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Salto fingido

Salto fingido

Guia Negão finge um salto depois de contar a visitantes a lenda do Pai Inácio.

Chapada Diamantina, Brasil

Bahia de Gema

Até ao final do séc. XIX, a Chapada Diamantina foi uma terra de prospecção e ambições desmedidas.Agora que os diamantes rareiam os forasteiros anseiam descobrir as suas mesetas e galerias subterrâneas


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A caminhada prova-se bem mais curta do que esperávamos. Favorecido pela magreza e pelo treino de inúmeras subidas, Negão chega ao topo sem arfar, instala-se sobre uma pedra arredondada e deixa-nos à vontade para explorarmos os recantos repletos de cactos da meseta. Tivemos, dali, a primeira de várias panorâmicas a 360º da Chapada Diamantina e a noção inaugural da sua inesperada imponência. Um desfiladeiro coberto de prado prolonga-se a perder de vista, bem marcado pelas encostas dos pequenos planaltos opostos. Outros anunciam-se à distância numa sequência que aparenta não ter fim de canyons elevados do vasto Sertão. Cenários deste tipo são quase sempre esculpidos por erosões de grande intensidade. A Chapada não fugiu à regra.

Há mais de 600 milhões de anos, muito antes da fragmentação do supercontinente Pangeia, esta região era adjacente à zona da actual Namíbia, ainda hoje uma das mais importantes reservas diamantíferas do Mundo. Os diamantes locais foram cristalizados naquela área, misturados com seixos e arrastados para a profundeza do mar que cobria aquilo que é agora o interior do Brasil. Com o passar do tempo, o mar recuou. O seu leito transformou-se numa camada de pedra conglomerada que aprisionou as gemas. Mais tarde, essa camada foi elevada pelas movimentações tectónicas e exposta a um intenso desgaste que acabou por depositar os diamantes no leito dos rios, à espera dos primeiros felizardos.

Um pouco mais seca – talvez numa época de chuva rara – o cenário que temos perante os olhos poderia ter-se revelado perfeito para acolher cenas de “Westerns Spaghetti” que, de qualquer maneira, já tinham profanado a longa exclusividade da pátria cowboy. Além disso, esta região manteve-se um verdadeiro “faroeste” durante séculos a fio, povoada pelos índios Maracás que atacavam os aventureiros e colonos que chegavam atraídos por notícias da primeira riqueza achada, o ouro.

Mais tarde, com a descoberta de diamantes, não demorou muito até que milhares de bandeirantes e prospectores, comerciantes e colonos, jesuítas, contrabandistas e prostitutas das mais variadas origens ali acorressem. Surgiram, assim, povoações sem rei nem lei com dimensões e uma concentração de habitantes crescentes. As balas resolviam qualquer conflito que emergisse. De acordo, os coronéis com mais influência e jagunços ao serviço concentravam o poder e impunham a sua vontade à força da violência e da tortura. O episódio que Negão conta aos visitantes do seu monte alisado chega-nos como uma prova por ele teatralizada da crueza daquela era. O tom das suas frases é quente e o sotaque do interior sertanense da Bahia: “Oi pessoal, junta aí próximo da falésia p’rá ouvir que a história é boa!”.  

Composta a plateia, o narrador conta que em tempos idos, vivia na Chapada um escravo a quem tratavam por Pai Inácio que namorava, às escondidas, a filha do seu senhor. Este, inteirou-se do caso e enviou vários capangas em perseguição do infractor que acabou por se refugiar naquele mesmo morro em que estávamos. Mas alguém informou os capangas do esconderijo. Quando menos esperava, o escravo deu por si entre os perseguidores e o abismo. A situação pedia uma saída drástica, de preferência genial e Pai Inácio esteve à altura das exigências. Sob a pressão das espingardas e pistolas, gritou que preferia morrer em liberdade a ser chacinado às mãos do senhor. Abriu o seu guarda-chuva, saltou do morro e continuou a fuga, incólume, para nunca mais ser visto.    

Negão sempre levou o seu trabalho a peito e a determinada altura, a mera narrativa começou a pedir algo que a ilustrasse. O guia encontrou um artifício à altura do desfecho da novela. Quando chega ao clímax da acção, Negão atira-se também para baixo e deixa a audiência boquiaberta. Só alguns momentos depois, alguns dos visitantes se abeiram do precipício para desvendarem que o salto (repetido várias vezes por dia) tinha terminado numa saliência um ou dois metros abaixo que o grupo não conseguia ver.

