Esconder Legenda
Mostrar Legenda
Folia Divina

Folia Divina

Batalhão de cavaleiros do Divino Espírito Santo percorrem uma estrada entre fazendas durante a Folia Divina.

Pirenópolis, Brasil

Cavalgada de Fé

Introduzida, em 1819, por um padre português, a Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis agrega uma complexa rede de celebrações. Dura mais de 20 dias, passados, em grande parte, sobre a sela.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


À medida que Maio se aproxima do fim, uma parte considerável dos homens de Pirenópolis começa a sentir ansiedade. A Folia do Divino está iminente e, anuncia-se um quase mês de liberdade concentrada, de diversão exagerada mas justificada e, no caso dos predominantes devotos, de renovação da crença no Espírito Santo.

Chegado o momento, as camisas azuis e brancas e os estandartes recebem os derradeiros cuidados, como as melhores montadas que são escovadas até à exaustão antes de lhes serem colocados os arreios.

Uma vez a caminho, a comitiva eufórica de Cavaleiros do Divino visita fazenda após fazenda e sitio atrás de sitio entregando-se a longos banquetes, a cantorias bem regadas e a catiras (danças folclóricas da região) mas também a orações em grupo.

Quando são festejados todos os Pousos da Folia Rural, a tropa  reagrupa-se numa última fazenda de onde parte em direcção à cidade para se unir à Folia Urbana.

Forma-se, assim, uma romagem épica que vemos a trotar por caminhos da roça pirenopolina e que, com ajuda motorizada, apreciamos ainda a irromper pelo centro histórico de Pirenópolis, aplaudida por milhares de visitantes goianos e de outras partes do Brasil, incluindo um exército semi-alcoolizado de mascarados curucucus, espécies de almas marginais a que o povo recorreu para forçar a entrada em cena no evento que era, até então, monopolizado por uma elite endinheirada.

A Festa do Divino Espírito Santo inspirou-se nos Bodos aos Pobres, celebrações religiosas realizadas em Portugal a partir do século XIV que louvavam a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade e em que, a coincidir com o dia de Pentecostes, eram oferecidas comida e esmolas aos pobres.

Devido à acção evangélica, a sua tradição fortaleceu-se em várias futuras colónias lusas como os Açores e o Brasil. Por terras de Vera Cruz, a festa manteve as raízes católicas mas, influenciada pelo exotismo das terras que a acolhiam e rendida aos caprichos dos seus mentores e actores, admitiu inúmeras extravagâncias.

Em Pirenópolis, o principal responsável pela radicação da Festa do Divino foi um padre de nome Manuel Amâncio da Luz, que a começou a encenar, em 1819, aprofundando o culto local do Espírito Santo com recurso a elementos e personagens com forte simbolismo cristão. Foram os casos da Coroa e do Ceptro do Divino, mas também da figura protagonista do Imperador do Divino - representativa do Rei e da Corte Lisbonense - que o próprio padre desempenhou, em 1826, contribuindo para a enorme notoriedade que a comemoração viria a conquistar.

Os foguetes rebentam com estrondo ensurdecedor e obrigam o povo a tapar os ouvidos. Ainda assim, é o som metálico das centenas de ferraduras sobre o asfalto ou o calçadão da cidade velha que vai definindo os acontecimentos. Acompanhamos o cortejo que termina à porta do domicílio engalanado do Imperador vigente, apurado, por sorteio, entre dezenas de candidatos. Ali, os Cavaleiros entregam ao anfitrião as Lanças e a Coroa do Divino que pode ser admirada e venerada pelos crentes. E, depois de levados a cabo outros ritos e rituais, são prendados com uma refeição reconfortante.

Nessa mesma noite, há missa na igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário. Quando termina a eucaristia, é acesa uma enorme fogueira a distância só por pouco segura da sua nave e o encanto das enormes chamas atrai uma multidão entusiasta. A Bandeira do Divino está no seu lugar. Falta levantar o mastro imponente que a deve hastear.

A tarefa é arriscada e requer um impressionante esforço colectivo que os voluntários suavizam recorrendo a varas longas que exigem uma delicada combinação entre força e equilíbrio. O mínimo erro pode resultar em tragédia mas, com a bênção do Espírito Santo, tudo corre pelo melhor. Em jeito de recompensa, novo fogo de artifício grandioso ilumina o céu negro.

A jornada não se fica, ainda, por aí. Uma quermesse ruidosa que ocupa o lado oposto da igreja convida os participantes mais populistas a juntar-se ao baile e aos petiscos enquanto as esplanadas elegantes da Rua do Lazer entretêm os restantes.

Mais tarde, por volta das quatro da madrugada, os foliões resistentes (mas também os que já dormem) são brindados com uma alvorada da velha (criada em 1814) Banda de Couro. E, como se não bastasse este despertar compulsivo, no início da manhã que se anuncia, é oferecida à cidade nova descarga pirotécnica.

Encerrado o fim-de-semana, os forasteiros regressam às origens e a povoação entra num regime de semi-animação, estimulada “apenas” pelas actuações da Banda de Couro, pelos repiques de sinos, missas e ensaios diários das Cavalhadas, uma reconstituição – equestre, claro está - das Cruzadas que fecha, todos os anos, o longo cerimonial.

Chegamos outra vez a Sábado e tanto os cavaleiros como os mascarados reaparecem mas, o Cortejo Imperial já está em movimento e são as virgenzinhas de branco que reclamam as atenções até que a procissão dá lugar ao sorteio do Imperador sucessor. Uma vez achado o contemplado, o vigente é conduzido por uma vasta companhia religiosa ao seu domicílio onde são distribuídas Verónicas (docinhos) e Pãezinhos do Divino às meninas que purificaram o cortejo. Este ritual, em particular, exige paciência redobrada quer aos organizadores quer aos participantes.

Forma-se uma fila que se prolonga do hall de entrada para a avenida adjacente à casa. E, por essa ordem, as mães, tias, avós e mulheres com descaramento que baste mas parentescos suspeitos recebem uma cestinha com os desejados bolinhos. Saem, depois, por uma porta diferente e é suposto seguirem caminho mas, muitas, aproveitando a confusão que toma conta da cerimónia, voltam à fila para levarem a prenda a dobrar ou a triplicar, recorrendo à mais pura criatividade charmosa quando são apanhadas: “Ué, são para as irmãzinhas. Se não levar para elas, vão ficar com ciúme!”

Pouco depois, a multidão feminina deixa a casa do Imperador. No caminho de volta às suas, ecoa nas ruas do centro, mais intenso que nunca, o som das ferraduras contra as pedras polidas das calçadas. As Cavalhadas estão prestes a começar e os cavaleiros, agora, mouros e cristãos, voltaram a apoderar-se da festa.

Guias: Brasil+