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Mosaicos salinos

Mosaicos salinos

Extremidade de um salar situado num planalto andino na raia do deserto de Atacama.

Deserto de Atacama, Chile

A Vida nos Limites

Quando menos se espera, o lugar mais seco do mundo revela novos cenários extraterrestres numa fronteira entre o inóspito e o acolhedor, o estéril e o fértil que os nativos se habituaram a atravessar.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O seu país é de tal forma compartimentado e diverso de alto a baixo que os chilenos se divertem a contar e recontar que, depois de ter criado a maior parte da América do Sul, já farto da tarefa, Deus pegou no que sobrava - bocados de deserto, montanha, vale, glaciar, floresta húmida - e criou o Chile, à pressa, para finalmente descansar.

Depois de explorarmos o PN Torres del Paine, os fiordes chilenos da Patagónia num cargueiro transformado em cruzeiro e subido ao cume do vulcão Villarica, na província da Araucaria, chegara a altura de nova mudança radical de zona e de paisagem.

Foi ainda a recuperar da dura ascensão que partimos de Pucon conscientes de que ainda ficava muito para ver destes confins austrais do país. E de que tínhamos que voltar.

À medida que nos aproximamos do Norte Grande, a região que se estende da fronteira com o Peru ao Chañaral, dominada pelo Deserto do Atacama apresta-se a revelar a desolação cinzenta que lhe calhou.

Em 2003, uma equipa internacional de cientistas, na sua maior parte pertencentes à NASA é à Universidade norte-americana Carnegie Mellon, mudou-se de armas e bagagens para estas paragens. Em pouco tempo, deu início à Life in the Atacama, um programa minucioso de pesquisa de campo que tinha como objectivo aperfeiçoar novos veículos robóticos para a missão astrobiológica Spirit.

O primeiro planeta a acolher a Spirit e o rover homónimo foi Marte, em Janeiro de 2004. Sete meses depois, Chris McKay, um geólogo da NASA justifica, assim, a um repórter, a escolha do deserto de Atacama para preparar a missão: “Pode ir à Antárctida, ao Árctico, a qualquer outro deserto em que já estivemos, recolher uma amostra de terra que vai encontrar bactérias...este é o único lugar onde passámos realmente o limiar e não encontrámos vida ...”

Em termos visuais, se existem sítios comparáveis ao que conhecemos e imaginamos do planeta vermelho, o deserto de Atacama tem que ser um deles.

A adjectivação das suas paisagens como extraterrestres ocorre a toda a hora a quem o visita. E, entre tantos cenários dignos de outros mundos, basta pensar nos tons ocres dos Vales da Lua e da Morte para se chegar a um imaginário marciano.

Apesar das condições adversas, vivem em bolsas do deserto de Atacama mais de um milhão de pessoas. Graças às suas matérias primas, as regiões a que pertence - El Norte Chico e El Norte Grande - foram e são responsáveis pelo disparar e recente consolidar da economia chilena. No século XIX, as primeiras explorações do famoso nitrato do Chile atraíram milhares de trabalhadores, até à invenção das alternativas artificiais. Actualmente, os nitratos foram substituídos pela mineração de cobre, da prata, do ouro e do ferro, que o Atacama e redondezas fornecem em abundância. Sem espanto, cresceram do nada povoações improvisadas que deram origem a novas infra-estruturas e oportunidades. Entre as que já existiam: Arica, Iquique, Antofagasta e San Pedro de Atacama, a última evoluiu para explorar outro recurso altamente rentável, o turismo.

Estendendo-se por 1000 km, ao longo do sul do Peru e norte do Chile, o deserto de Atacama tem limites longitudinais bem marcados: a oeste, o oceano Pacífico; na direcção oposta, a cordilheira dos Andes. Surge após uma plataforma costeira estreita, cinzenta e poeirenta e ergue-se progressivamente até às pampas, planícies inóspitas que mergulham em gargantas fluviais pré-históricas cobertas de sedimentos minerais provenientes dos Andes. Estas planícies dão lugar ao Altiplano, a pré-cordilheira, em que inúmeros salares e lagoas salgadas anunciam cerros e vulcões nevados e imponentes como o Toco, o Licancábur, o Putana ou o Águas Calientes, quase todos próximos dos 6.000 metros de altitude. Do outro lado do horizonte montanhoso, o território é boliviano ou, mais para sul, argentino.

A zona central do deserto de Atacama é considerada o lugar mais seco da Terra. Ali, em certas áreas específicas de “deserto absoluto”, nunca se conseguiu registar queda de chuva. Noutras, não tão centrais, a pluviosidade mede-se em milímetros por década.

Em termos meteorológicos e climáticos, o que se passa é tão misterioso como fácil de explicar: nestas latitudes, corre ao longo da América do Sul a corrente de Humboldt (assim chamada em honra do naturalista prussiano Alexander von Humboldt). A corrente, ascendente, tem efeitos contraditórios. As suas águas, provenientes da Antárctida e do fundo do oceano, tão gélidas quanto nutritivas, fazem dela um ecossistema marinho de Classe 1 (>300gC/m2-yr), o mais produtivo do mundo, de onde provém cerca de 20% de todo o peixe pescado à face da Terra, incluindo parte significativa do que é consumido em Portugal.

