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Repouso anfíbio

Repouso anfíbio

Senhora boia no Mar Morto em trajes pouco adequados ao momento balnear.

Mar Morto, Israel

À Tona d'água, nas profundezas da Terra

É o lugar mais baixo à superfície do planeta e palco de várias narrativas bíblicas. Mas o Mar Morto também é especial pela concentração de sal que inviabiliza a vida mas sustém quem nele se banha. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O lugar era épico. Ocorreu-nos que merecia uma apreciação condigna das alturas. Uma vez que a varanda do hotel nos retalhava a vista, decidimos repetir procedimentos já habituais em viagem e verificar como estaria o acesso ao topo daquele edifício quase industrial. O elevador conduz-nos até a um andar próximo mas não o último. Mudamo-nos para as escadas de emergência que subimos até encontrarmos a derradeira porta de acesso ao terraço que testamos com uma espécie de curiosidade derrotista. Por norma, os hotéis têm estas passagens barradas e os pedidos de autorização resultam em longos processos burocráticos ou em negativas puras e duras. É, assim, com grande espanto que percebemos a porta abrir sem qualquer problema. Serpenteamos entre obstáculos estruturais, mobiliário mal armazenado e outros objectos de construção até que chegamos ao lado leste e somos prendados com a panorâmica que desejávamos.

Para baixo e para diante estendia-se o vasto Mar Morto, tão inerte quanto exuberante, disperso em tons de azul e verde esmeralda que nem a névoa provocada pela forte evaporação fazia sumir. A contê-lo, impunham-se, ali, margens montanhosas de terra poeirenta sobrevoada por bandos de corvos negros sustentados pelas correntes ascendentes geradas pelo calor à superfície.

Estamos uma dezenas de metros acima dos 423 abaixo do nível do mar a que se situa o estranho fenómeno geológico. Apesar da hora tardia, o termómetro ainda marca 38º e flutuam nele umas dezenas de banhistas em absoluto deleite. Não tardamos a regressar ao solo e a juntarmo-nos àqueles resistentes.

A entrada na água faz-se sem questões de maior excepto um ardor atroz em feridas nos joelhos resultantes de um qualquer descuido de dias anteriores.

Já a adaptação horizontal ao meio prova-se complicada. O Mar Morto tem quase dez vezes mais sal (33,7% ou 1.240g por litro) que os oceanos e é avesso a um normal afundamento do corpo. Com esta mesma concentração exagerada da substância, castigou-nos com novo ardor aflitivo de cada vez que salpicámos os olhos ao nos aventurarmos com natações e movimentos por norma simples de executar.

Percebemos, pelos castigos da prática, a razão de a imagem mais popular de lazer neste líquido caprichoso ser a de alguém completamente imóvel, a ler um jornal.  

Entretanto, Oded, o guia israelita que nos conduzia por Israel, aparece e diverte-se a ouvir os queixumes que lhe apresentamos. “Pois isso é muito comum acontecer a quem cá vem pela primeira vez.”, responde-nos. “Mas olhem que sei de coisas bem piores. Há uns anos, um alemão que andava de carro com amigos parou à beira da margem numa zona erma e resolveu mandar um mergulho do topo de uma rocha. Acreditem ou não, foi parar ao hospital e acabou por morrer.”

Apesar da incoerência perante o seu nome que retrata o facto de não acolher qualquer forma de vida permanente – na realidade abriga 11 espécies distintas de bactérias - o Mar Morto também está moribundo. Em tempos foi uma das cinco estâncias terapêuticas mais conceituadas do mundo, numa altura em que o frequentava o rei Herodes que construiu a fortaleza de Masada nas proximidades. O futuro rei David, João Baptista e Jesus Cristo, entre outras personagens bíblicas, retiraram-se também para as suas margens, ou para as montanhas e grutas contíguas.

