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De partida

De partida

Habitantes de Malekula e outras ilhas em redor deixam Wala com o cruzeiro em fundo.

Wala, Vanuatu

Cruzeiro à Vista, a Feira Assenta Arraiais

Em grande parte de Vanuatu, os dias de “bons selvagens” da população ficaram para trás. Em tempos incompreendido e negligenciado, o dinheiro ganhou valor. E quando os grandes navios com turistas chegam ao largo de Malekuka, os nativos concentram-se em Wala e em facturar.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Por esses dias, andávamos a explorar Malekula. O guia que nos orientava na ilha vem com uma conversa de que devíamos visitar a sua Wala, que ficava a apenas 15 minutos de barco de Rose Bay, a povoação em que estávamos baseados. “Este fim-de-semana, é lá que tudo acontece!” alerta-nos. Mesmo sem percebermos nem como nem porquê, quem erámos nós para duvidar.

George concede-nos pouco mais que uma dezena de minutos: “Rapazes, sei que as pernas ainda vos devem arder mas o mercado já lá está há um bom tempo. Não tarda, começam a arrumar tudo”.

Deixamos a pousada e voltamos à marcha. Seguimos o guia por caminhos da orla da selva e vilarejos. Cruzamos campos improvisados de petanca em que alguns adolescentes acompanham o rolar criterioso das suas esferas. Por fim, alcançamos um pequeno ancoradouro em que o barqueiro que assegurava as viagens entre Malekula e Wala aguardava por mais passageiros.

Wala não passa de uma amostra de ilha. Por uma qualquer coincidência do destino, calhou que se visse na rota dos grandes cruzeiros que partem das maiores urbes australianas e neozelandesas rumo a leste. Os roteiros destas autênticas cidades flutuantes levam os passageiros a desembarcar em Port Vila, a capital de Vanuatu, em Apia e Pago Pago, capitais das duas Samoas, ainda em lugares de Tonga, de Fiji e de outros arquipélagos-nação do Pacífico do Sul. Em Vanuatu, os passageiros também são levados a desembarcar numa tal de Champagne Bay, na ilha de Espiritu Santo. Trata-se de uma das praias realmente divinais do país. Várias empresas de turismo ofereceram já milhões ao seu proprietário secular para lá erguer infraestruturas de acolhimento aos seus clientes. Por sorte, os ni-vanuatu com mais idade continuam a respeitar o amor supremo pela posse geracional de terras. As ofertas são rechaçadas uma atrás das outras.

Algo semelhante mas, à sua maneira, também distinto, se passa com Wala. Na Champagne Bay, o proprietário ou familiares permanecem à entrada de quem chega por terra e cobram os seus próprios ingressos. O mesmo acontece quando as lanchas e bateis dos cruzeiros desembarcam centenas de passageiros ansiosos por se evadir de bordo e se banharem nas águas ali irresistíveis do Pacífico. Já os habitantes de Wala e da ilha-mãe Malekula, continuam a queixar-se de que nunca viram qualquer benefício das taxas pagas pelas empresas ao governo de Vanuatu para poderem atracar ao largo da ilha. São frequentes as reportagens de publicações australianas que abordam o tema e questionam porque os políticos da nação vivem no luxo quando as populações dos lugares visados não chegam a ter ideia de como se somem os proveitos originados com as visitas dos cruzeiros. Enquanto aguardam pela resposta fazem o que podem para lucrar do contacto directo com os passageiros. Estes, por sua vez, veem-nos como autênticos fenómenos antropológicos, espécimes humanos, como pensavam já não existirem.

Uns poucos ni-vanuatu de Wala já estão na própria ilha, só têm que instalar as suas bancas ou afins. Outros, vêm de aldeias tribais dos confins luxuriantes e ensopados de Malekula. Chegam, aos poucos, às imediações de Walarano, uma comunidade tradicional da costa nordeste de Malekula próxima de Wala. Por ali, tal como George nos instruiu a fazermos, entram a bordo de pequenos barcos que cumprem permanente vaivéns entre ambas as ilhas. Aliás, quando cumprimos a travessia para o destino final, temos a companhia de vários deles que nos observam intrigados por seguirmos aquela rota, por norma, não usada pelos estrangeiros.

O barqueiro dá sinal de partida bem antes de a lotação lotar. Assim que a embarcação contorna uma reentrância da ilha, abre-se a vista para um braço de mar de que se destaca um gigantesco navio-cruzeiro. Inesperada no panorama civilizacional de Vanuatu, a visão afecta-nos como uma miragem em que somos forçados a acreditar.

“Agora, vêm cá quase todas as semanas!” adianta George satisfeito. “o pessoal de Malekula organiza-se para os receber ... “ completa com recurso ao popular gesto do dinheiro. “Estão a compreender-me não estão?” Pouco tempo depois de o confirmarmos, desembarcamos. A tarde mantem-se cinzenta e húmida. De quando em quando, cai uma chuva miudinha quente que volta a molhar a areia coralífera e satura a floresta tropical.

