anfitrião da cidade, afiançara-nos que para muitos russos, dias militares como este e o 2º de Agosto (dedicado às Forças Aerotransportadas) eram como dias da família e de evitar sair à rua.

“Sabem.. quando tinha 14 anos fui pontapeado bem a sério por um deles. O normal, é eles causarem violência gratuita e racista um pouco por todo o país. Para mim, o ideal é ficar por casa.”

Mesmo intimidados, não desistimos. Por essa altura, alguns marinheiros estão completamente embriagados e a polícia que os controlara durante o início da tarde já se havia ausentado. Os marujos aproveitam a benesse e fazem-se à fonte em frente. Primeiro um, trôpego e cambaleante, mas deliciado pela anestesia do álcool e por liderar a iniciativa.

O pioneiro reclama uma bandeira russa. Quando lha passam, mete-se debaixo dos repuxos e abana-a de um lado para o outro com vigor inesperado. Então, mais marinheiros se juntam ao camarada. Agrupados e abraçados num exibicionismo etílico gritam a palavra de ordem  “Sloba, sloba, sloba!” (Glória, Glória, Glória).

Os fotógrafos presentes registam o momento e simples pessoas chegam-se à beira da fonte para se fotografarem com esta cena já emblemática da cidade por detrás.

Quando saem da água, alguns marinheiros vencem a timidez e metem conversa connosco com bafos compreensíveis de brandy e de vodka. Um é fã de fotografia. Outro tinha estado em Lisboa e admirava muito a cidade. Outro ainda é fanático do Zenit. Faz questão de nos citar os vários jogadores portugueses ou vindos de Portugal que alinhavam pela equipa. Quase todos arrastam as escassas palavras inglesas que intercalam com trechos involuntários em russo.

Ao contrário do que estávamos avisados, são afáveis e até melosos mas um deles, a quem o álcool despertara a agressividade, perturba a relação cordial que até aí mantínhamos. “De onde são vocês? Espero bem que não sejam USAs! São ingleses?”

Estimávamos que ao dizermos a verdade, estaríamos livres de chatices e, como tal, respondemos com o cuidado de pronunciar o nome da nossa pátria em versão russa: “Partugália, Partugália” ripostamos para o sossegar. Mesmo assim, o rufia naval não desiste. “NATO? Fazem parte da NATO? Não queremos NATOs por cá!” E tu? És skinhead?“ Somos salvos das questões mais periclitantes quando os colegas mais amigáveis o chamam à razão.

Sasha, um fotógrafo com origem russa mas sediado em Nova Iorque assistira ao que se tinha passado e acaba por nos confessar: ”ah.. vocês são portugueses. Já estava a prever que fossem latinos. É incrível como eu, que mesmo com mau sotaque, falo russo, não consigo ter, deles, a confiança que vocês já conquistaram. Ainda por cima vocês não falam russo e eles pouco ou nada falam inglês. Acho que é a vossa abordagem latina. Vocês falam com eles sempre a sorrir... nem eu nem a maior parte de nós, com sangue eslavo, temos muito jeito para nos relacionarmos assim. Os russos não estão habituados a ser bem tratados.”

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