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Coragem

Coragem

Adolescente prepara-se para o seu salto de iniciação à idade adulta, incitado pelos cânticos de outros elementos da aldeia.

Pentecostes, Vanuatu

Bungee Jumping para Homens a Sério

Em 1995, o povo de Pentecostes ameaçou processar as empresas de desportos radicais por lhes terem roubado o ritual Naghol. Em termos de audácia, a imitação elástica fica muito aquém do original.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A aproximação do Harbin Y-12 à pista desvenda o monte Vulmat coberto de selva densa encharcada por dois dias de chuva intensa. E uma beira-mar exígua feita de areia negra e calhaus que a vegetação invade, quase alcançando a água azul do oceano Pacífico.

Quando o avião se imobiliza, uma pequena multidão de ni-vanuatu (os habitantes de Vanuatu) curiosos deixa a sombra das árvores e aproxima-se para saudar os novos visitantes. Somos convidados a registar-nos com os anciãos de Lonorore e, cumprida a formalidade, ficamos livres para explorar o litoral exótico que esconde a povoação.

Aos poucos, vão chegando grupos de nativos por um trilho apertado ou ao longo do areal e, também eles se aglomeram em redor dos barracões que servem o aeroporto.

Falta apenas uma hora para o início do ritual mas o recinto continua interdito, e é frequentado apenas pelos jovens saltadores e pelos homens que tratam dos derradeiros preparativos.

Estamos no fim de Maio e a época do Naghol ainda vai a meio. Em tempos, o evento tinha lugar uma vez por ano mas à medida que mais viajantes descobriam Pentecostes, a cerimónia revelou-se uma fonte de lucro incontornável para as aldeias que a praticavam e repete-se, agora, oito vezes, de Abril a Junho. Já a sua origem, se verdadeira, não podia ser mais única.

Conta-se na ilha que uma nativa se queixava da persistência dos avanços sexuais do seu marido, Tamalie. Sem o conseguir sensibilizar, fartou-se e fugiu para a floresta. Tamalie perseguiu-a obrigando-a a trepar a uma figueira-da-índia.  Encurralada, ao ver o marido subir, a mulher atou lianas aos tornozelos e lançou-se, ficando a balouçar junto ao solo, incólume, antes de se soltar.

Sentindo-se desafiado mas sem reparar nas lianas, Tamalie saltou atrás dela e perdeu a vida.

Daí em diante, os homens de Pentecostes decidiram praticar o salto com lianas para que não mais fossem enganados pelas parceiras e a prática tornou-se kastom (tradição).

À margem da lenda, o Naghol é levado a cabo como ritual de passagem dos rapazes das aldeias. Os nativos acreditam que, quando realizado com sucesso, contribui para boas colheitas de mandioca e para afastar os males próprios da época das chuvas, incluindo a malária que prevalece no arquipélago de Vanuatu, como noutras partes luxuriantes da Melanésia.

Quando é finalmente dada a permissão para avançarem, os forasteiros depressa se esquecem dos mosquitos que os incomodam e preocupam. Juntam-se ao grupo de espectadores locais e avançam pela floresta, seguindo um anfitrião apressado. A determinada altura, o trilho estreito entra numa clareira ampla de que se destacam uma encosta lamacenta e, no seu topo, uma enorme torre de troncos.

Enquanto a assistência se distribui pelo sopé e lados da encosta, vários homens amolecem o solo na projecção da base da torre. Outros, revêem e retocam a sua estrutura caótica.

Ao mesmo tempo, um grupo de apoiantes tribais – crianças à frente, seguidas de mulheres e, depois pelos homens - dançam, cantam e assobiam repetidamente para  incentivar os saltadores.

Estes, são mantidos nas imediações da torre durante dois dias, sem contacto com raparigas para garantir a requerida abstinência sexual. É também habitual que se untem de óleo de coco e que usem presas de javali como amuletos, além das nambas, cápsulas vegetais com que envolvem o pénis. Como pudemos notar mais tarde, alguns inspiram-se com recurso a substâncias naturais (leia-se drogas) e, quanto mais longo é o salto para que se preparam, maior é a inspiração.

O ritual começa com mergulhos a partir das plataformas inferiores da torre e vai evoluindo para o topo, consoante a idade dos participantes. As lianas são escolhidas pelos anciãos das aldeias. Têm que ser cortadas pouco antes da cerimónia, de acordo com o peso de cada saltador e a altura de que vai saltar mas, apesar da precisão exigida, os responsáveis continuam a dispensar qualquer instrumento moderno. Feita a selecção, desfiam-se as pontas das lianas que são presas aos tornozelos dos participantes. Se forem mal atadas ou demasiado longas, o saltador infeliz despenha-se no solo mas, caso fiquem curtas, pode colidir com a base da torre, de onde se projectam vários troncos.

Para não comprometer a elasticidade das lianas, o Naghol foi sempre realizado na época seca. Mas, em 1974, a administração colonial quis impressionar a soberana Rainha Isabel II - que visitava as então chamadas Novas Hébridas - e, contra a vontade dos indígenas, forçou uma cerimónia durante as chuvas. Foi uma vez sem exemplo. As lianas usadas por um dos saltadores quebraram-se e  causaram a única tragédia directamente provocada pelos mergulhos do Naghol.

De regresso à clareira, os saltadores intermédios cumpriram já o seu papel e a cerimónia decorre sem acidentes. O grupo de “apoiantes” volta a dançar e a cantar, desta vez, com intensidade redobrada. E um último adolescente trepa até ao topo da torre onde se posiciona sobre uma plataforma ínfima. Já no auge, junta-se aos cânticos por um minuto e acena olhando para o céu. Sem mais contemplações, impulsiona-se para diante, cobrindo a cabeça e o pescoço com os braços, sobrevoando, por momentos, a selva de Pentecostes antes de mergulhar em direcção ao solo.

As lianas quebram violentamente a queda, como a torre que se dobra ligeiramente e suaviza o esticão. E, como é esperado, as mãos do saltador tocam ligeiramente na terra mas, além de alguma dor nas pernas, depois de examinado por outros aldeãos, prova-se que está em condições de celebrar. 

Terminada a cerimónia, a assistência recebe autorização para se aproximar da torre e, em três tempos, envolve e glorifica o novo adulto. Mas a reacção é contida. Os seus olhos vermelhos explicam uma certa “ausência” que vai compensando com sorrisos sem fim.

A compensação monetária exigida pela ilha às empresas de bungee-jumping do mundo por estas terem copiado o Naghol ainda não foi paga. Mas, se um destes dias Pentecostes ganhar este caso, todos os seus nativos terão razões extra para sorrir.

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