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Tempo de aurora

Tempo de aurora

Aurora boreal em pleno, em Kakslauttanen.

Lapónia Finlandesa

Em Busca da Raposa de Fogo

São exclusivas dos píncaros da Terra as auroras boreais ou austrais, fenómenos de luz gerados por explosões solares. Os nativos Sami da Lapónia acreditavam tratar-se de uma raposa ardente que espalhava brilhos no céu. Sejam o que forem, nem os quase 30º abaixo de zero que se faziam sentir no extremo norte da Finlândia nos demoveram de as admirar.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


O dia manteve-se gélido como todos os outros, de Novembro a Abril, naquelas latitudes europeias extremas. Tínhamo-lo passado a explorar a região em redor de Saariselka, com o tempo dividido em distintas caminhadas. Uma delas que terminou com sauna combinada com avantouinti: a prática tão idolatrada na Finlândia de mergulhar e praticar natações de curtíssima duração num pequeno buraco aberto num rio gelado e soterrado de neve.

Pouco depois do ocaso, regressámos a Kakslauttanen. Como era de esperar, mal terminámos de jantar, o cansaço tomou-nos conta dos corpos e das mentes. Estávamos no hotel mais popular da povoação, famoso sobretudo por proporcionar aos hóspedes estadias pensadas para facilitar a observação de auroras boreais, em grandes cápsulas criadas em vidro reforçado.

O restaurante do hotel fechou. Sem mais que fazer, entusiasmados com a missão que se seguia mas já algo anestesiados pela fadiga, instalamo-nos no abrigo especial que nos havia calhado. Descarregamos as imagens do dia, revemos o equipamento fotográfico, retomamos a leitura de alguns artigos e guias sobre o destino frígido que nos tínhamos proposto a descobrir. Isto, claro está, com pausas sistemáticas para perscrutarmos o firmamento acima em busca de luzes suspeitas. Aguentámos-nos os dois por algum tempo com estas distracções e muita conversa arrastada, cada vez mais forçada. Até que nos vimos obrigados a instaurar um regime de turnos, já só meio doloroso.

Por volta da meia-noite, esse regime tinha sido deposto pelas forças imbatíveis do sono. Dormíamos os dois sem qualquer consciência da derrota quando um laivo de ansiedade nos despertou e orientou os olhos para cima. Uma estranha cintilação clareava o céu a um ritmo irregular mas, dali, não nos desvendava qualquer tonalidade incomum. “Isto deve ser alguma luz de discoteca furtiva de Kakskautannem...”  convencemo-nos sem fazermos grande fé na nossa sorte. Mas a luz não apresentava qualquer padrão de pulsação ou repetição. Analisámo-la por alguns momentos adicionais e rejeitámos essa hipótese. “Não pode ser. Só podem ser elas! Estão a começar, concluímos num êxtase quase histérico.

Vestimos as camadas de roupa que nos faltavam para sobrevivermos ao frio atroz que se fazia sentir no exterior, agarrámos no tripé e no restante equipamento e deixamos o iglô envidraçado. Lá fora, conseguíamos observar melhor o céu estrelado. Apercebemo-nos num ápice que as auroras boreais se sucediam acima e, num tom de verde-amarelado, se esticavam, encolhiam e contorciam em grande parte da amplitude da abóbada celeste.

Procurámos um lugar que cobrisse a iluminação ténue da povoação e ficámos a admirá-las e a registá-las fascinados pela dança extraterrestre do evento, sempre curiosos sobre quanto mais se expandiriam e se mudariam de tonalidades.

Só horas depois regressámos ao iglô, com os pés dormentes pela contínua imobilidade e as mãos ainda piores devido à frequência com que as expúnhamos ao ar, ao metal do tripé e de parte das câmaras, todos a quase trinta graus negativos. Foi a primeira vez que avistámos auroras boreais. Não seria a última.

Naquela zona do mundo, as luzes do norte – como são também chamadas - podem ser vistas em cerca de 100 noites por ano concentradas entre Setembro e Abril. Hoje, a maior parte dos nativos não se dá ao trabalho de sair de casa para verificar o céu ou acontece já nem repararem que o fenómeno ocorre mesmo sobre as suas cabeças.

Em termos históricos, os vários grupos Sami chegaram a distintas explicações, cada uma mais original que as restantes. Alguns acreditavam que eram seres com alma e capacidade de ouvir e compreender os humanos. Os Sami Skolt achavam que eram almas de pessoas mortas na guerra. Outros, pensavam que eram gás que subia do mar e dos lagos. Mas a crença mais popular na Lapónia explicava o fenómeno com uma raposa de fogo que corria pelos campos a agitar a sua longa cauda. Nos velhos tempos, as mulheres não se atreviam a sair sem um chapéu ou um pano na cabeça, receosas de ficar com o cabelo queimado. Durante os movimentos mais pronunciados das auroras boreais, ninguém devia fazer barulho ou falar. Os Samis também evitavam apontar para o céu com receio de as insultar e de ser por elas castigados.

A maior parte dos seus utilizadores não tem disso consciência mas, foi esta mesma raposa incandescente que o motor de busca Firefox popularizou graças ao seu logotipo com o canídeo a envolver o planeta azul.

O itinerário que havíamos estabelecido evoluía para norte até Inari, nas imediações do limiar boreal da nação suómi. Continuámos, por aí, a nossa busca.

Em Inari, dedicamos o máximo tempo possível à Kings Cup, a grande final das corridas de renas que reúne criadores e jockeys Sami vindos de todo o país para conviverem e competirem sobre o lago Inari completamente gelado. Num desses dias, ficámos alojados à beira do lago Menesjärvi, numa velha escola abandonada que uma família transformara em pousada. Ali, demos connosco longe de qualquer povoação e sem muito mais para fazer. Ao mesmo tempo, o lusco-fusco instalou-se sob um céu quase limpo.