Ao mesmo tempo, a corrente de Humboldt é responsável pelo arrefecimento do ar sobre a zona costeira do sul do Peru e do Chile e, porque alimenta um núcleo de altas pressões, bloqueia a formação e a deslocação para terra de nuvens favoráveis à precipitação. Junto à costa ainda paira frequentemente a camanchaca, um nevoeiro denso que reina durante o Inverno local, de Junho a Outubro. Alguns quilómetros mais para o interior ergue-se, no entanto, a cordilheira costeira do Chile que detém o avanço da névoa. Não espanta assim que, do Pacífico, o deserto de Atacama receba apenas secura.

No lado oposto, a cordilheira dos Andes impede a passagem de nuvens carregadas de humidade provenientes de leste, da bacia do Amazonas e restante interior da América do Sul. Essa humidade é apreendida pelas montanhas mais elevadas, que a recebem por condensação ou em forma de chuvadas e nevões, consoante a época do ano. Por cima e para oeste, passa só um vento estéril.

O milagre da vida no deserto de Atacama é produzido nas alturas, quando o sol tropical, pouco filtrado pela atmosfera fina, derrete a neve que coroa os picos andinos, enche os aquíferos que se formam no sopé das montanhas e dá origem a oásis como o que abençoou San Pedro de Atacama. 

A sul e oeste de San Pedro, a Reserva Nacional Los Flamencos inclui sete sectores geograficamente independentes, com cenário tão insólitas quanto imperdíveis. O Salar de Atacama dá-nos uma ideia inequívoca do contraste porque se rege o deserto.

Quando o cenário branco do sal sem fim começa a parecer de absoluta desolação, encontramos a Laguna Chaxa e a natureza volta a surpreender-nos, desta vez nos tons rosados dos milhares de flamingos que a ocupam.

Ao pôr-do-sol, o Salar de Atacama recompensa duplamente. Além da chegada permanente dos flamingos à lagoa, para oeste, o horizonte andino contrasta mais que nunca com o branco sem fim do sal. Pela menor distância a que estão, sobressaem do horizonte os cones perfeitos e avermelhados do vulcão Licancábur e do cerro Toco. E, se virarmos o olhar para sul, vemos a cadeia de montanhas a prolongar-se até perder de vista mesmo se se torna argentina algumas centenas de quilómetros para diante. 

É por estas latitudes, acima e abaixo do Trópico de Capricórnio, que o magríssimo Chile atinge a sua máxima largura. Verificamos, no mapa,  que tal se deve a uma improvável extensão da fronteira para ocidente que assimilou parte substancial da cordilheira, ali, salpicada por salares e lagoas de Altiplano com água de aparência caribenha.

Logo à saída de San Pedro de Atacama, passamos a fortaleza de Quitor e deparamo-nos com o mais deslocado dos sectores do PN Los Flamencos. Mesmo sabendo que os sul-americanos recorrem ao termo Vale da Lua para denominar qualquer superfície esculpida por torrentes de água, vento e restantes agentes erosivos, ao explorarmos aquela vastidão inóspita, acabamos por admitir que o nome lhe faz justiça. Até porque, há “apenas” 60 milhões de anos (tinham os Andes acabado a sua ascensão aos 6.000 metros) enquanto a maior parte do sul do Chile estava coberta de glaciares, esta região continuava debaixo do oceano - o que justifica a predominância dos campos de sal.

Numa ampla área de geologia exibicionista, sucedem-se enormes dunas cor de canela, miniaturas de montanha ocres em que os elementos escavaram arestas afiadas e pequenos “degraus” sem fim. Estas elevações dão para desfiladeiros apertados, como os da Quebrada de Kachi, ou para vales alisados pelo vento, fendidos pelo calor e pela aridez e, aqui e ali, inundados de salitre. Em certas zonas, a cobertura de nitrato de potássio torna-se tão densa que mais parece ali ter caído um forte nevão. Mas o sol é escaldante, a humidade roça o zero absoluto e o Vale da Lua fica mais ou menos à altitude de San Pedro de Atacama. Seria, no mínimo, bizarro.

Avançamos em direcção à Panamericana e ao Pacífico, cruzamos o Vale da Morte, parte da Cordillera de Domeyko e ainda o rio Loa que tem o efeito de enganar quem por ele passa quando a ilusão líquida se desvanece perante a aridez impiedosa da paisagem.

À medida que nos voltamos a embrenhar no Atacama e os Andes ficam para trás, a água doce revela-se uma miragem eternamente adiada. Sem subterfúgios tecnológicos, a sobrevivência fica por um fio enquanto a morte se eterniza. Esta lógica tem expressões surpreendentes.

Em 1985, os arqueólogos acharam várias centenas de múmias ao longo da costa chilena. O seu estado de preservação assim como das roupas e dos objectos que as acompanhavam era inacreditável. Os túmulos estavam sob o sol do deserto de Atacama havia mais de meio milénio. A secura extrema anulou a acção das bactérias e impediu a decomposição preservando o legado espiritual de um povo que, tal como acontece hoje, venceu as  probabilidades e pagou frequentemente o preço de viver no limite.

Guias: Chile+