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Lenha à Pressa

Lenha à Pressa

Lenhadores confrontam-se durante o Great Alaskan Lumberjack Show, um dos entretenimentos com que Ketchikan prenda os visitantes.

Ketchikan, Alasca

Aqui Começa o Alasca

A realidade passa despercebida a boa parte do mundo, mas existem dois Alascas. Em termos urbanos, o estado é inaugurado no sul do seu oculto cabo de frigideira, uma faixa de terra separada dos restantes E.U.A. pelo litoral oeste do Canadá. Ketchikan, é a mais meridional das cidades alasquenses, a sua Capital da Chuva e a Capital Mundial do Salmão.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


São cinco da madrugada e o dia já despertou há um bom tempo, se é que, em pleno Verão boreal, dormiu de todo. O nevoeiro cerrado não chegou a atrasar o navio do Alaska Marine Highway System em que, desde a manhã anterior, navegávamos pelo labirinto de ilhas, ilhéus e canais que separava Sitka de Ketchikan. A pontualidade do capitão atraiçoa-nos. Vemo-nos obrigados a fechar as mochilas à pressa e a abandonar de emergência o ferry já desolado de passageiros, sem podermos sequer contemplar a frente de casario sortido disposta por diante e a vasta floresta frondosa de acácias e abetos de Tongass que a envolvia.

Malgrado a hora, Christy e Joseph chegam com tempo. O casal que se prestou a acolher-nos na cidade,  dá-nos as boas-vindas à saída do porto e leva-nos para a casa dos pais de Christy. Tinham-nos reservado um quartinho na cave da vivenda tradicional de madeira que o pai erguera, em boa parte, com o suor do seu trabalho. Até se reformar, o senhor foi lenhador nas florestas que preenchem o mapa em redor. Entre outros acidentes, levou com árvores em cima. Partiu as costas e uma perna. Sobreviveu, todavia, às agruras da profissão e, por aquela altura, desfrutava de um merecido e condigno retiro em que, para não abandonar de vez a madeira, se entretinha a fabricar guitarras. Haveríamos de o conhecer e aos filhos melhor à mesa de um jantar que começou com uma oração por todos partilhada, de mãos dadas.

Não tardámos a perceber que Christy e Joseph eram um casal de missionários. Que tinham recentemente viajado por Moçambique, África do Sul, Índia e outros países, num misto de voluntariado e de descoberta do mundo. O acolhimento providencial que nos tinham concedido era mais um dos seus projectos benevolentes.

Até ao repasto, instalamo-nos e ouvimos as instruções que os anfitriões nos passam. Em seguida, eles vão à sua vida. Nós, tínhamos todo um pseudo-plano de descoberta de Ketchikan para pôr em prática.

Estávamos 1100 km a norte de Seattle. O grosso desta vastidão integra a província canadiana da Colúmbia Britânica e isola o Alasca, o 49º estado dos E.U.A., dos chamados Lower 48. Isolamento era também algo a que Ketchikan estava habituada. A quinta maior cidade do Alasca até tem quase 14.000 habitantes permanentes, muitos mais de Maio a Agosto, quando é inundada de migrantes e imigrantes ávidos por ocuparem um dos inúmeros postos de trabalho que o turismo gera. Ainda assim, a próxima cidade digna desse nome, Juneau, a capital do Alasca, dista quase 400 km.

Até ao século XVIII, o lugar não passava de um acampamento que os nativos tlingits usavam para pescar o peixe ali abundante. Com o passar dos anos, essa abundância e a de madeira atraiu colonos e estes compraram terras aos nativos. Em 1886, abriu uma primeira fábrica de conservas de salmão, junto à foz do riacho Ketchikan. Até 1936, outras seis tinham sido abertas e granjearam-lhe o título de Capital Mundial do Salmão enlatado. Hoje, além do salmão, sustentam a economia enormes viveiros de trutas de várias espécies, instaladas a meia-encosta da montanha de Deer, com uma vista privilegiada sobre a cidade e o vasto canal do Pacífico do Norte em que se instalou.

