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Visitante bangladeshiana do Dawki fotografa o fotógrafo forasteiro.

Dawki, Índia

Dawki, Dawki, Bangladesh à Vista

Descemos das terras altas e montanhosas de Meghalaya para as planas a sul e abaixo. Ali, o caudal translúcido e verde do Dawki faz de fronteira entre a Índia e o Bangladesh. Sob um calor húmido que há muito não sentíamos, o rio também atrai centenas de indianos e bangladeshianos entregues a uma pitoresca evasão.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A determinada altura, a estrada desemboca no limiar das terras altas de Meghalaya. Mirra e mostra-se gasta. Faz-nos mergulhar em ganchos contra ganchos. Alguns esses depois, reparamos à flor da pele o quanto a temperatura e a humidade tinham aumentado e como a vegetação se adensara e se tornara enleada e tropical.

Quase não passamos por outros veículos. No entanto, 80km e quase 2h30 após a partida matinal, damos connosco em novo pesadelo de tráfego.

O rio Dawki fluí logo abaixo. Condutores e passageiros impacientes deixam os carros. Descem e voltam a subir a rampa apostados em perceber o que gerava aquele caos. Alguns, mais pro-activos, apostam até em resolvê-lo. Em vão.

Na sua paz de espírito contagiante, Sharma processa a nova realidade e comunica-nos os procedimentos aconselhados. “Vai demorar até sairmos daqui. De qualquer maneira, a ponte está próxima. Se não se importarem, é melhor continuarem a pé.”

Já meio saturados da viagem, não hesitamos. Resgatamos as mochilas e pomo-nos a caminho. Somos os únicos europeus por aqueles lados. A nossa súbita aparição surpreende os nativos. Suscita sucessivos comentários, convites para conversas e, claro está, para selfies.

No entretanto, a floresta abre. Concede-nos o vislumbre de uma planície aluvial nevoenta. À distância, para sul, o rio e o seu leito que a época seca fizera mingar serviam de base a uma multitude de vultos negros deambulantes, à laia de colónia formigueira em debandada. No imediato, víamos o desfiladeiro em que o Dawki fluía, apertado e verdejante, antes de se espraiar nessa inusitada imensidão.

Uma frota de barcos a remos artesanais ocupava a margem de cá. Alguns dos seus donos faziam embarcar turistas, outros aguardavam ou zarpavam. Outros ainda, aproveitavam o interregno para se lavarem no Dawki com um empenho e vigor quase religioso, indiferentes às razias que os colegas remadores em serviço lhes faziam.

Toda aquela azáfama fluvial intrigava-nos. Apanhados pelo feitiço do exótico desconhecido, esquecemo-nos que Sharma já por certo nos procurava.

Damos com a entrada para uma grande ponte de ferro com perfil militar sobre o Dawki. Dois polícias enfiados em uniformes mostarda e imbuídos de espírito de missão alertam-nos para o facto de a ponte ser fronteiriça, estratégica e de que, como tal, não podíamos fotografar. Mas, estamos munidos de documentos do Governo Indiano. Atestam-nos como mais que turistas. Validam uma necessária excepção, com a promessa de que só iríamos fotografar a partir da ponte, não a estrutura em si. Avançamos. Espreitamos a acção abaixo e para montante por entre a grelha enferrujada. Pescadoras à sombra de chapéus cónicos alternam a atirar e a recolher as suas linhas. Passageiros de barcos de recreio detectam-nos e acenam entusiasmados. Até que os polícias nos voltam a abordar. “Desculpem mas as pessoas não estão a querer perceber porque é vocês podem e elas não. Já lhes tentámos explicar, até por as vossas máquinas serem bem maiores que os telemóveis deles. Mesmo assim, dois ou três chatos não nos largam. Se pudessem acelerar o vosso trabalho, agradecíamos.”

Aceitamos a inquietação. Malgrado a postura quase militar dos agentes, acabamos os quatro a rir juntos. Após o que terminamos de cruzar a ponte e seguimos pelo sopé de uma vertente mais íngreme que a oposta. Pensávamos que por ali encontraríamos as infraestruturas da aduana. Não foi ainda o caso. Receamos estarmos a entrar no Bangladesh e a metermo-nos em sarilhos. Mesmo assim, continuamos.

Num recanto sombrio, a estrada desvenda-nos o lugar em que o rio deixava o desfiladeiro, o limiar em que, num meandro inesperado, se rendia à vastidão arenosa e vaporosa que tínhamos entrevisto do cimo da margem oposta. Nas nossas mentes, a Índia ficara para trás. De outra forma, qual o sentido da polícia, dos avisos e da barreira na ponte militar.

Reaproximamo-nos do Dawki. Encontramos uma profusão de vendas, de chamuças, de pani puri (um petisco popular nas ruas da Índia), de outros comes e bebes, de vestuário e de uma tralha diversificada Made in China.

Para diante, a turba balnear mais exuberante que alguma vez testemunhámos preenchia uma praia surreal. Dela destacado, um militar de apito e bastão em riste, procurava manter uma ordem que falhávamos em compreender.

Mesmo reticentes, avançamos em direcção ao rio, não tarda, pelo meio da multidão que nos estranha.

As mulheres vestem os seus melhores trajes: saris garridos e lustrosos, hijabs e dupattas a combinar com longos salwars, algumas com pendentes tikka ou maang tikkas a enfeitar as cabeças, em conjuntos tão exuberantes como os hindus. Os homens, por sua vez, partilham uma moda despejada do tradicionalismo de outros tempos. Só um ou outro trazem túnicas kurtas ou thobes e usam solidéus tupi a condizer.

