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Seydisfjordur

Seydisfjordur

Vista de Seydisfjordur abrigado num de muitos fiordes da costa nordeste da Islândia.

Seydisfjordur, Islândia

Da Arte da Pesca à Pesca da Arte

Quando a frota pesqueira de Seydisfjordur foi comprada por armadores de Reiquejavique, a povoação teve que se adaptar. Hoje captura discípulos de Dieter Roth e outras almas boémias e criativas.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A localização aplanada de Egilsstadir, à margem de um de tantos talvegues invadido por aves migratórias da Islândia, pouco deixa antever do trecho que se segue. Após o entroncamento, a estrada trepa a montanha, primeiro coberta de vegetação ressequida que lhe empresta tons ocre e acastanhados mas que, com a altitude, logo cede ao branco. A neve aumenta a olhos vistos. No cume da encosta, a via enfia-se entre paredes altas de gelo. Caem amostras de avalanches de ambos os lados que soterram mais e mais o asfalto já sufocado. É a tracção às 4 rodas que nos salva de um atascanço de outra forma garantido. Vencido o cume pela frente, tem início a descida para as profundezas do fiorde.

São quase dez, como se convencionou dizer, da noite mas o sol teima em resistir nesta Islândia, apesar do cenário frígido, já oficialmente na Primavera. A luz do ocaso subárctico tinge de magenta os picos das montanhas por diante mas falha a ladeira sinuosa por que descemos em direcção ao sopé e ao mar. Passamos uma queda d’àgua regelada. Alguns meandros de asfalto depois, vislumbramos finalmente o casario difuso. Seydisfjordur, a cidade islandesa mais distante de Reiquejavique, não tarda.

David Kristinsson encontra-nos no parque de estacionamento contíguo ao seu Hotel Aldan. Acertamos agulhas quanto à visita e percebemos que esperava que conhecêssemos de antemão o encanto e a fama do lugar. Não era ainda o caso.

A noite cai de vez. Por indicação do anfitrião, alojamo-nos no edifício do velho banco também por ele recuperado. Ali instalados, recarregamos as baterias do equipamento de trabalho e, assim que possível, as nossas, quase a zero depois da longa viagem desde Husavik.

A manhã e o pequeno-almoço resgatam-nos a lucidez. David aproveita. Mostra-nos os recantos pitorescos de norwegian wood do Hotel Aldan, provavelmente trazido em forma de kit da Noruega, em tempos uma mercearia, depois um vídeoclube. Philippe Clause, um amigo gaulês dos arredores de Paris que habita num estúdio do outro lado da rua, faz-nos companhia.

Os pescadores noruegueses retomaram uma colonização prévia que se presume anterior ao século VIII. Atraídos pela abundância de arenque, ergueram os primeiros edifícios de madeira e estabeleceram, ali, um entreposto piscatório, o mesmo que viria a fazer o baleeiro norte-americano Thomas Welcome Roys, ainda no século XIX.

Quando a 2ª Guerra Mundial eclodiu, a povoação desenvolvera-se significativamente. Tinha acolhido um cabo teleférico submarino precursor que ligava a Islândia à Europa continental e a estação de alta voltagem inaugural do país. Os estrategas britânicos e americanos detectaram as vantagens da sua localização e lá instalaram uma base militar e uma pista de aterragem, hoje desactivada.

David pega na história mais à frente: “até há uns tempos, havia uma boa frota pesqueira a zarpar daqui e uma grande fábrica de processamento de peixe. À sua maneira, a municipalidade evoluiu e tornou-se na mais próspera do Leste da Islândia. Até que os armadores poderosos de Reiquejavique compraram quase todos os barcos. Seydisfjordur deixou de ter empregos para oferecer e ficou ao abandono.” 

Salvou-a o advento do turismo, por meios pouco convencionais, diga-se de passagem. Os primeiros curiosos apreciaram a sua beleza retirada e instalaram-se. Seguiu-se uma comunidade de boémios e criadores atraídos pelo acolhimento dos pioneiros e pela sensação de liberdade. Alguns chegaram de outras partes da Europa. O mais famoso, o artista suíço-alemão Dieter Roth, viu em Seydisfjordur um lugar mágico e estabeleceu, ali, na última década da sua vida, uma de várias residências sazonais. Roth faleceu em 1998. Nesse mesmo ano, um grupo de admiradores do seu trabalho, da arte em geral e da povoação, fundaram na vivenda em que habitava Skaftfell, um Centro para Arte Visual.

