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Formação

Formação

Recrutas das IDF (Forças de Defesa de Israel) em formação durante um juramento de bandeira.

Jerusalém, Israel

Em Festa no Muro das Lamentações

Nem só a preces e orações atende o lugar mais sagrado do judaísmo. As suas pedras milenares testemunham, há décadas, o juramento dos novos recrutas das IDF e ecoam os gritos eufóricos que se seguem.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Estamos numa quinta-feira de Junho como outra qualquer mas a circulação por um dos túneis que dá acesso à praça do Muro Ocidental revela-se complicada. Filas de jovens soldados de uniforme verde-azeitona preenchem parte do espaço apertado e atrasam a passagem pelos scanners que filtram quem acede ao lugar.

“Vocês, a ver se se decidem, ou entram ou saem”. É a quinta vez no dia que usamos aquela entrada. Os guardas mizrahi (judeus do “leste”, no caso, de origem egípcia) que a controlam já nos conhecem e ao maléfico equipamento fotográfico que antes tiveram que inspeccionar. Aproveitam, assim, para brincar um pouco e despacham-nos,  em três tempos.

Do lado de lá da barreira, também a praça está diferente. Ocupa-a uma formação geométrica de mais soldados, dispostos lado a lado. Na sua posição base, confrontam o muro mas volvem-se e movem-se consoante as ordens gritadas ao microfone por um superior. No lado oposto ao muro, algum público forma a última aresta do quadrado.

Poucos países precisam de novos membros para as suas forças armadas como Israel, uma nação assente no judaísmo mas cercada de inimigos muçulmanos. Não espanta, por isso, que a cerimónia de juramento - para alguns jovens o ponto alto da adolescência, para outros, da sua curta vida – se repita, ali, com regularidade.

Precede-a um recrutamento cuidado mas generoso. Na Agência Judaica para Israel online, as autoridades começam por deixar bem claro que o serviço militar é obrigatório para todos os cidadãos e residentes permanentes. No caso dos ainda estrangeiros interessados,  explicam a necessidade da aliyah (emigração para Israel) e da obtenção da cidadania israelita. Mas são pragmáticos e espirituosos ao ponto de tratar os pretendentes sem parentes no país de forma especial. Estes chayal boded (soldados “solitários” das forças armadas) usufruem de direitos e privilégios reforçados, elaborados para lhes tornar a vida mais fácil considerando que, como explica a agência, “não têm família em Israel para lhes lavar a roupa, para lhes cozinhar, enviar encomendas ou ouvi-los kvetch (queixar-se) nos fins de semana de folga.”

Não surpreende, como tal, a quantidade de rapazes de diferentes origens e visuais a seguir o protocolo. Lado a lado, marcham israelitas louros e ruivos, askenazis (com sangue da Europa central), alguns sefarditas (com ascendentes longínquos vindos da Ibéria), mizrahi (os provenientes de um amplo leste que contempla o Médio Oriente e o Norte de África) e vários grupos mais estritos. Destes, destacam-se recrutas dos numerosos Beta Israel etíopes, etnia que o governo israelita salvou da guerra civil e da fome com as operações Moses (1984) e Solomon, a última conduzida pela CIA, em 1991, e em que dezenas de aviões comerciais da EL AL resgataram milhares de judeus dos campos de refugiados no Sudão.

Outros chegam de países abastados, por fé ou fidelidade à causa sionista. Joey Fox foi um deles. Canadiano de nascimento, morador dos arredores de Toronto, cresceu numa família tradicional e recebeu dos pais uma educação judaica que, malgrado a distância, o ligou a Israel. Visitou a pátria espiritual todos os anos até que, quando cumpriu os 22, se mudou para a Terra Santa e alistou no Tzahal, o nome hebraico corrente das IDF.

Como o próprio conta, “durante o treino, gritavam-me na cara a toda a hora, fui gaseado, forçado a prosseguir dias a fio sem comer, dormir, tomar duche ou trocar de roupa. Éramos também obrigados a dormir a céu aberto durante os Invernos miseráveis do deserto”.

Terminada a preparação, foi incorporado. E a primeira missão que recebeu dificilmente podia ser vista como uma recompensa. O seu 50º batalhão ficou incumbido de defender a comunidade judaica de Hebron. E Joey continua a descrever: “para resumir, tínhamos que proteger 750 judeus que viviam num vale ... entre 300.000 árabes mas, apesar das dificuldades, sempre senti orgulho a usar o meu uniforme e a minha quipá ...”

A voz de comando soa, em hebraico, pomposa e trovejante. E os recrutas respondem com coordenação às ordens dadas à parada, empunhando com firmeza as espingardas M-16 que aprenderam a disparar e que os continuarão a acompanhar. Segue-se um discurso mais longo e o juramento em si que vincula cada uns dos novos militares a Israel.

Os elementos que terminaram a sua participação na cerimónia juntam-se numa escadaria num canto da praça onde trocam abraços e entoam cânticos nacionalistas. Enquanto outros recebem as felicitações dos israelitas mais comovidos presentes na praça.

O pôr-do-sol do dia seguinte marca o início do sabat e do descanso obrigatório. Crentes dos bairros judeus de Jerusalém descem as escadarias da cidade velha em direcção ao Kotel (Muro das Lamentações). São, em grande parte, haredim, ultra-ortodoxos, facilmente identificáveis pelos trajes negros, pelos chapéus antiquados (borsalinos, fedoras, shtreimels, kolpiks, trilbys e outros, consoante a origem de cada seita) e pelos seus peots, os cabelos encaracolados que lhes pendem das têmporas. Apesar de não poderem partilhar juntos o muro, vêm com as suas esposas que, segundo os princípios morais de modéstia tzniut, trajam vestidos simples que lhes cobrem totalmente braços e pernas.

Por cada uma das entradas, afluem também judeus hadis (crentes convencionais), estudantes de yeshivá das escolas em redor, temporariamente dispensados da aprendizagem da tora e do talmude. E juntam-se-lhes agrupamentos entusiásticos dos recém-admitidos soldados das IDF, ainda com as fardas verde-azeitona do dia anterior.

Os haredim ocupam a sua posição frontal e predominante face ao muro e num grande minyan (grupo de oração) professam e apelam a Deus embalando-se na direcção das pedras milenares. Entretanto escurece e os militares aglomeram-se mais atrás, num círculo de comemoração que aumenta e se torna hiperactivo, saltando e girando para um e para o outro lado. Os gritos e cantos patriotas sucedem-se de novo enquanto a bandeira nacional ondula validando o que move toda esta comoção: Am Yisrael chai. O Povo de Israel Vive.

Guias: Israel+