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Punta Cahuita

Punta Cahuita

Casal disfruta, em absoluta exclusividade, da praia tropical da Punta Cahuita.

Cahuita, Costa Rica

Costa Rica de Rastas

Em viagem pela América Central, exploramos um litoral costariquenho tão afro quanto caribenho. Em Cahuita, a Pura Vida inspira-se numa fé excêntrica em Jah e numa devoção alucinante pela cannabis.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Mesmo sob o sol abrasador do meio da tarde, a caminhada junto à floresta densa de coqueiros e os sucessivos mergulhos no mar das Caraíbas concediam-nos um forte prazer tropical que estávamos dispostos a prolongar por vários quilómetros não fosse aquele lugar, sem qualquer disputa dos mais sedativos à face da Terra, também reservar as suas surpresas.

Como é comum um pouco por todo o litoral costa-riquenho, tanto Pacífico como Atlântico, ouvíamos o uivar expansivo de macacos de capuchinho. De quando em quando detectávamos um ou outro espécime mais curioso dependurado nas copas da árvores. Não era a primeira vez, neste mesmo périplo centro-americano que um destes primatas peludos destemidos nos tentava assaltar de forma furtiva e já nos tínhamos habituado a deixar roupa e mochilas mesmo à beira d' água por forma a evitar novas comoções. Aproximamo-nos de um rio de nome Suárez e da sua confluência com um riacho a que chamaram Kelly. As chuvas tinham sido esparsas nas várias semanas anteriores e o caudal permanecia barrado pelo limiar mais elevado do areal junto à foz exígua. Contornamos o pequeno charco lodacento e preparamo-nos para entrar no domínio ainda mais selvagem do Parque Nacional Cahuita quando um pé-de-vento formado por mosquitos sedentos de sangue nos ataca sem misericórdia. Em aflição, corremos disparados para o mar, largamos o que carregávamos e mandamo-nos para o refúgio mais que óbvio da água salgada.

Os mosquitos abandonam a perseguição mas deixam, á superfície da pele, uma destruição, no imediato pouco visível, mas que se propagava a cada batida dos corações acelerados. Sentimos a irritação alastrar e, sem noção de quão grave se poderia tornar o dano, decidimos abreviar o regresso à povoação.

No fim dessa tarde, as inevitáveis babas já se haviam desenvolvido numa vermelhidão tão vasta como irritante.

Cruzamo-nos com um nativo munido de uma catana que reconhece o infortúnio, tão comum em visitantes de pele branca, e que nos alicia com um alívio rápido do sofrimento.

“Estou a ver que vos apanharam bem, esses safados!” introduz com a típica voz cavernosa ragga que ressoa pelos domínios caribenhos que, em tempos,  os colonos europeus povoaram com escravos. “Não se atrevam a coçar. Se quiserem, explico-vos como se podem livrar disso.” Apesar do visual meio andrajoso e suspeito do interlocutor de longas rastas e óculos escuros estamos dispostos a ouvir o que tem para divulgar,. “Tudo bem, eu salvo-vos. Digam-me só quanto acham que mereço pela boa acção e trato já de vocês”.

O incómodo da comichão e a incerteza de podermos estar a lidar tanto com um charlatão oportunista como com um curandeiro providencial, deixa-nos ainda mais desconfortáveis. É nessa precariedade de espírito, que nos decidimos por fazer fé na fala cavernosa e algo alucinada do afro-caribenho. Passamos-lhe 4000 colónes (mais ou menos 6€) para a mão e ficamos a ver para onde nos levava. O homem beija as notas meio enroladas num misto de gratidão e de superstição, dá cinco ou seis passos e arranca um molho de ervas da berma oposta da estrada. “Esqueçam lá as farmácias. Garanto-vos que é este o melhor remédio!” e apressa-se a exemplificar o tratamento. Agrupa as ervas numa pequena meda conveniente. Apanha um coco de um coqueiro mais baixo e corta-o ao meio num golpe único do machete. Depois, molha a meda com a água de coco, espreme-a com toda a força e espalha-nos a seiva reforçada pelos braços e ombros. “É só isto que têm que fazer. Vou apanhar-vos mais um pouco para que possam ir repetindo. Não têm que misturar sempre água de coco, água da torneira também serve. Vão ver como isso desaparece num instante.”

