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Bebé entre reis

Bebé entre reis

Bebé assusta-se quando se vê elevado entre o rei mouro e o cristão, no encerramento das Cavalhadas.

Pirenópolis, Brasil

Cruzadas à Brasileira

Os exércitos cristãos expulsaram as forças muçulmanas da Península Ibérica no séc. XV mas, em Pirenópolis, estado brasileiro de Goiás, os súbditos sul-americanos de Carlos Magno continuam a triunfar.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Por volta da uma da tarde, os mascarados abrem alas para a cavalgada solene dos “exércitos” cristãos e mouros, em direcção ao recém-construído Cavalhódromo de Pirenópolis. As bancadas estão a abarrotar e ouvimos a voz dominante do produtor e apresentador Sôr Pompeu anunciar o cortejo de inauguração, liderado por uma “moça gostosa” enfeitada com faixas. Composta de músicos e majorettes, a parada dá a volta ao relvado e saúda a assistência. Cumprido o périplo, é dada luz verde para o ponto alto do evento, o início das embaixadas e batalhas.

Percebemos, então, o porquê de tanto ensaio prévio. A coreografia revela-se complexa e fastidiosa. Faz-se de voltas e reviravoltas, mas também de confrontações súbitas, retiradas e diálogos intermináveis proferidos num playback trovejante que requer o acompanhamento gestual dos reis e embaixadores.

Para aligeirar o espectáculo, abrem-se as portas à loucura dos mascarados. Estes, invadem a galope e, sempre que o seu tempo se esgota, resistem à expulsão como se de um terceiro exército se  tratassem.

“Esses Mascarados vão ter que sair de qualquer jeito. Não dá p’rá ficar atrasando mais!” ressoa, dos altifalantes, o cada vez mais impaciente Sôr Pompeu. Há muito que passaram os 20 minutos de cavalgada louca à volta do recinto por ele concedidos e os exageros repetem-se desde o início do evento. Nada que perturbe a inconsciência colectiva dos também chamados curucucus.

O abuso delicia os espectadores. Afinal, a Festa do Divino e as Cavalhadas são feitas da entrega e devoção, tanto religiosa quanto profana dos seus intervenientes e todos admitem que os cavaleiros mouros e cristãos brilham tempo demais.

À parte das batalhas travadas e desafiando o predomínio das faixas de saudação, vassalagem e auto-promoção das famílias mais importantes e dos políticos regionais, os mascarados aproveitam ainda o anonimato para exibir cartazes de contestação política que revelam: “As pessoas não mudam quando chegam ao poder, elas se revelam”. 

A tradicional irreverência dos curucucus deriva da sua presença, tão bastarda como tardia, nas Cavalhadas. Durante muitos anos, por não ter lugar nas batalhas travadas à laia de torneio medieval, o povão que representam foi mero espectador das cerimónias protagonizadas pelos mais abastados e poderosos. Uma vez legitimada a sua participação, protegidos por disfarces caricatos e coloridos (cabeças de homem e de boi, unicórnios, onças etc.) e por cochichos quase impercetíveis, os Mascarados depressa se revelaram difíceis de controlar.

Com o regresso das cruzadas, em breve se constata que as embaixadas de tréguas e de mútua intimidação são infrutíferas. Resta o conflito. É então que o povo mais rejubila.

Foram colocadas cabeças de bonecos para serem rebentadas e assim testarem a mestria dos cavaleiros no uso da lança e ... da pistola, um curioso anacronismo não detectado ou com que ninguém se importou. Há ainda a prova das argolinhas, um clássico medieval que eleva o suspense de cada vez que os cavaleiros, a galope, erguem as suas lanças. Os pontos são anotados mas, no fim, por uma questão de fidelidade histórica, quem vence são sempre os cristãos. A consumar o triunfo dos fiéis, os mouros rendem-se e submetem-se, ajoelhados sob as espadas dos cruzados. Segue-se um alinhamento a pé dos cavaleiros que recebem os cumprimentos dos amigos e familiares.

Nisto, os passeios do centro da cidade vão enchendo com o regresso da multidão presente no Cavalhódromo. A maioria dos forasteiros vem de Brasília, Goiânia e das muitas povoações em redor. Alguns chegam de bem mais longe. De Sampa, do Rio, até do estrangeiro, atraídos pela beleza cada vez mais badalada da festa.

Os carros são proibídos no centro histórico. Esta benesse permite aos mascarados apoderar-se das ruas amplas onde cavalgam sem sentido detendo-se apenas para posar para as fotos do público e pedir pequenas contribuições para a compra do seu combustível: a cervejinha gelada. É rara a recusa. Estamos na época seca da região Centro-Oeste brasileira e o calor aperta, principalmente quando se está horas dentro de um fato de fibra, com a cabeça numa máscara de cartão.