Voltámos a sair para cima do lago gelado e a aguardar. Estávamos bem mais desprotegidos que nas cápsulas de Kakslautannem. Para compensar, a espera inicial provou-se muito menor. A noite ainda não tinha escurecido por completo quando percebemos a primeira dança no céu, de um verde menos vivo que o dos avistamentos de há uns dias. O breu instalou-se. As auroras intensificaram-se por uns bons 40 minutos, por cima do lago e da floresta boreal que o envolvia. De início, corremos a alertar os restantes hóspedes de que tinham começado. Quando se interromperam, ficámos mais uma vez horas a aguardar que regressassem. Até que a temperatura desceu de forma insuportável e nos levou a sugerir na sala de jantar, montarmos um esquema de vigia em curtas alternâncias. Percebemos, no entanto, que o grupo internacional se tinha contentado com o que vira após o nosso aviso. Sozinhos naquela demanda, enregelados e exaustos, retirámo-nos entregues à esperança que a raposa não aparecesse enquanto dormíamos.

No ano seguinte regressamos à Lapónia Finlandesa. Voltamos determinados a explorar melhor a sua capital Rovaniemi e a região em redor. Também aproveitámos para nos estrear na prática do Cross Ski, modalidade sagrada por aquelas paragens. Fizemo-lo em Ounasvara, na base de um resort de desportos de Inverno que se prolongava por uma encosta daquelas comedidas, como são todas na Finlândia.

Já nos ocorrera que o crepúsculo deveria ser fabuloso do topo da colina. Subimos a bordo dos saca-rabos que nos passavam pela frente. Mesmo atafulhados e atrapalhados pelas mochilas de fotografia e outras posses mal-guardadas, conquistámo-la sem esforço.

Quando aterramos no cume, o sol dissolve-se numa vasta secção oeste do horizonte. Livre da protecção da encosta, o vento sopra álgido e furibundo. De tal maneira que parece espalhar aquela mancha alaranjada do ocaso, não só a neve que nos entra pelos olhos e gela as faces enrubescidas.

Temos mais sorte do que esperávamos. O hotel Sky Ounasvaara dista apenas alguns passos. Achamos a base semi-soterrada das escadas de acesso e subimos ao terraço panorâmico. De lá, desvendamos a vastidão branca do centro da Lapónia, já tingida de um rosado avassalador. Faias sobrecarregadas de neve preenchem o declive a perder de vista ou pelo menos até à sua visão difusa se fundir com a do casario de Rovaniemi e arredores, disperso pelo vale contíguo.

Um anoitecer azulado acaba por se impor à sucessão de tons que até então tinha decorado a atmosfera. Recolhemos para junto da lareira do hotel e recuperamos do quase congelamento a que nos havíamos mais uma vez submetido.  Reavido o calor e o ânimo, a cada dez minutos, um de nós volta ao terraço e perscruta o céu em busca das luzes mágicas. Desistimos passadas duas horas quando uma nebulosidade inconveniente cobre o firmamento sem apelo.

Por volta das nove chegamos a um outro hotel, o Arctik. Aguardamos que nos atendam na recepção. Dezenas de japoneses abonam euros avultados pelo privilégio de observar o fenómeno com condições e conforto especiais incluindo poderem recuperar do frio dentro de um tipi, em redor de uma fogueira, com direito a salsichas para assar, café e chá bem quentes.

Um gerente resgata-nos da espera entre os nipónicos. Leva-nos a conhecer o Palácio de Gelo local. Bebemos vodka no bar, percorremos as várias divisões e renovamos o espanto com a excelência daquelas gigantescas esculturas sazonais. Terminado o périplo, caminhamos até à beira do lago na proximidade do hotel. Desta feita, não temos sequer que esperar.

Ainda faltam alguns metros para a margem quando começamos a ouvir “aaaahs”, “ooohhhs” e “sugois” (cool, em nipónico). Chegamos ao leito gelado. Encontramos um batalhão de japoneses e de outros asiáticos em absoluto êxtase com o espectáculo no firmamento. Por cima do lago e da floresta contígua, uma aurora boreal ora verde ora amarelada contorce-se e volta a contorcer-se numa fascinante dança magnética.

Os japoneses, em particular, ganham, ali e então, o dia e as mini-férias. Com maior abundância de neve, durante o Inverno, em diversas zonas do seu país montanhoso, são acima de tudo as auroras boreais que os atraem nesta altura do ano à plana Finlândia. Para lá de apreciarem a sua beleza excêntrica, muitos, viajam do outro lado do mundo imbuídos da crença de que aquelas luzes espaciais lhes concederão uma melhor vida sexual e fertilidade.

Para nós, era já o terceiro avistamento. Continuámos a tentar mas os dias seguintes mantiveram-se nublados. Tínhamo-nos inscrito numa pequena excursão que propunha a procura das auroras boreais em redor de um lago e de uma pequena quinta habitada por uma comunidade que vivia, à moda antiga da Lapónia.

Depressa percebemos - como toda a gente no grupo - que com um céu ali quase todo coberto, a probabilidade de as avistarmos roçava o zero. Conformados, concentrámo-nos no que de melhor podíamos achar ao nível do solo. Convivemos e devorámos salsichas acabadas de grelhar em redor de uma enorme fogueira que todos íamos alimentando. A raposa nunca se dignou a aparecer. Contentámo-nos só com o fogo.