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À espera da lava

À espera da lava

Habitantes e visitantes de Tanna aguardam nova erupção sobre a cratera do vulcão Yasur.

Tanna, Vanuatu

Daqui se Fez Vanuatu ao Ocidente

O programa de TV “Meet the Natives” levou representantes tribais de Tanna a conhecer a Grã-Bretanha e os E.U.A. De visita à sua ilha, percebemos porque nada os entusiasmou mais que o regresso a casa.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


As infra-estruturas são inexistentes mas as árvores em redor ostentam enormes copas que se encarregam de obstruir o sol tropical. À sua sombra, o pequeno mercado de Bethel resplandece de cor. O Inverno do Pacífico do Sul anunciou-se faz apenas uns dias. Um pouco por toda a ilha, as tangerinas estão prontas a colher e surgem expostas como parte de longos cachos artificiais que as nativas arranjam em redor de estacas. Quase não passam homens neste entreposto comercial improvisado. E os longos vestidos garridos e florais das matronas melanésias destacam-se do cenário verdejante e atraem vizinhas que acabam por se abastecer também de taros, de mandioca, de abacaxis e de enormes toranjas.  

Jimmy Nasse não tem compras a fazer. Está ansioso por mostrar os seus lugares preferidos da ilha e aparece do outro lado da rua para nos resgatar do feitiço étnico que nos retém muito para lá da hora marcada. “Vamos lá amigos, há imenso para descobrir em Tanna. Se se prendem tanto no primeiro lugar em que paramos vai ser difícil levar-vos a todo o lado. E olhem que as estradas não ajudam”.

Aterrámos vindos de Port Vila, ilha de Efate, há duas horas e o fascínio pelo que encontramos é tal que continuamos a adiar a entrada no pequeno Tanna Lodge. De novo a caminho, passamos junto à foz de um rio e à enseada de areia negra que o acolhe. Algumas mulheres banham-se e lavam roupa nos últimos metros de água doce do caudal e o contraste dos tecidos berrantes contra o fundo cinza do solo e o azulão do oceano exigem-nos mais um ligeiro desvio. Jimmy reforça os seus níveis de paciência e começa a habituar-se ao que o espera. Em breve, há-de nos confessar a sua fé Bahai. Conhecemos o templo maior desta religião, situado em Haifa, Israel, e os seus princípios de união das diferentes crenças, da busca da justiça e da paz na Terra. Depressa percebemos que estamos entregues a uma espécie de anjo ni-vanuatu (nativos de Vanuatu).

Instalamo-nos e regressamos à pick up nuns poucos minutos. Jimmy conduz-nos encosta acima em direcção à cascata de Yakel, vencendo uma estrada enlameada que reclama toda a tracção do veículo. Passamos por Nasiroro, uma aldeia formada por centenas de palhotas e com centro espiritual numa grande clareira abrigada por três figueiras-da-India majestosas. É neste nakamal, que somos recebidos por Dena Charlie, o jovem anfitrião encarregue de nos apresentar à aldeia e revelar o caminho para o riacho. O trilho é cruzado por porcos e cães da tribo. Serpenteia entre as palhotas e as árvores mas, quando menos se espera, desce para um vale amplo e verdejante que mais parece saído de um livro antigo de ficção científica. O inglês de Dena está ao nível do bislama nativo e o rapaz semi-nu desempenha o seu papel com um à vontade irrepreensível.

Entretanto, o sol põe-se e Dena abraça-se e queixa-se do frio que começa a incomodá-lo. Nós vestimos t-shirts e continuamos com calor. Dá-nos a sensação que nunca chegou a baixar dos vinte graus mas outros habitantes da aldeia andam já com capotes de palhinha. Quando questionamos Dena sobre a vulnerabilidade dos nativos àquelas temperaturas, este justifica-se com elegância e boa-disposição. “Pois é, somos diferentes em tanta coisa. Já devem ter reparado na forma dos nossos pés, certo? Os vossos são bem mais estreitos e achatados e muitos ocidentais acham piada aos nossos. Outra distinção está na resistência ao frio. Aqui, com esta temperatura, ficamos todos a tremer.”