Nessa época, o Mar de Sal, como era conhecido, mantinha as dimensões originais. Mais recentemente, a água do rio Jordão que o alimenta passou a ser barrada pela construção de represas, reservatórios e assim desviada em contínuo por Israel, pela Jordânia e pela Síria para fins de consumo directo, agrícola e outros. Como resultado, a superfície que chegava aos 395 m abaixo do nível do mar, em 1970, atingia já os 418 m, em 2006, e continuou a diminuir a um ritmo preocupante de quase 1 metro por ano, 30% em 30 anos.

Este encolhimento causou a sua divisão em dois corpos distintos: há actualmente uma bacia norte que é três vezes maior e 400 m mais profunda que a sul, esta, separada pela península de Lashon com origem na margem jordana.  

A última bacia - aquela em que nos banhamos - não chega a ultrapassar os 6 metros e tem uma concentração de sal ainda maior que justifica o aparecimento de formações de cristal enigmáticas ao estilo de icebergs. 

Diz-se, por estes lados, de forma espirituosa, que o Mar Morto desenvolveu as suas formas de vingança e a verdade é que as autoridades israelitas têm que se esforçar para evitar que os visitantes delas sejam vítimas. Enquanto percorremos a Highway 90 - a estrada mais profunda do mundo - vemos sucederem-se avisos excêntricos que alertam para o perigo dos sinkholes. À medida que a água recua, deixa para trás depósitos de salmoura que são dissolvidos pela água doce da superfície e da chuva que, apesar de rara, se pode provar diluviana. Aos poucos, o processo deu origem a milhares de buracos camuflados, armadilhas geológicas em que, de quando em quando, caem turistas. Por sorte e algum cuidado nunca nos acontece tal desgraça.

Noutro dia de exploração, decidimos parar nas termas de Ein Gedi procuradas pelas propriedades nutritivas da lama que ali compõe o leito do mar ou, inclinamo-nos mais a acreditar, pela estranha diversão de com elas se poder cobrir e exibir o corpo.

Oded recusa-se a acompanhar-nos. “Fiz isso uma vez e não me volto a meter noutra! “ afiança-nos. Pelo contrário, um grupo de estudantes norte-americanos aproveita a experiência ao máximo e partilha entre si, os resultados visuais conseguidos “Estás demais Ken! Já vi zombies com melhor aspecto, podes acreditar”.

Não procuramos sequer resistir à cerimónia. Besuntamo-nos da argamassa negra e dirigimo-nos com dezenas de criaturas congéneres, em cozedura sob o sol cruel que mantém seco o Deserto de Negev, para a paragem do pequeno comboio que nos havia de conduzir à praia, como o resto do mar, muito mais abaixo que há uns tempos. Ali, dividimos o tempo entre banhar-nos e restabelecermos a cobertura com que tínhamos chegado.

Não há provas de que alguma das personagens bíblicas que passaram pelo Mar Morto se tenha metido em tais preparos. Ou isso estará em falta na descoberta extraordinária que veio a revelar parte substancial da vida e da história do povo judeu na região. Em 1947, um jovem pastor beduíno procurava por uma cabra tresmalhada quando detectou e desenterrou jarras de argila que jaziam numa gruta junto ao topo de uma falésia, na proximidade de Qumran, uma povoação situada bem mais a norte de Ein Gedi, na margem ocidental. 

Trabalhos arqueológicos posteriores desvendaram pergaminhos que incluíam livros do Velho Testamento, dos livros apócrifos e outros textos inéditos. Também comprovaram que a gruta fazia parte de um assentamento dos Essénios, uma seita judaica refractária que acreditava ser o povo eleito de Israel e que se havia mudado para o deserto de Negev por volta de 150 a.C. para se proteger à decadência que considerava grassar entre os restantes judeus.

Será uma tarefa complexa, apurar, nos dias que correm, a razão desta seita. O que é certo é que, a comprovarem-se as teorias de arqueólogos e outros estudiosos que defendem que Sodoma e Gomorra se situavam junto ao Mar Morto e caso os Essénios ali existissem alguns séculos antes, teriam tido muito mais motivos de queixa.

Guias: Israel+