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Pastéis nos ares

Pastéis nos ares

Detalhes da arquitectura religiosa-colonial de Campeche, erguida pelos conquistadores espanhóis sobre a cidade maia por eles destruída de Cam Pech

Campeche, México

Campeche Sobre Can Pech

Como aconteceu por todo o México, os conquistadores chegaram, viram e venceram. Can Pech, a povoação maia, contava com quase 40 mil habitantes, palácios, pirâmides e uma arquitetura urbana exuberante, mas, em 1540, subsistiam menos de 6 mil nativos. Sobre as ruínas, os espanhóis ergueram Campeche, uma das mais imponentes cidades coloniais das Américas.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Luís Villanueva e Wilberth Alejandro Sala Pech transaccionam-nos como a uma mercadoria numa estação de serviço da via rápida que liga Mérida a Campeche. A estrada seguia paralela ao velho Caminho Real Maia entre as duas cidades.  Passava junto a aldeolas que, como Wilberth, preservavam óbvias raízes indígenas. Pedimos para pararmos numa ou outra, algo que o jovem cicerone nos concede com satisfação. Detemo-nos em Becal. Wilberth revela-nos uma pequena fábrica familiar e artesanal de chapéus panamá. Apesar do nome, os “jipijapas” – assim lhes chamam os mexicanos – foram inventados no Equador. Admiramos como os artesãos os tecem um atrás do outro, a partir da fibra da folha de uma palmeira, por forma a satisfazer a procura dos muitos gringos que visitam o México.

De Becal, apontamos a Pomush, povoação em que subsiste um dos raros cemitérios maias do mundo. Ali, em vez de em convencionais campas, as ossadas dos mortos são depositadas para a eternidade em pequenos caixas de madeira, forradas por toalhas com flores bordadas. Nelas, caveiras e ossos ficam expostos ao ar e ao olhar. “Os meus avós estão por aqui algures”, revela-nos Wilberth, seguro da impressão adicional que nos causaria. Antes que nos indicasse o lugar exacto, atrapalhamo-lo com questões sobre como os padres católicos lidavam com aquela prática. Wilberth assegura-nos que, com os séculos, se estabeleceu uma saudável convivência. O nosso tempo começava a escassear. Apressámo-nos a regressar ao caminho.

Quando damos entrada no hotel de Campeche, o sol poente dourava o âmago histórico da cidade. A viagem tinha-nos deixado exaustos mas um espectáculo nocturno de luz e som a ter lugar entre as muralhas do seu enorme forte justificava que recorrêssemos às derradeiras energias. A exibição, junto a uma tal de Puerta de Tierra, reencenou o passado atribulado da cidade, da era indígena à invasão dos conquistadores espanhóis e dai em diante. Tínhamos acabado de chegar e Campeche já nos irradiava a riqueza da sua história.

Sete horas depois, rejuvenescidos, apreciámo-la sob a luz tropical da manhã. Paragens mais coloniais que estas não abundam. Da Plaza Campeche, para qualquer que fosse a direcção, a cidade desdobra-se numa sucessão geometrizada de calles numeradas e largos que se encontram em curiosas esquinas: a del Cometa, a del Toro, a del Perro. No sudoeste imediato, essa grelha é ainda mais rigorosa, submissa às velhas muralhas e aos baluartes que antes protegiam a medula urbana das sucessivas tentativas de conquista ou saque.

A umas centenas de metros do Barrio de Guadalupe que nos acolhera, a Calle 10 conduz-nos ao longo de uma das fachadas laterais da Catedral de Nuestra Sra de la Purísima Concepción. Logo, ao Parque Principal, este, centrado em redor de uma espécie de coreto sob esteroides. Como é suposto acontecer em urbes de tal calibre católico, as torres gémeas da catedral sobrepõem-se ao parque, ao seu arvoredo e ao casario campechano em geral.

O dia começara há apenas três horas mas os moradores já percorriam preferencialmente as arcadas dos palacetes nobres e garridos, a salvo do braseiro que se intensificava. Para o interior, Campeche rende-se a uma profusão de quarteirões de um pastel multicolor. As suas casas e passeios surgem elevados face ao plano das ruas, assim protegidos das raras chuvadas fulminantes. Deslocada do frenesim intenso do cientro, a vida flui ali mais lenta e desafogada, afectada de quando em quando, pelos roncos característicos de um outro fusca.

A repetição padronizada dessas calles mantem-nos num modo semi-alienado de exploração, de tal forma absortos do todo que nos esquecemos de que o mar só distava umas centenas de metros. Com excepção para as tropelias de um qualquer furação ou tempestade tropical, o fundo do Golfo do México embate no Malecon marginal da cidade, com uma preguiça adequada ao lugar.

Desde a viragem para o século XVI a cirandarem pelo Mar das Caraíbas, em 1517, os descobridores e conquistadores espanhóis acabaram por ali desembarcar. Segundo narrou Bernal Diaz Castillo - o principal escriba da Conquista do México - abasteceram-se de água com a complacência dos chefes locais que lhes mostraram ainda os seus palácios e pirâmides.  A sede por riqueza e poder dos forasteiros viria a ditar um desfecho trágico da civilização maia local.

A povoação denominava-se, então, Ah-Kin-Pech, simplificado como Can Pech. De forma rude, o nome traduzia-se como lugar da cobra e da carraça. Se a primeira incursão se provou pacífica, a passagem dos homens de Francisco Hernández de Córdoba e Antón de Alaminos para a zona vizinha de Champoton, despoletou uma saga de violência que veio a gerar muitas baixas e só terminaria mais de vinte anos volvidos, sob comando de Francisco de Montejos.