Até que a noite começa a cair e os cavaleiros voltam a recuperar o protagonismo. Por essa altura, juntos, mouros e cristãos cavalgam e descarregam as suas pistolas para o ar. O derradeiro ritual - de longe o mais barulhento – estabelece o encerramento oficial das Cavalhadas e devolve Pirenópolis à paz de Deus. Até ao próximo mês de Maio. 

Do Reino dos Francos ao Coração de Goiás

As Cavalhadas de Pirenópolis são uma reconstituição das investidas de Carlos Magno contra os Mouros que ocupavam a Península Ibérica. Ao longo da Idade Média, por meio dos cruzados e trovadores, os seus feitos tornaram-se populares na Europa cristã e deram origem a representações bem recebidas também em Portugal. Estas encenações foram levadas para o Brasil pelos jesuítas, ainda na sua época áurea, com autorização da Coroa que nelas vislumbrou um eficaz instrumento de evangelização dos indígenas e escravos africanos. A Pirenópolis e à região circundante do actual estado de Goiás, chegaram em 1826, quando o Padre Manuel Amâncio da Luz integrou uma exibição denominada “O Batalhão de Carlos Magno” na Festa do Divino Espírito Santo, também ela anteriormente trazida de Portugal.

A novidade teve uma aceitação milagrosa. Pirenópolis era, então, uma cidade de mineiros, na sua maioria, oriundos do norte da Metrópole onde a longa resistência às invasões mouras e seguintes ataques e conquistas acabaram por forjar a nação portuguesa. Por outro lado, o espectáculo desde cedo atribuiu personagens poderosas (reis e cavaleiros) aos cidadãos mais proeminentes da cidade. Tratavam-se de personagens montadas o que foi de encontro à paixão generalizada da população local pelos cavalos e cavalgadas, uma paixão que é ainda evidente durante a Festa do Divino, quando o som dos cascos contra as pedras das calçadas íngremes do centro histórico de Pirenópolis se torna ambiente.

No início, as Cavalhadas eram encenadas num campo de terra marcado a cal. Os participantes vestiam uniformes militares da época em vez dos trajes da época medieval. O empenho que os Pirenopolinos lhes dedicaram - como à Festa do Divino, no geral -  fez com que passassem a ser criadas roupas “medievais”, incluindo armas e armaduras para os cavaleiros e cavalos. Como se não bastasse, há apenas dois anos, o campo pelado deu lugar a um verdadeiro Cavalhódromo, relvado, dotado de um pórtico cristão e outro mouro, com grandes bancadas de cimento e camarotes familiares, estes feitos de madeira.

Quando falamos com a esposa de Toninho - um emblemático ex-rei Mouro - descobrimos que nem sempre a festa se confinou à cidade ou ao estado.

Dª Telma conta-nos que, em 2005, se celebrou o ano do Brasil em França e que a organização gaulesa convidou uma comitiva de 30 pirenopolinos, - para desgosto das esposas da cidade - todos homens, a Chantilly (uma vila histórica granfina a poucos km de Paris). A ideia era apresentar aos franceses as Cavalhadas de Pirenópolis e a exibição final correu na perfeição mas os preparativos reservaram peripécias hilariantes. 

Vários dos cavaleiros nunca haviam saído do estado de Goiás quanto mais viajado de avião para mudar de continente e enfrentar a etiquette française. Os cavalos pirenopolinos ficaram em casa, os cavaleiros das Cavalhadas tiveram que ensinar às montadas francesas todas as voltas e reviravoltas das batalhas entre Mouros e Cristãos. A situação foi tudo menos pacífica. Por terras de “Piri”, os cavalos eram tratados à força, com chicotadas e picadas de esporas. Mas, em Chantilly, os cavaleiros brasileiros, habituados à superioridade do seu papel de reis e nobres, viam-se repreendidos ao mínimo toque que dessem nos animais franceses e indignavam-se sempre que os tratadores locais, à laia de prémio, beijavam as suas montadas na boca.

“Mas isso não foi o pior ...”, continua a narrar Dª Telma: “Como se não bastasse, os franceses tentaram impor este método refinado aos cavaleiros de Pirenópolis a quem davam também torrões de açúcar para que, além dos beijos, os oferecessem aos cavalos quando os animais superavam provas...”

Os goianos continuaram a resistir. E os franceses quase entraram em colapso quando constataram que os pirenopolinos não só insistiam nos seus procedimentos cruéis como devoravam os torrões de açúcar. No regresso a casa, o tratamento “efeminado” dos europeus para com os animais foi tema de conversa até às Cavalhadas seguintes, quando o poderoso exército de Carlos Magno, voltou a derrotar os infiéis.

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