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As forças ocupantes

As forças ocupantes

Soldados chineses patrulham a praça Barkhor, entre crentes budistas de visita ao mosteiro de Jokhang.

Lhasa, Tibete

A Sino-Demolição do Tecto do Mundo

Qualquer debate sobre soberania é acessório e uma perda de tempo. Quem quiser deslumbrar-se com a pureza, a afabilidade e o exotismo da cultura tibetana deve visitar o território o quanto antes. A ganância civilizacional Han que move a China não tardará a soterrar o milenar Tibete. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O dia mal tinha começado. Fazia um frio de rachar. A grande praça de Barkhor estava repleta de peregrinos deliciados pela visita à capital, em particular, ao mosteiro budista de Jokhang, para quase todos os tibetanos, o mais importante da nação. A praça tem uma dimensão considerável mas a fé inabalável dos nativos fazia com que se aglomerassem sobretudo junto a esse templo que marcava o seu limite oriental. “Muitos deles cumprem o sonho de cá vir pela primeira vez.” disse-nos Lobsang, o guia local ao serviço da agência chinesa a que tivemos que recorrer para podermos entrar no território autónomo e semi-interdito. “Alguns viajam dos confins do país. Para isso, gastam uma boa parte das economias. O Jokhang é o centro espiritual de Lhasa e do Tibete e os tibetanos renovam aqui o sentido das suas vidas.”

Contratado pela empresa do ocupante por falar inglês e outras línguas, o anfitrião não disfarçava a motivação quase nula com que desempenhava as suas funções. Sempre que podia, ausentava-se com a desculpa de outra qualquer obrigatoriedade laboral e deixava-nos entregue aos conterrâneos. Esses abandonos revelaram-se libertadores. De tal maneira que, para seu gáudio, nós próprios os começámos a promover.

Lobsang também nos informou que éramos dois de uma irrisória vintena de estrangeiros por essa altura no Tibete. Revelou-se-nos praticamente exclusiva a curiosidade gentil e afável que nos dedicavam, enquanto caminhávamos entre a multidão, aqueles romeiros fatigados mas radiantes.

Não corremos o risco de exagerar se confessarmos que nenhum outro povo asiático nos surpreendeu e recompensou como este. Isolados no cimo do Mundo, entre os 3.500 e os 5.000 metros do Planalto do Tibete, e abrigados atrás dos recordistas Himalaias e outras cordilheiras quase tão elevadas, durante séculos, os tibetanos mantiveram-se defendidos da colonização ocidental e das epidemias culturais que contagiariam outras paragens do continente.

A sua beleza tão excêntrica e diversa foi a primeira coisa a arrebatar-nos. Sem qualquer recurso a cadeias de lojas de roupa ou afins, os tibetanos produzem e combinam casacos, túnicas (chubas) e pulôveres dos mais distintos materiais, cores e cortes. Complementam as indumentárias com penteados exuberantes dos seus cabelos fortes e negros. Por vezes, usam chapéus ou outros artefactos que lhes ocultam faces frequentemente enigmáticas ou carismáticas.

São raros os indígenas que falam algo mais que alguns dialectos locais ou se atrevem a tentá-lo. Para compensar, apesar de viverem num lugar extremo e castigador do planeta, os tibetanos abrem os corações e as portas da sua nação a quem sentem que chegou e os contempla por bem, com grandes sorrisos incondicionais, tentativas calorosas de abordagem na própria língua e uma resposta orgulhosa a quase todos os pedidos dos forasteiros. Pelo menos, assim aconteceu enquanto fomos praticamente só nós a com eles estabelecer contacto. Não nos atrevemos a garantir que o mesmo se passe quando, noutras alturas, o número de visitantes ávidos por recordações aumenta.

Pensávamos que os indianos gostavam de ser fotografados por ocidentais. No Tibete, descobrimos a primeira divisão desta paixão. Fosse a quem fosse que pedíssemos, a resposta revelava-se quase sempre positiva e, com frequência, entusiasmada. Perante as nossa câmaras que sempre reconhecemos intimidantes, os modelos do planalto posavam altivos e graciosos, fitando-nos com os seus olhos quase fechados mas, ainda assim, expressivos e as grandes rosas adensadas pela hipoxia e respectivo aumento de glóbulos vermelhos, pela radiação ultravioleta e a forte amplitude térmica diurna.

Alguns dos nativos presentes na praça Barkhor partilhavam o desejo de  que os fotografássemos com amigos ou familiares. Vários, nunca tinham visto ou mexido numa máquina fotográfica. Foi com um misto de surpresa e fascínio que constatámos que depois de os fotografarmos, se esforçavam para remover dos ecrãs, com os seus dedos, as imagens que ansiavam examinar.

Enquanto este estranho convívio tinha lugar, junto da fachada frontal do mosteiro de Jokhang, prosseguia a azáfama religiosa. Alguns monges e muitos mais crentes não ordenados repetiam prostrações budistas de cariz quase ginasta. Inauguravam-nas de pé, com as mãos juntas em frente à face. Logo ajoelhavam-se no solo de pedra e, por último, esticavam o corpo, por completo, sobre pequenos colchões, com ajuda de placas de plástico que lhes permitiam fazer deslizar as mãos até os braços estarem estendidos por completo.

