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Danças com deuses

Danças com deuses

Dançarinos mascarados gatha actuam durante uma cerimónia kayta puja de admissão de jovens rapazes à casta e a linhagem familiar.

Bhaktapur, Nepal

As Máscaras Nepalesas da Vida

O povo indígena Newar do Vale de Katmandu atribui grande importância à religiosidade hindu e budista que os une uns aos outros e à Terra. De acordo, abençoa os seus ritos de passagem com danças de homens mascarados de divindades. Mesmo se há muito repetidas do nascimento à reencarnação, estas danças ancestrais não iludem a modernidade e começam a ver um fim.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Terminada a quase hora de viagem com partida de Katmandu, descemos, por fim, do velho autocarro. Um pouco por todo o Nepal, as praças Durbar marcam o centro histórico de cada povoação. O passo seguinte seria sempre encontrarmos a de Bhaktapur mas, metemo-nos por ruelas e vielas e, por sorte, perdemos o seu sentido. Cinco minutos de desorientação depois, chega-nos música exótica aos ouvidos. Em modo de pura descoberta, perseguimos o inesperado estímulo até que nos deparamos com uma celebração esotérica a ter lugar num largo da povoação. Uma trupe de dançarinos gathas, masculinos como é suposto e de todas as idades, faz rodopiar trajes gastos mas ainda garridos, consoante uma coreografia partilhada. Cada um deles, faz também girar a máscara que usa ao som de flautas nepalesas de bambu basuri, de um violino, de um pequeno tambor tradicional madal e de uma espécie de acordéon de colo, segundo o ritmo adicional marcado por címbalos de cobre. Instalada, à margem, sobre dois degraus na base de uma loja, a banda contrasta com o grupo de dançarinos. Estes, agitam-se como demónios possessos, já os músicos, tocam imobilizados nas suas posições de orquestra remediada e nos trajes do dia-a-dia. Junta-se-lhes um cantor de pouco mais de meia-idade, determinado a estabelecer com a sua voz, uma ponte entre os dois mundos.

Os mascarados prolongam a exibição no centro da praceta e das atenções das dezenas de convivas presentes. Até que o transe comunal deixa de os assistir. Entregam-se, então, a um suado repouso terreno, lado a lado com as máscaras que usavam, coroados pelos turbantes altos e encardidos que antes lhes sustentavam as cabeçonas divinas.

Enquanto isso, as mulheres presentes, preparam tabuleiros com oferendas de refeições sortidas de arroz, legumes e carne, acompanhadas por chyang (um vinho leitoso de arroz), por frutas, bolachas, pastéis e outros doces. Mesmo se os saris e faixas lustrosas pouco as ajudam, as senhoras dispõem os tabuleiros numa fileira e servem os dançarinos que recuperam as energias recém-despendidas.

O repasto dura o que dura. No seguimento, um dos gathas recoloca a enorme máscara vermelha que lhe pertence sobre ombro, algures na fronteira entre o sagrado e o profano que o povo Newar e os nepaleses seus descendentes se habituaram a ajustar. Do seu lado mais exposto, o divino; no encoberto, o humano. Dividido por ambos, passa a abençoar os participantes com mãos-cheias de arroz cozido, augúrio de prosperidade e consequente felicidade.

O ritual exuberante com que nos tínhamos deparado era, ele próprio, um sintoma dessa prosperidade. Por mais que se esforcem, nem todas as famílias newari ou nepalesas se podem dar ao luxo de contratar uma trupe de dançarinos e os músicos necessários, de trajar vestes sedosas ou assegurar oferendas satisfatórias. Como noutras partes, os rituais mais faustosos de fé são para quem os Deuses já prendaram com fortuna. O Nepal não foge a regra.

Anichados entre a vastidão budista do Tibete e do reino do Butão e a do subcontinente indiano em grande parte hinduísta, os Newar e os seus descendentes nepaleses são uma coisa e a outra. Na teoria, 85% assumem-se hindus. A maioria dos restantes, budistas. Na prática e no Vale de Katmandu, todavia, as duas religiões entrecruzaram-se de tal forma que separá-las se prova complicado. Os Newar não têm qualquer pejo em admiti-lo. Orgulham-se, aliás, de uma das suas mais populares piadas, que versa que, num contexto pessoal, qualquer Newar é 60% hindu e 60% budista.