Passados uns meros minutos, já era óbvio o efeito suavizante da mezinha e agradecíamos, sem reservas, a intervenção trovejante mas eficaz daquele feiticeiro negro.

Regressamos à pousada familiar em que nos tínhamos alojado. Voltamos a sair para fazer algumas compras de ocasião numa das mercearias que dotavam a estrada de terra batida que fazia de centro da povoação. Entramos em três delas em busca de produtos refrigerados. Depressa percebemos que todos aqueles negócios atafulhados pertenciam a famílias chinesas a que os moradores se habituaram a tratar simplesmente por “The Chinese”. Formavam uma ínfima minoria étnica que nem com os preços exorbitantes das suas mercancias conseguia perturbar o retiro pacífico de cannabis a que se entregava uma grande parte da actual população afro.

Uma outra minoria que, apesar de mais esquiva, resiste formou, em tempos, a população exclusiva desta região.

Os habitantes pré-columbinos de Cahuita e arredores foram os índios Bribrí e Cabécar. Hoje, subsistem comunidades mais ou menos aculturadas em duas ou três das poucas reservas indígenas da América Central. É um dado adquirido que Cristóvão Colombo chegou a ancorar nas imediações de Puerto Limón mas, ao confrontarem-se com a densidade intransponível da selva caribenha, tanto ele como os descobridores hispânicos seguintes optaram por explorar a área a partir do oceano Pacífico. Por esse motivo, os índios mantiveram-se isolados até quase ao virar para o século XIX. Por volta de 1870, Minor Keath, um homem de negócios norte-americano, assumiu a construção de um caminho-de-ferro entre a capital San José e Puerto Limón com o fim de escoar para a Europa o café que era produzido nos vales centrais da Costa Rica.

Milhares de novos colonos foram recrutados das Índias Ocidentais – nomeadamente Jamaica – e da China para concretizarem o projecto. Muitos deles, sucumbiram a acidentes laborais, à malária, febre amarela, disenteria e toda uma panóplia de outras doenças tropicais. Completada a ferrovia, a concorrência de outras paragens na exportação de café e o número reduzido de passageiros, auguraram a inviabilidade comercial da linha. Até que o magnata se lançou na produção de bananas. E fê-lo de tal maneira que não tardou a dominar o mercado americano daquela fruta.

Os afro-cahuitenses com que vamos convivendo são os descendentes da mão-de-obra destas iniciativas, há muito detidos na região pela pobreza e pelo isolamento natural.

Mais um dia se passa. Exploramos a praia vulcânica Negra e a vizinha Blanca, em novas longas caminhadas. Seguimos o trilho do rio Perezoso de frente para o recife de coral amplo que envolve a Punta Cahuita. Ainda nos aventuramos pela Playa Vargas. Ali, confrontados com o rápido entardecer, invertemos marcha e regressamos ao coração da aldeia com passagem não planeada por um ervado em que está prestes a ter início uma partida de futebol.

Instalamo-nos junto a uma terceira equipa expectante e recuperamos as pernas. O núcleo de Bob Marleys futeboleiros divide-se entre fumar marijuana e fingir que aquece para a partida. Também não resistem a abordar os forasteiros. Connosco a puxar pela conversa, acabam por manifestar um forte orgulho pelas suas remotas origens.

“Aqui em Cahuita somos todos Smith. Afiança-nos um deles ainda mais extrovertido que os restantes. Muito antes dessas estórias todas do caminho de ferro e das bananas, um caçador afro-caribenho chamado Will Smith que vivia na zona de Bocas del Toro (actual Panamá), seguiu a migração das tartarugas e acabou por se instalar aqui com a família dele e algumas mais. Por isso é que existem, por cá, tantos negócios chamados qualquer coisa Smith. Não é só por o nome ser popular. Bom, somos nós a jogar. Esta ervinha deixou-me com vontade de os destroçar.”