O mosteiro de Jokhang tem 25.000 m2 de extensão. Vemos milhares de fiéis inspirados pela crença budista tibetana ali cumprirem parte da kora, ritual que os faz andar em redor do edifício massivo com limites bem identificados por quatro fornos colocados em outros tantos cantos do complexo. Alguns crentes executam-no a caminhar. Outros, levam a cabo desafios mais sérios e  prostram-se metro atrás de metro. O passo de fé que se segue é a visita ao salão principal do templo que abriga a estátua de Buda Jowo Shakyamuni, o objecto mais venerado do budismo tibetano.

Foi durante a nossa própria kora - amadora ou turística - que detectámos sérias perturbações à convivência social e religiosa tibetana, por si só, harmoniosa.

A meio da caminhada, percebemos, sobre um telhado de um edifício dois militares e dois polícias chineses, pelo menos os militares, protegidos com capacetes e armados com metralhadoras. Na praça Barkhor, de quando em quando, pequenos batalhões passavam entre a multidão de cima a baixo ou de lado a lado, em roteiros obviamente cumpridos para impor presença, respeito e medo. Pouco depois, em frente à fila formada pelos fiéis prestes a ingressarem no mosteiro de Jokhang, vários polícias chineses espancavam à bastonada, de forma gratuita, um grupo de tibetanos indefesos.

Tínhamos acabado de chegar e as nossas cabeças ainda ameaçavam implodir por termos aterrado directamente nos 3500 metros de Lhasa após levantarmos voo dos 500 metros de Chengdu, da província chinesa de Sichuan. Nem o doloroso mal de altitude nos impediu de observar e sentir compaixão e revolta pela destruição que a já longa ocupação de Pequim causava a uma da mais singulares e deslumbrantes culturas à face da Terra.

O controlo efectivo chinês do Tibete estendeu-se a partir de 1644, pela vigência da última dinastia imperial da China, a Qing. Em 1912, a Revolução Republicana Xinhai destronou esta dinastia e ofereceu ao Dalai Lama o título que lhe havia sido confiscado. Nos 36 anos seguintes, o 13º Dalai Lama e os sucessores governaram um Tibete independente apesar das pretensões e anexações territoriais de vizinhos como a Índia Britânica e o governo Kuomintang da China.

Em 1950, depois da Guerra Civil, a República Popular Chinesa comunista anexou o Tibete e procurou negociar o Acordo de 17 Pontos com o recém-empossado 14º Dalai Lama, assente numa futura soberania chinesa e garantia da autonomia tibetana. O Dalai Lama e o seu governo repudiaram o acordo e exilaram-se em Dharamsala, na Índia. Mais tarde, durante o Grande Salto em Frente de Mao, ao abrigo da Revolução Cultural, centenas de milhares de tibetanos foram mortos e muitos mosteiros destruídos. Desde então, as acções e campanhas de protesto, tanto tibetanas como estrangeiras sucederam-se. Nada demoveu Pequim de achinesar o território a seu bel-prazer.

Mudámo-nos para a praça ampla que antecede o grandioso palácio de Potala, antiga residência oficial do Dalai Lama e apreciamos a estátua dos dois iaques dourados que dela se destaca, de novo na companhia de Lobsang mas agora também na de Jacob e Ryan, um sueco e um americano que entretanto tinham chegado na companhia do cicerone. “Antes, havia aqui um prado lindíssimo, com um lago que gelava todos os Invernos. Era um delírio para os miúdos que vinham para cá brincar. Mas claro que os chineses tinham que rebentar com tudo e encher isto com uma sua Praça Tianamen local. Agora, é só pedra e cimento por todo o lado. Nada de Natureza, nem de alma.”

Vencemos enormes escadarias lado a lado com visitantes tibetanos e exploramos o Potala, sem qualquer dúvida um dos palácios asiáticos mais deslumbrantes, com os seus treze andares, mais de mil salas, dez mil santuários e duzentas mil estátuas. Exploramo-lo salão, após salão, incluindo aqueles mais utilizados pelos sucessivos Dalai Lamas até ao exílio auto-imposto do 14º. Absorvemos e inalamos a espiritualidade budista tibetana de um inevitável aroma de manteiga de iaque, há muito utilizada para assegurar a iluminação e o aquecimento do enorme edifício e em todo o Tibete.

À saída, Lobsang resume num desabafo bem mais dramático que até então, a sua frustração e a dos seus conterrâneos. “Os tibetanos estão habituados a vidas difíceis. Suportamos os caracteres chineses que nos obrigam a colocar muito maiores que os tibetanos nas nossas lojas. Suportamos as lojas deles cada vez mais abertas em lugar das nossas, os espancamentos e até as mortes dos nossos familiares. A única coisa que nunca suportaremos e teremos sempre esperança de mudar é aquela bandeira repugnante a esvoaçar no topo do nosso palácio sagrado!”.

 

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