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Guia Mob

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Guia da cidade vestido ao estilo dos anos 30 conta curiosidades históricas de Napier a visitantes.

Napier, Nova Zelândia

De Volta aos Anos 30

Devastada por um sismo, Napier foi reconstruida num Art Deco quase térreo e vive a fazer de conta que parou nos thirties. Os seus visitantes rendem-se à atmosfera Great Gatsby que a cidade encena.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Bertie não tem mãos a medir. Devora uma fatia de bolo de chocolate e solta um “Let’s Go!” entusiasta que nos faz levantar de imediato. Caminhamos até ao seu carro e constatamos como, do nada, volta a atrair a atenção dos transeuntes com o chapéu panamá, o fato preto e amarelo listado, os sapatos bicolores spectator e as poses e expressões charleston e swing  que aprimora com recurso a uma bengala ornamental. Terminada nova sessão fotográfica, senta-se ao volante do coupé vintage verde-amarelo, arranca, e saúda quem ficou trás com buzinadelas exuberantes. Cada vez nos custava mais a acreditar que estávamos perante um ex-contabilista, uma impressão semelhante à que John Cocking, o homem por detrás da personagem, conserva de si.

Agora com 66 anos, este brit inconformado começou a trabalhar aos 16. Aos 22, tinha conquistado o diploma de CPA (Certified Public Accountant) e preparava-se para fazer fortuna quando percebeu que não tinha interesse naquele projecto. A sua vida deu voltas e mais voltas e acabou por o levar à longínqua Nova Zelândia e a Napier, uma cidade também ela peculiar.

A 3 de Fevereiro de 1931, um tremor de terra com magnitude de 7.8 arrasou Napier. A catástrofe obrigou as autoridades a reverem o código urbanístico da cidade, desadequados ao risco sísmico da zona. As ruas foram alargadas e os novos edifícios erguidos, por norma, apenas com dois andares.

Até à época, o Art Deco fora o estilo de construção popular mas a recuperação coincidiu com a Grande Depressão quando, depois do fenómeno Empire State Building, pouco ou nenhum  desenvolvimento citadino significativo era realizado.  Os arquitectos responsáveis aproveitaram o vazio e projectaram Napier com influências simplificadas das linhas de Frank Lloyd Wright e dos edifícios das missões espanholas. O resultado revelou-se único.  

Durante as décadas de 60 a 80, alguns dos edifícios Art Deco foram substituídos por outros contemporâneos mas a maior parte permaneceu intacto o tempo suficiente para se destacar. A partir de 1990, o centro foi restaurado e protegido e, em 2007, a UNESCO nomeou-o Património Mundial, o primeiro lugar cultural da Nova Zelândia a conquistar o estatuto. Como valor acrescentado, desde então, só uma outra cidade à face da Terra, Miami Beach - que foi erguida num estilo Art Deco Streamline Moderne - rivaliza com Napier.

A meio da década de 80, alguns residentes fundaram o Art Deco Trust de Napier. Um mero folheto por eles criado conseguiu que mil e tal pessoas participassem num passeio guiado pelas ruas do centro e as autoridades regionais fizeram questão de se juntar ao esforço. Aos poucos, muitos mais milhares de fãs obcecados da arquitectura começaram a querer descobrir a cidade.

Graças às iniciativas do trust, Napier lucra, hoje, 1.14 milhões de euros com os seus edifícios mas continua a tentar aumentar o espectro de admiradores. John “Bertie” Cocking tornou-se no seu principal trunfo. 

Já a habitar na Nova Zelândia, Cocking estava mais farto que nunca da contabilidade e desabava com David Dale - um amigo – que devia haver alguma coisa em que fosse perfeito e que o pudesse salvar. Ao que Dale respondeu “bom, eu acho que darias um óptimo Manoel” (empregado barcelonense da série britânica “Fawlty Towers”).

John Cocking seguiu o conselho. Estudou o papel e começou a representá-lo em restaurantes neozelandeses. Pouco depois, a proprietária de um restaurante de Auckland contratou-o a tempo inteiro e Cocking deixou de vez os balanços. Entretanto, criou e adaptou novos papéis. Foi com um deles, Bertie, que, em 1995, propôs a Napier os seus serviços de actor, sugerindo que se tornasse numa espécie de delegação de turismo andante. A ideia agradou de imediato ao city councilor que sentiu que a personagem incorporava a alma histórica da cidade. Sem mais hesitações, o edil nomeou Bertie embaixador de Napier e atribuiu a Cocking um salário condigno.