Esta duplicidade justifica, por exemplo, que os dez rituais karma konkyu sucessivos do seu ciclo de vida possam ser levados a cabo tanto por sacerdotes hindus como por budistas, prevendo-se, claro está, determinadas diferenças de filosofia e de culto.

Numa ordem cronológica, o primeiro dos principais rituais, o Machabu Beakegu, é realizado aos onze dias de vida. Abençoa e saúda os recém-nascidos. O segundo, janko samskara celebra a primeira comida sólida (por norma, arroz) ingerida pelos recém-nascidos. Tem lugar aos cinco meses para os bebés e aos sete meses para as bebés. Gera uma festa que dura, no mínimo, um dia inteiro, alimentada por sucessivas intervenções de uma sacerdotisa e da família, com uma visita ao templo de Ganesh mais próximo pelo meio.

Naquela visita cirúrgica a Bhaktapur, tínhamos esbarrado com uma cerimónia Bartaman, também conhecida por Kayta Puja, o ritual da passagem definitiva dos rapazes à esfera social da sua casta, realizada entre os quatro e os treze anos de idade. Na origem e, se respeitados todos os preceitos religiosos, esta cerimónia representa o afastamento dos rapazes da vida familiar dependente e um regresso transformado. Segundos esses antigos preceitos, os rebentos da família deviam rapar o cabelo e compenetrar-se na componente religiosa das suas existências, deixando as famílias para um período de ascetismo ou para se tornarem monges num mosteiro. A tradição já não é tão austera mas continua a caber a um tio maternal a tarefa simbólica de atrair os rapazes de volta à família com uma oferta generosa de dinheiro.

A Kayta Puja a que assistimos fora realizada em honra de dois irmãos, Tejit e Sushant, de cinco e nove anos. Nenhum se havia retirado para a floresta ou entrado num mosteiro. Ainda assim, as famílias do lado do pai e da mãe levavam o ritual dos miúdos com seriedade e empenho. Eram ambos os herdeiros dos seus nomes. Não que um ou o outro disso tivessem já consciência mas, mais tarde, no mais doloroso dos ciclos de vida, serão eles os responsáveis por acender as piras fúnebres dos antepassados.

Rituais complementares seguem a existência terrena dos Newar. No caso das mulheres, o Barah é o equivalente feminino do Kayta Puja. Celebra o início da menstruação. Na correcta sequência, após o Kayta Puja e o Barah, há-de chegar a cerimónia Swayamvar que louva o momento sagrado do casamento. Muitos anos depois, virá a Bura Janko, festejo religioso que consagra a transformação das pessoas – estejam sós ou ainda casadas – de meros humanos em idosos divinos. Como seria de esperar, a morte é sofrida. Não conta com a presença dos mascarados e das suas danças.

De comemoração estável, o ritual a que assistimos evolui para procissão. Os mascarados recolocam as máscaras e dançam rua abaixo. Seguem-nos os músicos e, logo, a comitiva de familiares e convivas a que nos juntamos. A parada desloca-se apenas duas centenas de metros, pelo prolongamento da ruela delimitada por velhos prédios de tijolinho gasto. Volta a deter-se num largo mais abaixo. Ali, o espectáculo é retomado ainda e sempre com os gathas no centro das atenções.

No Vale de Katmandu, contrastam e rivalizam há muito dois tipos primordiais das danças a que assistíamos, a Nava Durga nativa de Bhaktapur e a Devi Pyakhas associada aos cultos de Ashta (manifestações da deusa hindu Devi Lakshmi da Prosperidade) de outra povoação, Panauti. O primeiro tornou-se famoso pelas suas actuações, em tempos, indomadas e selvagens: imbuídos da encarnação demoníaca dos deuses, os dançarinos chegavam a matar galinhas, cabras e outros animais e a sugar-lhes o sangue, algo que impressionou deveras e para sempre as gerações de espectadores. Já representadas pelos Devi Pyakhas, as divindades revelam-se bem mais tranquilas e ordeiras. Claro está que, nos últimos tempos, confrontados pela crescente escassez de requisições pelas famílias, até as troupes Nava Durga moderaram os seus comportamentos e ajustaram-nos aos ambientes em que actuam. 