Ketchikan ficou ainda célebre como a First City, por ser a que primeiro aparece na rota sul-norte da Alaskan Marine Highway. Mas também podia ser chamada de Thin City. À boa moda da longa panhandle alasquense, o espaço costeiro ocupado pela cidade na ilha remota de Revillagigedo é de tal forma esguio que o seu aeroporto teve que ser construído numa ilha ao largo.

Já no século XX, foram descobertos ouro e cobre nas imediações. Mas, depois do salmão, foi a actividade madeireira que ocupou a maior parte dos residentes, empregues pela gigantesca produtora de pasta de papel Ketchikan Pulp e pela serração Louisiana Pacific, isto até por volta de 1970, quando a nova consciência ecológica cívica governamental barrou temporariamente a produção da empresa e deixou no desemprego centenas de trabalhadores.

Como aconteceu a algumas companheiras a norte, na década de 90, Ketchikan conquistou o novo estatuto de capital dos cruzeiros. Deixou o turismo amarar em definitivo e passou a receber mais de dez embarcações por dia e quase um milhão de passageiros durante os três meses e meio estivais.

A mudança dividiu a população. A uns agradou a abundância de empregos – ainda que sazonais - e os salários chorudos. Outros, recriminaram o antro comercial em que havia degenerado a baixa, onde muitas das lojas pertencem às poderosas companhias de cruzeiros e só abrem no Verão. Mal o Estio dá lugar ao longo Inverno, essas empresas dedicam-se apenas e só a paragens das Caraíbas. Os seus estabelecimentos locais deixam de ter uso e têm que ser protegidos das sucessivas chuvadas, nevões e ventanias. São vedados com placas resistentes de contraplacado que as crianças e os adolescentes escolares pintam para suavizar o visual fantasmagórico com que, de outra forma, a baixa se veria.

A modernização e internacionalização de Ketchikan levou-lhe boa parte da alma tlingit, mesmo se os tlingits resistentes se esforçaram por preservar o legado da sua cultura. Ketchikan tem, por exemplo, a maior colecção do mundo de totens.

Nessa tarde, confrontamo-nos com vários deles no Parque de totens de Saxman, um arredor com menos de quinhentos moradores, também ele cercado pela imensidão de abetos de Tongass. Dali, regressamos ao centro da cidade e apreciamos um tratamento dos troncos não tão criativo ou espiritual, mas, de igual forma emblemático, da região.

Até 1970, centenas de lenhadores entregaram as suas vidas à floresta circundante. A árdua e arriscada actividade conquistou uma reputação insuspeita entre a comunidade local. De tal maneira que distintas povoações começaram a organizar competições que envolviam as várias artes do ofício. Com o Canadá ali ao lado, essas disputas tornaram-se internacionais. Mais recentemente, o turismo assoberbou muitas das cidades e lugarejos do cabo de frigideira alasquense. Christy e Joseph contam-nos que mal os visitantes do sul dos E.U.A. põem os pés em terra, renovam um rol de perguntas escabrosas e até algo insultuosas para os moradores: “onde é que podemos encontrar os iglôs e os esquimós”, “posso pagar com dólares americanos” etc., etc.

Ao mesmo tempo, em Ketchikan, tudo serviu para entreter os forasteiros desinformados e endinheirados que lá desembarcam todos os Verões e lhes subtrair o máximo de dólares. Os enfrentamentos de lenhadores não fugiram à regra.

