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Chegada à festa

Chegada à festa

Rod Caddies segura uma bandeira australiana à chegada à margem sul do rio Swan, em Perth.

Perth, Austrália

Em Honra da Fundação, de Luto Pela Invasão

26/1 é uma data controversa na Austrália. Enquanto os colonos britânicos o celebram com churrascos e muita cerveja, os aborígenes celebram o facto de não terem sido completamente dizimados.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A tarde mal começou mas o pequeno supermercado está à pinha e há uma longa fila para a secção autónoma do álcool que na Austrália, à imagem do que se passa nos Estados Unidos, não é vendido a qualquer um. Adultos e sóbrios, safamo-nos com as desejadas cervejas mas a carne para churrasco já foi mais abundante. Destacam-se na prateleira refrigerada pacotes de costeletas de cordeiro que uma folha branca rabiscada promove com criatividade tão nacionalista como básica: “Australia Day, Buy Australian Lamb”. Encontramos também, a preço especial (leia-se hiper-inflacionado), bifes de canguru com a forma característica da grande ilha, uma cilada do marketing matreiro do downunder em que muitos ozzies fazem questão de cair.

Na moradia espaçosa de Redcliffe, nos arredores de Perth, Mick e Jamie preparam saladas.  Rod, o anfitrião, bebe Toohey atrás de Toohey para se refrescar dos calores do Verão austral e do grelhador em que se apresta a cozinhar o seu barbie preferido do ano enquanto família próxima e amigos vão irrompendo com espalhafato já semi-ébrio pelo jardim. Meia hora depois, saem os primeiros burguers e a festa entra em piloto automático como acontece em centenas de milhares de outras vivendas da vasta Austrália.

A efeméride começou a ser celebrada em 1808. Desde então, transformou-se no maior evento público anual do país e numa comemoração tão popular como controversa. A data em si é  contestada por diferentes razões. Para começar, marca o dia da fundação da colónia de Nova Gales do Sul (26 Janeiro de 1788) acontecimento que muitos consideram não ter o relevo nacional adequado. Depois, na opinião de outros contestatários, assinala, acima de  tudo, o inicio do passado penal do país já que, nessa data, foram conduzidos para terra os primeiros condenados britânicos. Mas a mais grave das lacunas apontadas é o dia escolhido não contemplar a comunidade aborígene que, de qualquer maneira a despreza e prefere denominá-la de Invasion Day, Survival Day ou Day of Mourning.

A 26 de Janeiro, a Austrália está nas suas férias estivais. Promotores multimilionários aproveitam para realizar os maiores festivais de música de Verão, casos do Big Day Out, do Hottest 100 e do Australia Day Live Concert que é emitido nos canais de TV nacionais, à imagem do que acontece com as galas requintadas do prémio Australian of the Year e de algumas Citizenship Ceremonies que concedem cidadania a mais de dez mil imigrantes recrutados dos quatro cantos do mundo. Outros eventos típicos da “civilização” britânica galvanizam a nação aos seus próprios ritmos. Test Matches internacionais de críquete arrastam-se dias a fio na Oval de Adelaide enquanto distintas competições idolatradas comprovam a vocação ozzie para o desporto e a vida ao ar livre.  

Ao mesmo tempo, em Sydney, e de costas voltadas para os restantes compatriotas, os aborígenes levam a cabo o Survival Day Concert que comemora o facto macabro de nem todos os seus congéneres terem sido mortos pelos europeus. Manifestações paralelas têm lugar nas cidades australianas com maior presença dos nativos que também reivindicam direitos nunca concedidos pelos governantes como a devolução dos vastos territórios ocupados.

Esta contra-celebração acontece desde há décadas e tem conseguido sensibilizar as autoridades para a falta de bom senso e de sensibilidade com que era planeado o Australia  Day. De tal maneira que, nas últimas sondagens sobre o tema, 90% dos australianos reconheceu a necessidade de respeitar a população aborígene e, a partir de 2006, o governo de Nova Gales do Sul introduziu no programa de comemorações eventos como o Woggan-ma-gule que conta com a presença de aborígenes e procura honrar o passado doloroso da colonização.

Apesar destas e de outras tentativas de reconciliação, a relação com os nativos continua por resolver. Mas não perturba os festejos prevalecentes nem na vivenda de Rod, nem em Perth ou na Austrália anglófona em geral. Deixamos a casa e seguimos o grupo frenético em direcção às margens do rio Swan para nos juntarmos aos 400.000 sandgropers (habitantes da Austrália Ocidental) que se concentram para assistir aos famosos fogos de artifício da cidade. Pelo caminho, passamos por jardins de outras moradias também animadas por churrascos à beira de piscinas ou sobre relvados imaculados.

Rod e os seus convidados gritam “Aussie, Aussie, Aussie!!” a viva voz e em uníssono. Do lado oposto da rua, compatriotas alcoolizados respondem ao jeito de eco e reclamam nova repetição do ritual.

Aos poucos, os espectadores distribuem-se pelas margens do rio, e asseguram a melhor vista possível para o Central Business District da metrópole onde a iluminação precoce promete uma entrada digna ao grande acto. Já sobre o pôr-do-sol, helicópteros sobrevoam a área e fazem esvoaçar bandeiras australianas gigantescas levando a multidão a um êxtase true blue fácil que é vocalizado com novos gritos australianos e reforçado pelo ondular de milhares de outras bandeiras mais pequenas. Quando o ruído diminui, um pequeno clã de meia-idade já farto da berraria impinge “Waltzing Matilda”, um dos temas incontornáveis do cancionário tradicionalista e nacionalista aussie. O mote pega. Do nada, um coro solidário e comovido entoa e dança a canção do princípio ao fim. Outros hinos quase se seguem mas, com a noite já instalada, dão-se os primeiros rebentamentos sobre os arranha-céus do outro lado do Swan e, tanto o firmamento como a superfície alisada do rio, se enchem de cor. As explosões repetem-se durante quarenta minutos e hipnotizam os espectadores. Por momentos, a nação da grande ilha entrega-se ao deleite efémero daquela visão e ignora os seus dramas por resolver. Ou assim sentem os australianos que nunca por eles passaram.