A troupe Nava Durga de Bhaktapur é uma das quatro que percorrem o Vale de Katmandu de Outubro a Junho, mês que marca o início das chuvas trazidas pela monção do Subcontinente, o fim da plantação do arroz e a celebração Gathamuga em que os nativos expulsam os demónios das suas casas e terras.

Neste período, as trupes Nava Durga invadem e aterrorizam as comunidades que visitam. Todas estão activas desde o remoto século XIII. Nos dias que correm, compõem-na elementos da casta de Gathu. São jardineiros habituados a fazer as suas próprias máscaras com recurso a barro, a papel e a juta, ao contrário de outros dançarinos que preferem associar-se a famílias da casta Citrakar de pintores para que estes lhas criem de acordo com imagens padrão de livros semi-sagrados.

As máscaras usadas nas actuações tanto Nava Durga como Devi Pyakhas podem representar deuses masculinos ou femininos ou ainda com perfis divinos de animais, caso do elefante endeusado Ganesh; ou outros considerados meros “veículos” das divindades como o são o pavão e o leão ou, por fim,... animais apenas e só animais: macacos, cães, veados, porcos, elefantes. Podem ainda encarnar demónios, maus espíritos e personagens humanas como sacerdotes, palhaços, mercadores e caçadores. Cada entidade tem correspondência a uma cor. O branco é usado para as personagens mais puras. O preto nas demoníacas. O vermelho e o negro representam poder e força. São sinónimo de comportamentos intempestivos, enquanto o verde se associa a nobreza de carácter. Mas o código cromático vai mais longe. Tal como o constatamos, cada divindade tem o seu tom predominante. Brahmayani é amarelo. Vaishnavi (outra shakti de Vishnu), verde. Kaumari, deusa hindu da guerra é vermelha ou castanha. Ganesh é branco e por aí fora.

Entretanto, os dançarinos mascarados que seguímos voltam a interromper as suas danças. Focam-se em nos cobrar e aos estrangeiros que se haviam aglomerado doações o mais generosas possível. Como já vimos, os dançarinos divinos Newar pertencem a castas de baixo estatuto e parcos rendimentos. Numa altura em que a tradição das danças mascaradas se prova cada vez mais difícil de preservar, a sua preocupação financeira tem, nos forasteiros endinheirados, um fundamento à altura. Só que, na ressaca do grande sismo de Abril de 2015 que devastou boa parte do Vale de Katmandu, o governo impôs aos turistas preços exorbitantes de entrada nas suas praças históricas. Já tínhamos contribuído, numa base diária, com o pagamento exorbitante desses bilhetes. Sem surpresa e de forma algo injusta, não estávamos tão inclinados como seria suposto a recompensarmos aquela expressão Newar de arte para que - convém não esquecermos - ninguém nos tinha convidado. Contribuímos. Mas a quantia deixou os dançarinos gatha a resmungar e, a nós, a recearmos as retaliações dos deuses e espíritos que encarnavam.

O Vale de Katmandu já não é remoto como em tempos. A modernidade toma-o dia após dia e aniquila a razão de ser secular das trupes. Um estudo constatou que em 2013, a troupe Nava Durga só visitou seis lugares, ao contrário de dezenas deles em décadas anteriores. Como se não bastasse, nesse ano, em Panauti, um dançarino que encarnava um palhaço partiu uma perna devido a uma desordem no público. Dai em diante, as trupes passaram a exigir mundos e fundos para voltarem a actuar nessa povoação o que, por sua vez, desmobilizou a vontade popular de lá renovarem a tradição. Por tudo isto e por tantos outros caprichos do destino, o futuro das danças mascaradas newari continua à mercê dos deuses.