Segundo a lenda, o escravo foi-se de vez e deixou a Chapada entregue à sua prospecção cada vez mais desalmada. Nos leitos dos rios, acastanhados pelo ferro, mineiros gananciosos encontravam gemas em quantidades surpreendentes e abriam trilhos para zonas antes inacessíveis em redor das povoações que cresciam a olhos vistos: Lençóis, Mucugê, Palmeiras e Andaraí, entre outras de igual elegância colonial mas menor dimensão e importância.

Descemos do morro e seguimos em direcção ao vale estreito do Mucugêzinho, onde temos o primeiro contacto com os leitos ainda filtrados pelos prospectores mais persistentes da região.

No Poço do Diabo, a água revela gradações ferrosas de laranja. Nesse e noutros caudais apertados, chegamos a passar por mineiros debruçados sobre as margens a agitar cascalho sobre as suas peneiras, como almas semi-retiradas do mundo movidas tanto pelo desenquadramento social como pela esperança de enriquecer a contradizer o passado. São raros os casos de sucesso e a maior parte dos moradores da Chapada preferem apostas com maiores probabilidades de êxito. No momento, o turismo é a mais garantida.

Em 1995, sob a pressão dos mesmos grupos ambientais que conseguiram a criação do parque nacional e travaram uma já longa destruição do ecossistema local, o governo proibiu a extracção diamantífera não tradicional. Apesar de nem tudo ser ainda perfeito, a natureza passou a ser tratada como o bem mais precioso da zona e os visitantes e viajantes brasileiros e estrangeiros afluíram em grande número.

Depois da longa época de estagnação, migração e pobreza que se seguiu ao fim da mineração, a população local vê com bom olhos esta nova invasão e quer lucrar com a revelação da sua abençoada terra natal.

Nos dias que lhe dedicamos, caminhamos dezenas de quilómetros por dia para chegar aos lugares mais emblemáticos da Chapada: o Ribeirão do Meio, o rio Lençóis e a cachoeira da Primavera, o Salão de Areias, a cachoeira do Sossego e a gruta do Lapão. Outros aventureiros resistem bem mais para cumprirem itinerários guiados desgastantes mas recompensadores como o que conduz à cachoeira da Fumaça - a mais longa do Brasil, com 420m de altura - a que se chega 3 dias depois da partida. Ou o Grande Circuito que perfaz 100km em 5 dias, 8, caso se quiser investigar a velha aldeia diamantífera de Xique-Xique Igatu.

Certos nativos não precisam de se dar a todo este trabalho. Os cientistas chegaram à conclusão que parte da água da bacia do Amazonas, colocada sob pressão contra o oceano Atlântico, acaba por encontrar e escavar caminhos alternativos alimentando aquíferos que alcançam o Nordeste brasileiro. Esta água liberta-se e irriga mais a Chapada do que a área em redor porque  a rocha ali característica é quase impermeável mas propícia à formação de brechas “estruturais”.

Por uma questão de probabilidade, as entradas de algumas destas brechas encontram-se nos “sítios” de moradores felizardos. Acabamos por seguir dois destes proprietários promotores às profundezas das da Lapa Doce e da Torrinha, galerias gigantescas em que nos conduzem e iluminam com a luz de um robusto candeeiro estilo Petromax que, a esforço, vão mudando de um ombro para o outro, enquanto, tímidos e algo pressionados pelo peso nova profissão, nos passam informação enciclopédica recém-memorizada e o nome de cada secção subterrânea: “aqui, os senhores podem ver o Pão de Açúcar. Essa daí é a “Cortina” e agora temos a “Água Viva”. 

Quando voltamos à superfície, um pôr-do-sol resplandecente ridiculariza a luz ténue que nos tinha revelado aquele pedaço de inframundo, avermelha a paisagem e escurece as silhuetas da floresta de cactos “mandacarus”, formas emblemáticas do grande Sertão, evidências dos limites do Cerrado e da virtuosa Chapada Diamantina. 

Guias: Brasil+