“Venham aqui primeiro! “convoca-nos George e desvia-nos do areal para caminhos internos mais que molhados, enlameados. “Eles aqui fazem exibições de danças tradicionais para os forasteiros apreciarem. Se nos despacharmos, consigo que vos mostrem algumas.” Andamos umas centenas de metros. Chegamos a uma longa avenida aberta na selva, desafogada mas que, mesmo assim, os ramos mais altos das árvores limítrofes se apressaram a cobrir. Lá encontramos um grupo de nativos pouco trajados a rigor para os pequenos espectáculos ao ar livre de que nos falara o guia. Mulheres cobertas de enormes colares de missangas e outros adornos vegetais seguram grandes folhas de plantas e ramalhetes de outras mais diminutas. George apresenta-nos da forma cerimoniosa que a cultura kastom ni-vanuatu requer. Apesar de já algo desconfortáveis devido à temperatura algo mais baixa que se fazia sentir, as mulheres concordam em nos conceder uma derradeira dança. Dispõem-se a condizer e, ao sinal de uma com mais idade, levam a cabo uma graciosa coreografia ondulante que simbolizava a importância das suas aptidões na tribo.

Alguns metros ao lado, George volta a anunciar a nossa presença, desta feita, a um clã de jovens guerreiros armados com pagaias de madeira pintadas com motivos da tribo a que pertencem. Também eles se entregam às posições tantas vezes ensaiadas. De pé, simulam que remam a bordo de uma canoa e movimentam as pagaias de acordo, gestos que acompanham com cânticos guerreiros. Um casal de idosos aparece do nada. George recebe-os com especial reverência. “São chefes Big Nambas (tribos em que os homens usam coberturas vegetais do pénis maiores, por contraponto aos Small Nambas) já há muito tempo. São eles que concedem a permissão final para tudo isto.” Cumprimentamos suas excelências que quase não falam inglês. George resume-lhes a missão que cumpríamos e o que nos diferenciava dos visitantes do cruzeiro. Volta a saudá-los e anuncia-lhes que vamos espreitar a feira. Os chefes sorriem em aparente aprovação pelo que voltamos ao areal numa confortável harmonia diplomática.

O cruzeiro resiste, fundeado à saída para o grande Pacífico. Com o tempo para ali permanecerem contado, alguns dos seus passageiros em terra fotografam nativos com visível ansiedade.

Ziguezagueamos entre eles e as bancas dos nativos. Encontramos um pouco de tudo naquela estranha feira balnear: artesanato, cerveja nacional e churrascos, fruta tropical pronta a comer e a já esperada kava, a bebida tradicional da Melanésia. George lembra-se de oficializar as nossas boas-vindas a Wala. Conduz-nos ao botequim residente da bebida, identificado como por todo o arquipélago por uma placa de SerSer. O barman de serviço aparece de óculos muito escuros, ou já inebriado pelo seu próprio produto ou por mera opção estética. Fosse como fosse, serve-nos a kava a nós e a George, em metades de pequenos cocos. George abrevia os procedimentos de bem-vinda de estrangeiros, habituais em Vanuatu, como em Fiji e noutras partes da Melanésia. Deitamos a bebida abaixo e arrepiamo-nos com a amargura das suas raízes esmagadas. Seria só a primeira de outras más caras que nos viria a provocar durante o longo périplo por aquelas paragens.

Nos últimos tempos, a oferta mais lucrativa da feira parecia ser a cultural. As suas distintas modalidades estavam um pouco por toda a parte. Uma mulher cercada de curiosos, rabiscava grafismos geométricos na areia, a grande velocidade. Outra, levava a cabo previsões místicas do futuro. Outra ainda exibia um morcego da fruta dependurado num ramo apenas com uma pata, cuidadosamente agasalhado – outra pata incluída - dentro das asas membranosas enquanto captava no seu pequeno radar cerebral, a acção em redor. Várias outras atracções se sucediam, numa abundância tal que mantinha os passageiros do cruzeiro fascinados e deleitados. Libertavam-se, assim, da monotonia da navegação. Em simultâneo, alimentavam a frágil economia local. Quando terminavam de vender os seus produtos e serviços, os comerciantes de Malekula e Wala - que aceitavam tanto dólares australianos, novazelandeses e americanos como Euros – convertiam, de imediato, os proveitos do dia.

Faziam-no ao ritmo a que avançava uma fila alinhada em frente da agência local do “National Bank, Vanuatu’s Own Bank” assim versava placa amarela que o assinalava. Em mais de quatro décadas de vida, nunca tínhamos visto uma fila nem tão comprimida nem tão garrida. Mesmo se desnecessário, o aperto não parecia importunar os clientes que aguardavam colados, coladinhos aos vizinhos da frente. As mulheres, em particular, faziam-no dentro de vestidos de cores e padrões do mais vivo que se possa imaginar. O alvo da sua espera, era a palhota bancária que lhes permitia trocar o numerário estrangeiro, por vatus, a bem mais familiar moeda oficial de Vanuatu.

Com o culminar do entardecer, a influência meteorológica do sol por detrás das nuvens enfraqueceu e a chuva voltou a apoderar-se de todo aquele cenário. Quando regressámos a Rose Bay, ainda vimos muitos dos participantes a cumprirem travessias para mais longe, acumulados em pequenas embarcações à pinha. Os visitantes de Wala sumiram-se no interior do cruzeiro. O cruzeiro não tardou a sumir-se no horizonte longínquo do Pacífico do Sul.

 

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