Quando os espanhóis a encontraram, Can Pech abrigava cerca de 40 mil maias. Alguns anos depois, muito graças às epidemias de varíola e de outras maleitas desconhecidas no Novo Mundo, o número era já inferior a 6 mil. Com os Maias destroçados, os conquistadores ergueram uma nova cidade sobre a povoação antes majestosa dos nativos.

Como seria de esperar, San Francisco de Campeche desenvolveu-se sob os fortes padrões hispânicos da época. Rivalizou com outras cidades grandiosas e influentes do império, Havana e Cartagena de Índias. Concentrou o ouro, outros metais preciosos e comodidades subtraídos um pouco por todo o México que de lá eram despachados para Espanha.

À medida que enriqueceu, Campeche recebeu mais e mais mansões, palacetes e igrejas. Como Havana e Cartagena, os piratas que esquadrilhavam os mares ao largo não lhe conseguiram resistir: John Hawkins, Francis Drake e tantos outros visaram-na. Também um tal de Bartolomeu Português, famoso bucaneiro luso que viveu e operou durante o século XVII e cuja vida dava para um filme. Crê-se ter sido o autor de um código de conduta que, espantemo-nos, os piratas adoptaram e seguiram durante o século XVIII.

Pelo menos entre 1666 e 1669, Campeche manteve-se o seu alvo preferencial. Português navegava num barco que roubara, dotado com quatro canhões, assistido por uma tripulação de trinta homens. Após capturar uma embarcação espanhola e encher o seu navio com 70 mil Reales de a Ocho (moedas de prata) e toneladas de grãos de cacau enfrentou mau tempo. Como se não bastasse, viu-se detido por uma pequena frota de navios espanhóis de guerra. Foi forçado a voltar a Campeche onde as autoridades o aprisionaram num outro barco. Mas, Bartolomeu Português conseguiu matar a sentinela e escapar. Terá atravessado 150 km de selva até ao leste da Península de Iucatão de onde regressou a Campeche com vinte novos auxiliares. Em Campeche, capturou o barco onde havia estado preso. Durante a fuga, a tripulação fez o barco encalhar e perdeu uma vez mais a carga armazenada a bordo.

Bartolomeu Português passou o resto da sua vida a atacar navios e povoações espanholas sem grande proveito. Em “Buccaneers of America”, o flibusteiro, historiador da pirataria e autor Alexandre Exquemelin afirma ter testemunhado, na Jamaica, os seus derradeiros dias, passados na miséria.

Os ataques dos piratas, bucaneiros e corsários a Campeche tornaram-se tantos e tão frequentes que os espanhóis investiram boa parte dos seus proveitos em muralhas e baluartes, os mesmos que continuam a encerrar o fulcro histórico oval da cidade.

Hoje, os maias e os descendentes dos colonos hispânicos cruzam-se nas calles como se cruzam no eterno processo mexicano de mestiçagem. Entre o Parque Principal e o Malecon, encontramos uma obra que ilustra na perfeição a riqueza genética e a diversidade das gentes da cidade. Um enorme mural decora a fachada lateral de um banco. Denominado “Once Campeches” ilustra os traços, os trajes e os modos de vida do mesmo número de nativos campechanos, da criancice à velhice.

Mais para o fim da tarde, com uma quase frescura a instalar-se, o Parque Principal e outras plazas acolhem o ansiado modo pós-laboral e pós-escolar dos moradores. Caminhamos calle 12 fora até darmos com os Portales de la Plazuela de San Francisco, lugar de restaurantes-esplanada, vários, animados por música ao vivo. Éramos, há muito, fãs da orchata mexicana. Quando o recepcionista nos informa que não a serviam no hotel mas que encontraríamos, nos Portales, a melhor à face da Terra, sentimo-nos um pouco como Francis Drake, Hawkins e Bartolomeu Português: sem nos podermos poupar à incursão. A orchata não desiludiu. De tal maneira que, em vez de comermos uma refeição convencional, as fomos repetindo.

No regresso, constatámos como, em simultâneo com a vida prazerosa da rua, Campeche se entregava a uma outra, a dos incontáveis lares térreos que os moradores mantinham de portas e janelas abertas, com entradas, pátios e varandas que usavam como extensões das calles.  

Regressamos ao Parque Principal com a noite instalada. O grande coreto acolhia um ritual barulhento e profano que escapava à supervisão austera da catedral ao lado. Do lado de lá da sua circunferência, um bar passava reggaeton caribenho – por certo porto-riquenho - a altos berros. Aquém, mais próximo do templo, tinha início nova sessão do bingo de rua da cidade. Grupos de mulheres instaladas em distintas mesas acompanhavam a extração dos números e símbolos pictóricos. O bingo era “cantado” por Rosa Puga que há nove anos ditava a sorte pelo puro prazer do convívio, já que o valor das apostas permitido se mantém tão simbólico como as próprias figurinhas extraídas.

Sem melhores planos, sentamo-nos na companhia das senhoras. Lá ficamos a assistir à sua excitação na iminência de preencherem os cartões com os gatos, mulas, cometas, rosas, cavalos e navalhas saídos da tômbola adesivada. Lá apreciamos a harmonia com que Campeche encerrava mais um dos seus serões abafados e se rendia ao silêncio da noite caribenha.