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Bar sobre o grande estuário

Bar sobre o grande estuário

Vida nocturna num bar com vista para o estuário e a Sydney Harbour Bridge.

Sydney, Austrália

De Desterro de Criminosos a Cidade Exemplar

A primeira das colónias australianas foi erguida por reclusos desterrados. Hoje, os aussies de Sydney gabam-se de antigos condenados da sua árvore genealógica e orgulham-se da prosperidade cosmopolita da megalópole que habitam. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Kings Cross é a primeira zona da cidade com que se depara grande parte dos forasteiros que chegam pouco dispostos a pagar mais que umas dezenas de dólares por cada noite dormida. Salvo a saída e o trajecto arejado a partir do aeroporto, foi também a nossa visão inaugural e surreal da Austrália. Durante a tarde, percorremos o bairro de trás para a frente sob um sol que nos torrava a pele e cansava a dobrar mas animava as almas fartas da meteorologia enregelante de Seul.

Disputámos com jovens de todas as paragens possíveis as últimas vagas nas pousadas humildes do bairro já apetrechado para mais um Verão em cheio. Mal o lusco-fusco se instalou, Kings Cross trasvestiu-se para o modo nocturno. Passaram a percorrê-la bêbados, drogados, prostitutas e chulos, incontáveis personagens marginais de Sydney. Como acontece em toda e qualquer urbe, encontravam ali o seu nicho social entre bares de alterne, sex shops, peepshows, casas de showgirls, lojas de bebidas alcoólicas e um franchise oportunista de MacDonalds que alimentava a baixo preço e esclerosava aquela artéria já de si disfuncional da cidade.

Pareciam-nos de tal maneira lunáticos, improváveis e proscritos pela própria vida os transeuntes com que nos cruzávamos que demos por nós a ceder ao peso da história colonial britânica para tentarmos explicar a sua inesperada presença e abundância. Não queríamos de maneira nenhuma ser negativos e ignorar a importância cultural do bairro que acolheu nos seus clubes musicais e ajudou a lançar para o estrelato bandas australianas tão marcantes como os Go-Betweens e Nick Cave, entre tantos outros. Mas estariam ali concentrados os genes dos convictos ingleses mais desviados que povoaram os fundos enigmáticos do mundo?

Após a declaração da Independência dos E.U.A., em 1776, a Grã-Bretanha deixou de poder enviar os seus reclusos para o outro lado do Atlântico. Inundados de prisioneiros, os governantes decidiram fundar um novo entreposto penal nas terras descobertas por James Cook, cerca de dezasseis anos antes.

O assentamento inaugural teve lugar em Sydney Cove. Fez-se com base em estabelecimentos prisionais erguidos em terras da tribo aborígene Eora. Em 1792, eram apenas 4300 os reclusos britânicos desterrados mas mais de metade da população nativa da zona (4 a 8 mil indígenas)  já fora dizimada por uma epidemia de varíola disseminada pelos prisioneiros.

Quem hoje visita Sydney, não demora a fazer-se ao litoral do seu Harbour privilegiado que ainda nos tempos da expansão, o capitão Arthur Phillip e outros homens do mar logo catalogaram como um dos melhores estuários que alguma vez tinham visto.

Comprámos alguns rolos generosos de sushi à entrada da estação de metro e almoçamos em movimento, tarde e a más horas. Partilhámos a carruagem de dois andares com um grupos de amigos surfistas louros e tagarelas, eles, a caminho do éden balnear de Bondi Beach. Saímos entre os quase arranha-céus do Central Business District (CBD), a umas poucas centenas de metros das águas bem mais interiores e calmas de Circular Quay.

Um saltimbanco ganhava a vida a exibir malabarismos com chamas sobre um enorme monociclo que pedalava na penumbra gerada por uma estrutura rodoviária metálica. Mais para diante, uma dupla de aborígenes quase despida e pintada a rigor faziam o mesmo, no seu caso, a tocar longos temas hipnóticos de digeridoo embrulhados em distintos ambientes house. “Obrigado, amigos. Cheguem lá mais perto, não vos vamos morder! A não ser que se pareçam com um canguru, claro!” anuncia um deles com forte sotaque ozzie em busca da audiência e dos dólares que trocavam pelos seus CD’s musicais.