Em seguida, e como parte do protocolo tribal leva-nos à cabana do chefe da aldeia Yakel. Kauia tem 111 anos e combateu a invasão japonesa na 2a Guerra Mundial. Como a idade justifica, encontramo-lo bastante enfraquecido, deitado sobre uma cama de bambu e subsumido na escuridão fumarenta do interior da palhota.

Trocamos algumas palavras mas o chefe mostra-se demasiado débil e surpreso. Dena relembra-nos que a sua vida é das mais longas que há em Vanuatu, em toda a Melanésia e, segundo lhe dizem, no mundo. Conta-nos ainda que Kauia foi um dos chefes que protagonizaram a formação do mito do Príncipe Filipe.

A Enigmática Fé De Tanna Na Realeza Britânica

Por alguma razão, a tribo Yahohnanen começou a acreditar que o Príncipe Filipe, Duque de Edimburgo e consorte da rainha Isabel II era um ser divino, filho de Keraperamun, o deus da montanha mais elevada de Tanna. E também que tinha, em tempos, viajado a uma terra distante, casado com uma mulher poderosa e que regressaria. Esta ideia foi reforçada quando os nativos observaram a reverência com que os oficiais coloniais britânicos tratavam a rainha Isabel II. Mais tarde, em 1974, o casal real visitou as Novas Hébridas e os nativos puderam observar o príncipe Filipe que os impressionou ainda mais do que nas imagens que antes haviam visto.

O príncipe não conhecia o culto mas foi dele informado pelo comissário residente que sugeriu que enviasse uma fotografia sua após o regresso à Grã-Bretanha. Filipe seguiu o conselho. Quando a fotografia chegou, os aldeões retribuíram oferecendo-lhe um bastão tradicional nal-nal. E o príncipe enviou uma nova fotografia sua empunhando aquele bastão.

Essas fotografias foram guardadas pelo chefe Jack Naiva e ajudaram a prolongar o culto. De tal forma que, em 2007, o Channel 4 da BBC criou Meet the Natives uma espécie de reality show protagonizado por um grupo de nativos pertencentes ao Prince Philip Movement de visita à Grã Bretanha. O seu périplo culminou num encontro com o príncipe em que foram trocadas prendas incluindo mais uma fotografia de Filipe. E acabou a revelar a felicidade indisfarçável dos nativos por voltarem à sua amada Tanna que os recebia em festa, mesmo depois de terem revisto o seu messias e descoberto as maravilhas civilizacionais do Ocidente. Enquanto descemos de Yakel para a beira-mar, Dena Charlie e  Jimmy Nasse acrescentam pormenores sórdidos em redor dos cultos que contemplam desentendimentos entre as tribos.

Mas depressa chegamos a novos lugares imperdíveis e passam a transmitir-nos outras informações. Inspeccionamos a enseada idílica de Port Resolution, em que ancorou, em 1774, o navio homónimo de James Cook. Passamos ainda por White Sands, uma praia invadida pela vegetação tropical luxuriante, com grandes areais brancos em que brincam e pescam dezenas de crianças visivelmente felizes no seu paraíso melanésio.

Ao Ritmo de um Pequeno Vulcão

Dali, dirigimo-nos ao monte Yasur, a principal expressão vulcânica de Tanna. Jimmy Nasse conduz-nos por cursos de água com pequeno caudal que usa como atalho. Pelo caminho vemos manadas de cavalos selvagens que vagueiam na planície forrada por feno tropical, passamos por mulheres que regressam do mercado e por um grupo de homens que acaba de sacrificar uma vaca.

A determinada altura, chegamos a um ponto elevado que nos revela a vastidão florestal predominante e a ilha de areia e cinza nela aberta pelo vulcão. Depois, regressamos à planura e entramos nesta área de aparência desértica e inóspita decorada, aqui e ali, por plantas e arbustos exóticos isolados.

