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Radical 24h por dia

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Saltadora de bungy jumping balança pendurada de uma plataforma, enquanto a noite cai sobre Queenstown.

Queenstown, Nova Zelândia

Digna de uma Raínha

No séc. XVIII, o governo kiwi proclamou uma vila mineira da ilha do Sul "fit for a Queen". Hoje, os cenários e as actividades extremas reforçam o estatuto majestoso da sempre desafiante Queenstown.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Antes de dar início à descolagem, Peter, o piloto destacado, avisa com um sotaque kiwi cerrado: «Não vos vou perguntar o que querem sobrevoar. Vão ver que é tudo especial.»

De facto, mal o pequeno Cessna ganha altitude, começa a desvendar-se o vale verdejante em redor de Queenstown e, com ele, a  vastidão azulada do lago Wakatipu. Aos poucos, os picos gelados dos Remarkables definem-se contra o céu. Do interior, em direcção ao Pacífico, sucedem-se mais e mais montanhas e lagos em que o sol, demasiado ténue para degelar a neve dos picos, reforça os tons dourados.

Surge, por fim, o Mar da Tasmânia. Invade o espaço até então absoluto da cordilheira, em braços profundos dos quais se projectam penhascos verticais, uns cobertos de vegetação rasa, outros demasiado polidos para acolher qualquer forma visível de vida. Quedas de água gentis que se adiam por centenas de metros precipitam-se do topo das ravinas até se dissiparem nas rajadas de vento ou se afundarem no mar.

Estamos no sudoeste da ilha do sul da Nova Zelândia. Durante quase uma hora, este voo arrojado de avioneta revelou-nos as paisagens únicas em redor de Queenstown.

Não foram só os cenários imponentes que tornaram esta cidade famosa. Até à moda do radical pegar, a maior emoção proporcionada pela pequena colónia tinha sido a sentida por dois tosquiadores de ovelhas quando, em 1862, encontraram ouro nas margens do rio Shotover e provocaram um forte influxo de prospectores profissionais.

Um ano depois, o ajuntamento tinha-se tornado numa vila mineira com uma população de vários milhares. Algures por essa altura, o governo da Nova Zelândia vistoriou-a e proclamou-a “fit for a Queen”. Dessa forma oficial, deu o mote para o seu nome definitivo.

Nos dias que correm, mais que pronta para acolher qualquer realeza, Queenstown transformou-se num domínio indisputado da adrenalina teenager.

O bungy jumping ali nasceu em termos comerciais, desenvolvido nos anos 80 por um kiwi irrequieto de  nome Alan John Hackett.  AJ cresceu em Auckland, a capital da ilha do norte, onde frequentou a Westlake Boys High School, que deixou aos 16 anos para se dedicar ao snowboard, ao esqui e tantas outras actividades radicais que o iam atraindo. Inspirado na cerimónia Naghol da ilha de Pentecostes, em Vanuatu e nos saltos praticados na década de 1970 pelo Oxford University Dangerous Sports Club, AJ desenvolveu uma espécie de super-elástico. Demonstrou-o com impacto apenas mediático, quando se lançou do interior da torre Eiffel, em 1987, sem qualquer aviso ou autorização, para logo ser detido pela polícia, de blazer e calças camufladas.

Já algemado, AJ foi interpelado por um repórter gaulês que lhe perguntou se achava que ia ter problemas com as autoridade francesas. Tranquilo e sorridente, respondeu: “Não me parece. Acho que eles são pessoas muito razoáveis. Tenho a certeza que vão ver isto como uma inspiração para o povo de França e do Mundo”. 

Não podia estar mais certo. Daí em diante, a prática seria repetida vezes sem conta, de alturas sempre assustadoras e, por vezes, adornada por artifícios que garantiram uma permanente inovação, como saltos sobre monociclos, piruetas introdutórias, entre outros. Ao contrário dos cordões de que foi feito, hoje, o império de AJ Hackett só se expande e opera saltos de Bungy um pouco por todo o Mundo.

Para os aficionados mais conhecedores, no entanto, os mergulhos a partir da ponte histórica de Karawau (43 metros de altura) e diurnos e nocturnos da plataforma panorâmica The Ledge (47 metros) continuam a ter significados – e preços – muito especiais, em específico para as almas aventureiras com mais de 65 anos, que dali podem saltar de graça.

Quando passamos pelas margens elevadas do rio Karawau, o leito abaixo flui a grande velocidade e arrasta botes de rafting manobrados por tripulações em êxtase. Mais à frente, adolescentes em série lançam-se da famosa ponte suspensa que atravessa a garganta homónima, de braços abertos sobre as águas frígidas e azuladas. São seguidores da adaptação do velho culto melanésio que AJ e o parceiro Henry van Asch  ali testaram, pela primeira vez, em 1988. 

Mesmo depois de experimentadas todas as variedades de bungy, Queenstown reserva um manancial inesgotável de outras actividades extremas, motivo pelo qual os seus youth hostels e pousadas estão quase sempre repletos e, em época alta, se juntam aos meros 9.000 habitantes da cidade vários milhares de visitantes e trabalhadores sazonais.

Enquanto as energias e a disposição não se esgotam, além do bungy jumping e do rafting, Queenstown alicia-os com o seu jetboating, o river-surfing e o white-water sledging, o canyoning, o flying, o gliding, o skydiving e o mountain biking. 

Assim que o Inverno e a neve tomam conta da região, ainda há o esqui e o snowboard que preservam também em Queenstown e na vizinha Wanaka as suas capitais neozelandesas e, isto, para mencionar apenas os desportos mais populares e convencionais.

Já tínhamos tido a nossa dose de experiências radicais na costa leste da Austrália e, nem o facto de apreciarmos tantas alheias neste confins interiores da ilha kiwi do sul nos demoveu de darmos finalmente algum descanso aos corpos desgastados.

Assim, em vez de ascendermos a pé, metemo-nos numa das cabines da Skyline Gondola e chegamos num ápice ao cimo da colina que acolheu o parque e complexo radical do The Luge, uma espécie de kartódromo de montanha adaptado para trenós.

Àquela hora, o circuito estava já encerrado. Não demoramos a achar um miradouro que nos revelou o casario de Queenstown, e os cenários imponentes em volta. Aos poucos, o crepúsculo instala-se e faz sobressair a iluminação quente da cidade contra a água azul escura do lago Wakatipu e as montanhas mais próximas dos Alpes do Sul. Reinava uma paz que há muito não sentíamos por aqueles lados e aproveitámos para disfrutar. Por pouco tempo.

Sem que tivéssemos ainda detectado a sua presença, uma adolescente lança-se subitamente da plataforma iluminada e cercada de pinheiros a que os nativos chamaram The Ledge. Ouvimos o grito estridente que a jovem não evitou e o eco produzido pelo anfiteatro em redor. Só a voltámos a ver, semi-anestesiada pelo pânico, quando a içaram de volta.

Foi o último salto de bungy-jumping do dia. Por algumas horas, Queenstown recuperou energias. Na manhã seguinte, bem cedo, haveria de regressar à sua rotina destemida.