Da era aborígene à contemporânea muito mudou no panorama étnico da Austrália. Sydney, em particular, tornou-se a sua cidade mais internacional e multicultural. Vivem em redor de 55.000 habitantes com ascendência aborígene na cidade, vindos dos quadro cantos da grande ilha. Hoje, dos seus quase cinco milhões de cidadãos, mais de 1.5 milhões nasceram noutras paragens não australianas do mundo, uma tendência imigratória que se estabeleceu após o fim da 2ª Guerra Mundial e se continua a intensificar com forte contribuição dos neozelandeses, dos chineses, indianos, vietnamitas, coreanos e filipinos, ainda dos libaneses, italianos e gregos. Em Sydney, são faladas 250 línguas. Um terço dos habitantes domina outra que não o inglês.

Enquanto caminhávamos ao longo das ruas comerciais de Pitt, York e George revelavam-se tão predominantes os asiáticos que mais parecia que estávamos em Hong Kong. Mas o cúmulo da asienação de Sydney chegou-nos aos ouvidos quando o dono de olhos em bico de um estabelecimento se indignou perante a nossa resistência de ficarmos com um troco aldrabado: “That’s lubish!” atirou o pequeno empresário recém-chegado no seu inglês ainda indómito.

Por aqueles lados ou onde quer que fosse, apreciávamos como quase todos os sydneysiders aproveitavam a generosidade do clima da zona. Os executivos do CBD e empregados dos bancos combinavam camisas de manga-curta e até calções com gravatas pouco apertadas que impingiam um mínimo de cerimónia profissional. Após as quatro ou as cinco da tarde – o limite bem vespertino dos horários de trabalho - em vez de se enfiarem em casa, juntavam-se aos magotes a emborcar cerveja em pubs ou ao ar livre ou saíam para correr ou andar de bicicleta nos seus parques e jardins vastos, floridos e solarengos preferidos, dispostos em redor das muitas baías e penínsulas daquela urbe meridional. Como havíamos já constatado no metro, adolescentes despreocupados trajavam camisas floreadas ou andavam - a pé ou de autocarro - de tronco nu e chinelo a trocar a sua bola de râguebi ou com pranchas de surf e bodyboard, consoante o desporto que mais os cativasse.  

Não nos atrevemos a contradizer a noção de que, devido ao seu isolamento geográfico e à obsessão pelo desporto, pelo convívio alcoolizado pela evasão para a natureza oceânica e do Outback, a Austrália será um grande deserto, também cultural, de população anglófona hedonista, avessa à estratificação de classes e pouco polida. Acredita-se que tal se deve ao facto de descender tanto dos reclusos como dos militares que controlaram as operações coloniais até ao princípio do século XIX. A pagarem o trabalho e os produtos locais em rum e, por isso, alcunhados de Rum Corps, esses muitos soldados desafiaram e suplantaram a autoridade de três dos primeiros governadores da colónia. Um deles chamava-se William Bligh, tornado notório por uma não menos famosa revolta taitiana na Bounty.

Mas, se existem lugares que procuram erradicar a aspereza civilizacional da nação, Sydney é um deles. A impressionante Opera House continua na vanguarda desta missão. Encontrámo-la pela frente após passarmos pelos ancoradouros sempre movimentados de Circular Quay e pelos edifícios seculares de The Rocks que albergaram os primeiros reclusos e seus guardiães, hoje preservados enquanto lojas, galerias de arte, cafés e pubs.

Em 1973, quando foi inaugurada, a Opera House suscitou enorme polémica mais que não fosse por ter custado 109 milhões de dólares quando havia sido orçamentada em sete milhões. Foi esse o preço da sua arquitectura destemida, interpretada como velas brancas ao vento, carapaças alvas de tartarugas, conchas marinhas e bossas de camelos, de qualquer das maneiras, logo promovida ao grande símbolo de Sydney, palco de exploração exaustiva de quase todos os visitantes da cidade e também de cerca de 3000 eventos anuais de diversas artes.

Enquanto a admiramos, reparamos que dezenas de vultos caminham nas alturas do cimo da Sydney Harbour Brigde, com vistas deslumbrantes para a Ópera House e o estuário sem fim. Sem surpresa, apesar da distância para o resto do mundo Sydney é uma das suas quinze cidades mais visitadas. Recebe, por ano, cerca três milhões de visitantes internacionais, quase metade dos da Austrália. Destes, um bom número apercebe-se da prosperidade e qualidade de vida única oferecida pela cada vez maior megalópole da Oceânia, retornam e instalam-se de vez. Já lá aterrámos em duas ocasiões e nunca nos aconteceu.