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Cansaço em tons de verde

Cansaço em tons de verde

Criança cansada da sua participação num desfile inaugural do festival.

Suzdal, Rússia

Em Suzdal, é de Pequenino que se Celebra o Pepino

Com o Verão e o tempo quente, a cidade russa de Suzdal descontrai da sua ortodoxia religiosa milenar. A velha cidade também é famosa por ter os melhores pepinos da nação. Quando Julho chega, faz dos recém-colhidos um verdadeiro festival. 


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


É Sábado de manhã. Deliciamo-nos com o mingau de arroz que Dona Irina Zakharova nos preparara uma vez mais para o pequeno-almoço. Há vários dias que massacrávamos o cicerone russo Alexey Kravschenko com despertares madrugadores. Nessa manhã, deixamo-lo sossegado no seu sétimo sono. Saímos a pé.

Tínhamos chegado ao dia do Festival Internacional do Pepino de Suzdal. Há muito que a data nos condicionava o itinerário daquelas partes da Rússia. E estávamos mais intrigados que nunca com o que nos revelaria tão excêntrica celebração.

Cruzamos um longo atalho através duma charneca ensopada, com a vegetação pelo pescoço ou ainda mais alta. Quando deixamos o trilho, aproximamo-nos do kremlin da cidade e da ponte de madeira que liga a uma tal de rua Pushkarskaya. Pouco depois, esbarramos com uma feira instalada na ladeira que conduz à entrada do Museu local da Arquitectura de Madeira.

Proprietários de barracas de petiscos grelham e promovem shashliks apetecíveis, outros, frutos secos e silvestres, algodão doce, maçãs caramelizadas e uma miríade de especialidades gastronómicas russas ou internacionais típicas daqueles eventos populares. Em complemento, pequenos empresários do ramo lúdico impingem passatempos apelativos.

Já à entrada do museu, velhotas porque tínhamos passado dezenas de vezes anunciam os souvenirs mais emblemáticos de Suzdal e o seu abundante artesanato, mas também pepinos.

Na Rússia, os vegetais comuns do dia a dia são as cebolas, as couves, as cenouras e os pepinos. Os russos consideram os últimos os mais nutritivos e importantes. Usam-nos em milhares de pratos e receitas. Podem ser consumidos em pickle (ou meio pickle) com sal, vinagre ou folhas de eucalipto, por norma acompanhados de vodka, polugar (vodka tradicional de centeio) e afins. Ainda em várias sopas como, por exemplo, o borsch, a mais popular do país. Os pepinos também são empregues em doces, pasteis, em carne adocicada e na própria elaboração de diversas bebidas licorosas mas não só. Quaisquer que sejam as circunstâncias, os russos têm sempre pepinos nas suas casas de cidade ou nas dachas, as vivendas no campo. São vendidos em quantidades impressionantes até à entrada das estações de metro e mercados de Moscovo e São Petersburgo.

As gentes de Suzdal, em particular, gabam-se de ter os melhores pepinos na Rússia central. Leva a cabo o mais conceituado festival do pepino da nação czar que, à imagem de tantos outros, se realiza em plena época de colheita, durante o Verão quando o calor aperta e os dias parecem não ter fim. Na zona de Suzdal, muitos lares conseguem rendimentos significativos do cultivo e venda. Alguns, prosperam a sério: “paguei a escola dos meus dois filhos, a nossa casa, o carro e muito mais, tudo com as plantações que temos. Para nós, os pepinos são quase sagrados!” De tal forma preciosos que uma crença tradicional da zona reclama que duendes verdes os protegem.

Quando entramos na área do evento, depressa confirmamos, pelo menos, o seu óbvio protagonismo no evento.

Dezenas de produtores e vendedores dispostos em duas linhas pouco rectas e divergentes, exibem, em pequenas bancas, pepinos de tipos e dimensões distintas, crus ou confeccionados. O fruto surge em sandes, sopas, saladas e pratos completos. Conservado dentro de frascos em estilo pickle ou em bagaços generosos. E, menos perceptível, em doces, compotas e chutneys. Outros comerciantes têm dispostos posters e postais, imanes, pulseiras e outras formas de bijutaria tradicional, bem como obras de arte que nos surpreendem pela criatividade. Examinávamos esta feira interior quando damos de caras com o cortejo que oficializava a inauguração do festival.

Uma banda filarmónica toca o hino dedicado. Seguem-na centenas de participantes com trajes inspirados em pepinos verdes ou que a ele aludem e que seguram balões verdes esvoaçantes. Outros figurantes fazem rolar um carro de bois com um arranjo campestre cuidado e em que se destaca um casal de pepinos de pano sentados costas contra costas, sobre um monte de erva seca. Na proximidade, cidadãos orgulhosos de Suzdal empunham uma bandeira russa e uma outra italiana, em representação da nação convidada.

A banda e a parada perseguidora vencem a encosta suave. No topo, os músicos sobem a um palco e continuam o espectáculo, agora de frente para uma plateia entusiasta que os aplaude.

Mas, como seria de esperar, também na Rússia – ou sobretudo na Rússia - os eventos têm as suas obrigações políticas. Um dos dirigentes de Suzdal assume o palanque improvisado e discursa com vigor. Do que expõe, só percebemos os incontornáveis spasibas finais às entidades que apoiaram e tornaram o festival possível. Logo após, o autarca cede o protagonismo a novo grupo musical que se encarrega de reanimar os espectadores.