É para lá que andamos com David, entre o braço de mar que invade o fiorde e o casario colorido no sopé da encosta. Pelo caminho, o cicerone conta-nos um pouco da sua vida: como tinha nascido em Akureyri, a capital do norte. O período em que se mudou para Copenhaga com a namorada, onde, ao fim de três anos, aprendeu bom dinamarquês, apesar de uma professora de infância lhe repetir que nunca o conseguiria. Fala-nos ainda do regresso a Reiquejavique onde também vivera mas a que nunca se habituara e, em 2011, da mudança para Seydisfjordur de armas e bagagens, ideias e algum dinheiro para investir na comunidade, como nos confessa, sem qualquer obsessão pelo lucro.

Chegamos a Skaftafell. David apresenta-nos a Tinna Gudmundsdottir que, por sua vez, nos apresenta o centro com indisfarçável orgulho. No terceiro andar, mostra-nos os aposentos da residência atribuídos aos estudantes de arte e outros frequentadores de passagem. No segundo, apreciamos uma série de esboços expostos nas paredes e examinamos com estupefacção química a montra de fast-food apodrecida com que Dieter Roth, recorrendo a incontáveis bactérias, voltou a expressar a sua inquietude social e criatividade crítica. Este tipo de obras biodegradáveis eram comuns no artista que, por esse motivo, ficou igualmente conhecido como Dieter Rot.

Um experimentalista nato com energia e dedicação inesgotáveis, Roth produziu inúmeros cadernos de artistas, obras impressas e esculturas. “Ele recorria a esta mesa quando tinha mais alguma ideia de rompante. Criava esboços e acumulava-os por aqui até, mais tarde, os associar em livros ou outros formatos. Nós agora convidamos quem por cá passa a deixar também as suas marcas.” diz-nos Tinna, para logo nos levar a uma estante repleta de outros livros do antigo proprietário e nos guiar página atrás de página.

A determinada altura, a conversa muda de tom, como o brilho nos olhos azuis da filha de Gudmund que protesta contra a situação a que chegou a Islândia, afiança-nos devido aos seus governos de direita, sempre demasiado preocupados com retornos financeiros. “Lucro, lucro e mais lucro. É tudo em que pensam. Até o supermercado novo que se instalou ali em cima, faz questão de nos explorar com preços híperinflacionados. Aqui em Seydisfjordur, quase todos o evitamos. Preferimos fazer os 60 km por cima da montanha e fazermos compras em Egilsstadir do que sermos roubados.” O debate político-económico prolonga-se. Tinna fica intrigada e, por momentos, desarmada quando lhe contamos que em Portugal há uma forte noção de que o último governo de esquerda levou o país à bancarrota.

O tempo que tínhamos para a cidade esgota-se. Deixamos Skaftafell por volta da hora de almoço. David escolta-nos até meio do caminho para o Hotel Aldan. Quando chegamos a uma estação de serviço, comunica-nos a hora da separação: “bom, eu fico por aqui. Às sextas, encontramo-nos todos naquele restaurante. A comida é muito má, mas o convívio compensa.”

Por conta própria, decidimos explorar um pouco mais da povoação e do fiorde. Em quase duas horas, só encontramos oito ou nove almas das quase 700 que é suposto a habitarem. O posto turístico funciona mas está vazio, como a doca recolhida em que vemos apenas alguns barcos alinhados, os poucos que sobraram da razia comercial perpetrada pelas empresas piscatórias da capital.

Antes de partirmos, ainda passamos pela casa de Philippe que, no conforto do estúdio, se mostra pouco preocupado com aquele aparente marasmo civilizacional. A sua arte é o tricot e, numa mesa repleta de novelos de lã coloridos, o francês expatriado dedica-se a finalizar novos cachecóis, xailes e echarpes elegantes que promove numa montra improvisada nas paredes e, online, onde é ele próprio o modelo.

David dizia-nos que interessavam mais ao seu negócio hoteleiro e à cidade os visitantes que lá queriam passar vários dias a usufruir da tranquilidade e da dinâmica cultural, não tanto aqueles que davam a volta à Islândia a correr, em seis ou sete dias. Estávamos a explorar a ilha com alguns mais mas, ainda assim, pertencíamos à última classe. Metemo-nos no carro e despedimo-nos de Seydisfjordur. Até uma próxima oportunidade.

Guias: Islândia+