Quando entramos no recinto do Great Alaskan Lumberjack Show, as bancadas já estão à pinha. Uma apresentadora estridente apresenta as equipas concorrentes: uma selecção dos E.U.A. contra outra canadiana. Introduz as sucessivas provas com piadas fáceis que geram gargalhadas (des)comunais. Durante mais de uma hora, os representantes trajados a rigor de calças de ganga presas por suspensórios sobre camisas de manga curta confrontam-se a cortar cepos à machadada. Serram troncos sobre o solo. E outros, erguidos a boa altura na vertical e que se prendem com arneses. Lutam ainda sobre madeiros flutuantes e rolantes e por aí fora. No final, como não podia deixar de ser, triunfa a equipa dos E.U.A.. O público volta a rejubilar. Disputa fotografias com os lenhadores em que estes posam como os heróis da serra e do machado com que a multidão americana, sempre ávida de heróis, se quer ver. Ali, mesmo ao lado, o espectáculo é contínuo.

Instalada sobre passadiços de madeira que acompanham o rio Ketchikan, a colorida Creek Street é formada por grandes palafitas coloridas anichadas no sopé da floresta de Tongass. Nos tempos da corrida alasquense ao ouro, esta rua acolhia o concorrido Red District da cidade. Com mais de trinta bordéis, dizia-se que era o único lugar do Alasca em que tanto os peixes como os pescadores subiam o rio para desovar. Tal como então, com o mês de Junho, os salmões chegam ao leito que, extenuados pelo já longo percurso marinho e no fim do seu ciclo de vida, tentam, contra o tempo e a corrente, subir. Um grupo de miúdos estacionados sobre a ponte de campanha que cruza o rio pesca-os. Debruçado sobre uma janela verde-amarela de uma das casas pitorescas, um cão com metade da face branca e a outra negra, observa-os, intrigado e ladra de cada vez que os desafortunados peixes se contorcem fora de água.

Hoje, os velhos bordéis são todos lojas de souvenires aperaltadas. Abrem e fecham consoante os cruzeiros atracam e zarpam. Vendem a preços exorbitantes e publicitam mensagens nacionalistas como “Nothing Made in China here. All 100% natural and Made in Alaska.”

As duas ou três prostitutas à porta de bares não passam de figurantes. Usam rendas vermelhas e adaptam poses e trejeitos da mais velha das profissões mas são pagas apenas para conversar e se fotografarem com os forasteiros.

Outro título da lista de “capitais” detida por Ketchikan é o de capital alasquense da chuva. Segundo nos relatam, em nenhuma outra cidade do estado a pluviosidade é tão regular e persistente. Ainda assim, tal como nos acontecera em quase todo o périplo pelo Grande Norte, os dias sucedem-se quentes e com céu limpo. De tal maneira que, com excepção para o pós-ocaso, nos mantemos de manga curta.

De regresso a casa, Christy e Joseph congratulam-se pela sorte meteorológica que afiançam que trouxemos à cidade. “Isto começou mesmo quando vocês desembarcaram e tem-se prolongado. De certeza que não querem ficar mais uns tempos?”.

Aproveitamos tanto a bonança como a resiliência da luz solar, para, na sua companhia, explorarmos zonas limítrofes e bem mais genuínas da povoação. Levam-nos a uma antiga serração instalada sobre estacas, agora abandonada às marés e aos elementos. Nas imediações, uma ursa negra caça salmões, incomodada pelas suas duas crias irrequietas que só não lhe espantam as presas porque os peixes estão no encerrar moribundo das suas vidas.

Regressamos à cidade já depois das onze da noite, com o sol a pôr-se, a lua a insinuar-se-lhe no firmamento e a maré mais vaza do que alguma vez tínhamos visto. Detemo-nos à beira mar numa península no prolongamento de Saxman. Um bando de crianças, sem horas para voltar a casa, vasculha o litoral rochoso em busca de aventura. Não tardamos a partilhar da sua fortuna. Ali, mesmo à nossa frente, um grupo de baleias de bossa convive e alimenta-se com graciosidade. Um novo lusco-fusco boreal que faz brilhar as suas peles luzidias instala-se para durar. Tinham passado três dias. Na manhã seguinte, despedimo-nos de Christy e Joseph. Deixamos aquele confim meridional do Alasca e voamos para Anchorage, a sua maior cidade e mais famosa porta de entrada.

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