Por essa altura, já há diversão um pouco por todo o lado, entre as igrejas e habitações tradicionais do museu. Entregamo-nos a um périplo descomprometido para investigar a acção.

Desde muito cedo, as crianças russas aprendem a dar valor ao pepino que veem os pais consumir – e ajudam a comer - em quantidades industriais.

O festival é, também para elas, um momento especial das suas jovens existência, um momento que vivem com a máxima intensidade possível.  Engasgamo-nos com palha quando decidimos fotografar as batalhas de alguns miúdos aloirados sobre um monte de feno seco instalado para o efeito. Acompanhamos ainda lutas de almofadas sobre uma barra elevada, em que outros aperfeiçoam os seus dotes guerreiros, sob a mediação de uma dama-árbitro excêntrica.

As recordações personalizadas são igualmente disputadas. Tanto adultos como crianças e idosos enfiam a cara em painéis humorísticos e incorporam pepinos sobrevoados por abelhas e borboletas. Ou visitam as barracas de fatos dedicados ao tema e disfarçam-se de distintas variantes do fruto para gáudio dos familiares e amigos que os contemplam. Metemo-nos com quatro estrangeiros que falam inglês com sotaque aussie. Quando lhes explicamos o que fazemos, Miah Gibson mostra-se tão orgulhosa quanto apreensiva. “Muito bem, mas não publicam essas imagens na Rússia, O.K.? É que eu trabalho no consulado australiano de Moscovo e a sério que o pessoal diplomático não me pode ver nestas figuras”.

À imagem do acontecera em dias anteriores, o fim da tarde traz nuvens altas e escuras. Até então, Suzdal tinha sido poupada a chuvas fortes mas nenhum pepino cresce sem água. A meteorologia encarregou-se da rega e de que maneira. O dilúvio e a trovoada assustadora fazem o público entusiasta abrigar-se sob as árvores com copas mais densas, os beirais das igrejas e casas e moinhos por ali dispersos.

Protegidos pela cobertura do palco, os músicos de serviço ignoram a intempérie compenetrados em animar a festa. Continua quente e abafado e alguns dos espectadores já estão demasiado entusiasmados ou embriagados para se preocuparem com a molha. Mantêm-se estóicos entre o palco e as cadeiras da plateia e improvisam uma estranha dança da chuva com resultados pré-garantidos.

Aos poucos, o aguaceiro desvanece-se. Os apresentadores do evento chamam o público de volta junto ao palco e inauguram uma aturada entrega de prémios. Há recompensas para uma série de categorias gastronómicas e de doçaria. Como as conquistam os primeiros classificados na prova de comer pepinos, em que é suposto enfardar a maior quantidade possível num determinado tempo. A competição de maior relevo é, no entanto, a do maior pepino.

O vencedor e o concorrente que fica em segundo lugar recebem o devido reconhecimento e sacos com brindes. Apanhamo-los a descer para as traseiras do palco. Quando lhes pedimos, posam para nós com boa disposição e surpreendente à vontade. O vencedor está visivelmente bebido. Mais uma vez, o vice-campeão não lhe fica muito atrás. Ao fim de um ou dois minutos de ordinarice mímica com os enormes pepinos, lá nos permitem tirar fotos decentes. Em jeito de recompensa pela paciência que acharam que nos deviam reconhecer, ainda nos oferecem os frutos hiperbólicos. De um momento para o outro, sem qualquer aviso, vemo-nos a braços com os dois enormes pepinos triunfantes e adiamos o mais que podemos o destino que lhes íamos dar.

Deixamos o espaço do museu com o festival prestes a encerrar. A caminho de casa, uma multidão intrigada tenta perceber o que fazem dois forasteiros com visuais tão contrastantes a transportar pepinos do Entroncamento russo. Uns atrás dos outros, apontam-nos os seus telefones e perguntam se nos podem fotografar ou fotografam-nos sem nunca pedir, como é suposto fazer-se quando se requer espontaneidade nas fotos. Estávamos pouco habituados à inversão dos papéis mas, pelo caminho fora, levamos o protagonismo com a diversão e as risadas que o deslumbrante festival merecia.

Ao chegarmos à pousada, Dona Irina mal pode acreditar no que vê. Logo, ri-se a bom rir com a explicação que Alexey lhe traduz. Oferecemos-lhe os pepinos e sugerimos que os sirva em salada ou faça pickles. Bem mais conhecedora da agricultura e culinária em questão, a senhora informa-nos que, daqueles espécimes exagerados e gastos, já só poderia aproveitar as sementes. Lembramo-la que, ao menos, a genética era garantida, que se as plantasse teria fortes hipóteses de ganhar o grande prémio do próximo festival. Por momentos, Irina Zakharova pondera a sugestão mas deixa-nos a impressão que tamanha glória a intimida.

O Inverno não tardaria a reclamar Suzdal e a cobri-la de branco. Com ou sem Irina, mal as neves e os gelos daquele interior russo dessem de si, vários dos seus agricultores competitivos assumiriam o novo repto. Num Julho tão abafado e verdejante como aquele em que Alexey Kravschenko nos deu a conhecer Suzdal, a gente da cidade voltaria a louvar os seus suculentos pepinos.

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