Não é que faltem rios ou água nem à Índia nem ao Bangladesh que, além do Dawki, partilham os imponentes Ganges e Bramaputra (que se unem no Padma), entre outros. Intuímos que o que levava toda aquela gente a ali se reunir, era o facto de conviverem e se refrescarem sobre a emblemática fronteira, à laia do que foram (serão ainda?) as incursões de Elvas a Badajoz, de Vila Real de Santo António a Ayamonte e tantas outras por essa raia luso-espanhola fora.

O lugar que as acolhia ficou conhecido como o Zero Point de Jaflong. Jaflong popularizou-se no imaginário dos bengalis como uma hill station idílica cercada por floresta tropical e  plantações de chá e pela predominância da etnia khasi, a mesma que encontrámos em Shillong e restante estado de Meghalaya. Isto, até a ganância se instalar.

A planície aluvial dos rios Dawki e Goyain escondia um filão pedras. Não as pedras preciosas que seria normal supormos, meras pedras comuns. Por aqueles lados em que os rendimentos são tão parcos, os nativos aperceberam-se que se as extraíssem e esmagassem de sol a sol e as vendessem para transformação em cimento, lucrariam bem mais que com os seus anteriores afazeres.

Este estímulo financeiro atraiu milhares de mineiros espontâneos que ocuparam terras do estado e até parte de uma reserva natural. Abriram valas e esventraram a paisagem ao ponto de forçar o governo de Daca a intervir e a forçar a reflorestação de vários sectores da área destruída, longe de a recuperar na íntegra.

Tudo isto se passara e continuava a passar umas centenas de metros para jusante. Ali, no tal de Zero Point, só o sabão usado por algumas lavadeiras instaladas em ilhotas de seixos manchava o Dawki. A inundação de visitantes chegados da Índia e do Bangladesh enchia-o sobretudo de cor, de boa-disposição e de selfies e fotos de família, parte tiradas com simples smartphones, muitas, a cargo de fotógrafos profissionais que palmilhavam a zona a impingir os seus serviços. Com o objectivo de atrair mais clientes, um destes empresários mantém, sobre a água, um cadeirão cénico amarelo-torrado, junto a vendedores de postais, de amendoins, de saladas chaat de grão, de paani puri e afins.

Longe de convidar ou poder proporcionar banhos, o Dawki molha apenas os pés aos visitantes. Alguns, ficam-se pelos metros inaugurais. Outros, aventuram-se quase até meio do caudal raso. A movimentação lateral dos veraneantes continuava, todavia, limitada, o que nos remete para o militar de bastão em riste e para as suas intrigantes funções.

Enquanto linha fronteiriça, o Zero Point de Jaflong era guardado. Reparamos mais tarde num posto de controle camuflado, elevado sobre uma plataforma feita de seixos. Dois militares indianos, Man Mohan Singh e S. Saj Kumar - revezavam-se entre de lá controlarem os acontecimentos e, a partir da beira-rio, as deambulações da populaça. Tanto um como o outro pareciam identificar sem dificuldade quem vinha da índia e do Bangladesh

Metemos conversa com S. Kumar. Este, incha ao ver o seu protagonismo redobrado. Ignora os esperados bom-senso e recato militares e autoriza que o fotografemos tanto connosco como só. Perguntamos-lhe o que controlava, afinal, com o seu apito e o bastão. Kumar, um soldado de etnia tamil, deslocado do sul da Índia, explica-nos tudo ao pormenor: “Estão a ver ali a casinhola? E aquela rocha grande? Então, a fronteira é uma linha imaginária que vem de lá de cima, passa pela rocha e segue caudal adentro até à outra margem. O que eu tenho que fazer é impedir que os indianos passem para o lado do Bangladesh e os bengalis para o lado da Índia.”

Tanto ele como Singh levavam a missão a sério. Mal um popular trespassava a fronteira intangível, os militares apitavam, erguiam o bastão e descompunham-no. Se a infracção se repetia, agravavam a reprimenda com ameaças de expulsão. Também connosco assim começou por ser. Mas, quando se inteiraram do que éramos e do que fazíamos, os guardas passaram a ignorar as incursões que forçámos, cada vez mais transgressoras, ali sim, já a terras de Bangladesh.

Na origem, território da província indiana de Bengala Oriental, o Bangladesh surgiu da dolorosa Partição da Índia de Agosto de 1947. Foi uma das duas novas nações (sendo a outra o Paquistão) criadas à pressa para acomodar os muitos milhões de muçulmanos sem lugar na Índia, fruto da crescente incompatibilidade com a maioria hindu.

Os anos sucederam-se. Segundo nos afiançam os militares,  “salvo o problema da emigração ilegal de bangladeshianos para norte que a Índia falha em controlar, temos uma relação se não for cordial, pelo menos aceitável.” Era, de facto assim, que a escolheríamos classificar após boa parte da tarde passada entre “vizinhos” hindus, cristãos de Meghalaya e muçulmanos do Bangladesh.

Abalados pelas várias horas sob o sol tropical e por toda àquela comoção balnear, damos connosco extasiados, esfomeados e com sede. Regressamos à estrada onde Sharma nos esperava. Pelos nossos ares, o motorista intui de imediato o que queríamos. Minutos depois, estamos sentados à mesa de um restaurante à sombra de uma plantação de palmeiras-de-areca. Mesmo explosivo de picante, devoramos o menu thali de peixe que, àquela hora tardia ainda nos serviram. Voltamos ao carro. Acabamos o dia a explorar mais dos domínios rugosos, verdejantes e indianos para montante do Dawki.

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