Aproximamo-nos da encosta do Yasur e encontramos miúdos que rejubilam a exibir-nos a sua arte de descer a vertente sentados em tobogãs feitos de troncos de coqueiros. Contornamos aquela enorme rampa arenosa para chegarmos ao ponto de acesso mais fácil à cratera, situada a uns meros 361 metros de altitude. A meio desse trilho, damos com a caixa de correio emblemática do vulcão em que, mesmo algo receosos, depositamos dezenas de postais. Quando chegamos ao topo, o sol está prestes a pôr-se e o vento muda frequentemente de direcção e pulveriza gases tóxicos sobre os forasteiros e nativos em redor do cume. O ocaso pinta de laranja as nuvens e o fumo disperso e serve de introdução aquele que é o espectáculo mais esperado.

Com o lusco-fusco já instalado, dá-se finalmente uma primeira erupção que projecta para os ares um repuxo profuso de lava incandescente. As erupções do Yasur são estrombolianas e quase regulares. Conscientes desse facto, aguardamos pelo cair da noite e pela próxima, mas Jimmy respira já com alguma dificuldade, vítima de um contacto quase diário com o gás sulfuroso. E nós, desprovidos de máscaras realmente eficazes, também começamos a sentir alguma irritação dos olhos e dos brônquios. Concordamos em descer para a segurança da Sulphur Bay. O dia tinha sido longo e, na manhã seguinte, esperava-nos uma visita ao santuário de outra das intrigantes personagens messiânicas de Tanna.

À Espera de John Frum e do Seu “Cargo”

As Novas Hébridas ainda eram governadas em condomínio pelos franceses e pelos britânicos quando se falou, pela primeira vez, de John Frum. Segundo os primeiros testemunhos, um nativo de nome Manehivi, (entretanto mais conhecido por John Frum) começara a aparecer aos anciãos da ilha trajando um fato ocidental e dizendo que iria dotar os nativos de casas, roupa e meios de transporte. Uma versão do mito interpretou esta personagem como um espírito induzido pelo consumo excessivo de kava (uma bebida sedativa e anestesiante tradicional do Pacífico do Sul, feita a partir de uma planta), outra defendia que se tratava de uma manifestação de Keraperaum. Fosse o que fosse, John Frum prometia o despontar de uma nova era em que todos os brancos, incluindo missionários  abandonariam as Novas Hébridas deixando aos melanésios o acesso à riqueza material de que os colonos usufruíam.

Para que isto acontecesse, o povo de Tanna teria apenas que rejeitar todos os aspectos da sociedade europeia (dinheiro, educação, Cristianismo, trabalho nas plantações de copra etc.) e regressar aos princípios kastom (tradicionais) da sua.

Por volta de 1940, os seguidores de John Frum começaram a livrar-se do seu dinheiro. Deixaram as missões, escolas, aldeias e plantações e mudaram-se para o interior onde participaram em festins e outros rituais.

As autoridades europeias procuraram prender os líderes do culto e exilá-los para outra ilha. Nesse mesmo ano, chegaram às Novas Hébridas 300.000 tropas norte-americanas preparadas para reconquistar o Pacífico aos Japoneses e portadoras de enormes quantidades de equipamento e outros bens a que os locais chamaram simplesmente “cargo”.

Com o fim da 2a Guerra Mundial, os norte-americanos partiram e levaram consigo a maior parte desse “tesouro”. Insatisfeitos, os seguidores de John Frum construíram pistas de aterragem simbólicas para encorajar os aviões a voltarem e a trazer-lhes mais “cargo”. E o culto deu também origem a um movimento politico que se opôs à formação do estado independente de Vanuatu por achar que um governo centralizado só iria favorecer a modernidade do Ocidente e o Cristianismo.

A crença mantém-se activa. O Chefe Isaak Wan Nikiau - o líder - declarou à BBC: “John Frum é o nosso deus, o nosso Jesus. Um dia vai regressar”. O aspecto desta personagem mitológica não é, todavia, consensual. Dependendo do crente em questão, poderá tratar-se de um ni-vanuatu, de um branco, ou de um GI norte-americano. Na realidade, para os crentes e outros nativos, tanto faz. Até que a profecia se cumpra, com ou sem o “cargo” devido, a vida continuará a florescer em Tanna.

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