A relação do Art Deco Trust local com Bertie evoluiu para uma forte dependência e, apesar de hoje Cocking já não ser pago (provavelmente porque beneficia de outras formas de rendimento mais proveitosas) é o seu alter-ego quem introduz, mobiliza, anima e promove as excentricidades Art Deco de Napier.

Ao longo do ano, anfitriões trajados segundo a moda daquela época conduzem passeios guiados pelos pontos chave da arquitectura e passado da cidade. Figurantes, músicos, cantores e outros actores reencenam-no nos seus bares, praças e jardins. Pequenos empresários aproveitaram a embalagem e abriram lojas especializadas em vestuário, mobiliário, música, pintura e fotografia da altura. Também eles vestem roupa a condizer e dão a sua contribuição. Enquanto exploramos as ruas e edifícios mais emblemáticos da cidade,  cruzamo-nos ainda com condutores ao volante de  carros vintage que recebem subsídios para circularem por Napier.

O apogeu deste espectáculo já orgânico é o Geon Art Deco Weekend. Realizado num fim de semana de Fevereiro, o festival concentra mais de 200 eventos, centenas de calhambeques dos anos 20 e 30, acrobacias aéreas, concertos de jazz, bailes,  piqueniques etc. Gera uma verdadeira febre Great Gatsby porque se deixam contagiar convivas dos quatro cantos do mundo. São milhares de femmes fatales sob chapéus cloche, peles felpudas e vestidos charmosos que fumam por grandes boquilhas, e outras tantas encarnações festivas de Jay, a personagem ofuscante do romance de F. Scott Fitzgerald.

Muitos deles exibem visuais e comportamentos fidedignos mas John Cocking não faz mais nada na vida. Bertie e o seu ocasional par feminino depressa reclamam as luzes da ribalta.

Seguimo-lo à boleia num Austin Seven grená conduzido por uma senhora enfiada num vison chique e, de quando em quando, voltamos a ouvir as buzinadelas inconfundíveis do embaixador. Atrás de nós, sete outros carros históricos completam o cortejo, todos guiados por figuras imaculadas dos anos 30.

No fim de um percurso sinuoso, a comitiva estaciona alinhada de frente para um grande cruzeiro atracado no porto de Napier. Seguem-se momentos de espera e diálogo. Tripulantes de distintas nacionalidades e etnias desembarcam e começam a inspecionar os carros e a interpelar os proprietários. Aos poucos, centenas de passageiros chegam de autocarro do centro de Napier, enriquecem o convívio e tiram fotos incontáveis de si próprios junto aos calhambeques e aos seus proprietários. Os leigos em mecânica fazem perguntas e comentários triviais sobre os anos de fabrico e a estética. Mas outros são entendidos na matéria. Questionam o posicionamento das válvulas, cilindros e pistons e os donos abrem-lhes as capotas sem cerimónias, incentivando inspecções minuciosas. Seguimos e fotografamos aquela curiosa Feira Automóvel com interesse redobrado e, a espaços, conversamos com alguns dos participantes.

Barry Price é um dos mais recatados mas assume as suas posições sem rodeios: “Eu moro a 60 km de distância e o dinheiro que me pagam mal chega para o combustível que este menino desbarata ... mas já não tenho idade para me chatear com essas coisas. Venho porque gosto e nos divertimos”.

Entretanto, os Twin City Stompers instalam-se contra um contentor e dão mais sentido às suas palavras. Munidos de um trombone, um contrabaixo, um bandolim e de um megafone que amplifica e encaixota a voz do vocalista, os músicos tocam “When you’e Smilin”, “All of Me” e outros temas famosos da época da reconstrução de Napier enquanto os passageiros regressam ao cruzeiro e preenchem as suas varandas. São trocados acenos prolongados. E, à medida que o grande barco se afasta da doca em direcção à Austrália de hoje, deixa Napier entregue ao passado glamoroso que os seus anfitriões continuam a renovar.