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Pesca no Paraíso

Pesca no Paraíso

Um jovem nativo lança uma rede nas águas idílicas da baía de Lékiny.

Ouvéa, Nova Caledónia

Entre a Lealdade e a Liberdade

A Nova Caledónia sempre questionou a integração na longínqua França. Em Ouvéa, encontramos uma história de resistência mas também nativos que preferem a cidadania e os privilégios francófonos.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


Tínhamos acabado de aterrar no que pensávamos ser o confim mais longínquo da Nova Caledónia quando Céline aparece, se apresenta e informa que nos vai levar um pouco mais além. Ela e o seu círculo familiar e de amigos apreciavam o refúgio marítimo das Plêiades do Norte, um sub-arquipélago que, depois de localizado no mapa, nos parece ter sobrado do abatimento pré-histórico de um grande atol.

Do aeroporto, vamos directos para Saint Joseph, no extremo setentrional de Ouvéa. Espera-nos um grupo já enturmado, formado pelo marido dela, William, e por alguns compinchas. Seguimos a bordo de uma lancha poderosa que o skipper Jeoffrey manobra entre ilhéus rochosos e rasos, quase todos inóspitos. Fazemos paragens estratégicas em pontos com água cristalina e fundo coralífero para mergulhos refrescantes e alguma exploração subaquática, até que a hora já avançada e a energia despendida com o exercício reclamam um almoço. Céline confirma que, por ali, só se come peixe fresco. Requisita de imediato o serviço de dois dos homens a bordo para capturarem os espécimes a cozinhar.

David – braço direito de William – e um outro amigo colocam as máscaras, as barbatanas e as espingardas de caça. Saem a nadar em direcção a um banco de coral povoado por inúmeros peixes. Usamos o equipamento que resta para os acompanharmos. Em pouco tempo, os caçadores apanham os primeiros exemplares mas o grupo é numeroso e são precisos mais. À medida que acertam tiros, os peixes feridos largam sangue que se dissemina na água e atrai intrusos. Os nativos apercebem-se da chegada das primeiras silhuetas temerosas mas prosseguem com a missão. Espalha-se mais sangue. Os vultos deslizantes multiplicam-se e aproximam-se dos humanos em círculos que apertam.

David repara na nossa presença. Faz sinal para que subamos de imediato para o barco. Quando regressamos à superfície, Céline e os outros, já preocupados, batem com as palmas na água e gritam os nossos nomes. Abrigamo-nos dos tubarões sob a protecção dos caçadores que, apesar de terem deixado dois peixes para trás, os continuam a angustiar.

David surge finalmente ao lado do barco e pede para os amigos a bordo recolherem a pescaria: “Segurem nisto rápido! Eles estão aqui por baixo. Quando aparecem vários martelos, a coisa já não é para brincadeiras.” 

Os caçadores ainda não recuperaram o fôlego mas Jeoffrey põe a lancha em movimento. Pelo caminho, explicam-nos que os encontros com tubarões são muito frequentes nas águas tropicais em redor de Ouvéa e ainda mais na zona das Plêiades. “Mas também não é para ter demasiado medo”, sublinha David. “Até agora ainda só tivemos dois acidentes. Uma das vítimas levou 70 pontos num braço. A outra ficou com a cara ligeiramente desfigurada. Ninguém morreu.” Entendemos o seu ponto de vista mas hesitamos em concordar. Entretanto, chegamos a uma ilha com um areal branco desafogado e desembarcamos numa das baías mais acolhedoras daquele sub-arquipélago.

Os quatro homens cozinham os peixes em folhas de bananeira, com milho e abacate. Quando está tudo pronto, nós e Céline comemos primeiro, os outros ficam a ver. Céline tenta impingir-nos que, é assim, por aqueles lados: a prioridade aos convidados. Suspeitamos que, por causa dos tubarões, os caçadores tinham trazido peixes a menos e os anfitriões queriam ter a certeza que comíamos o suficiente. Não era por Céline que deixaria de acontecer. A nizarda é muito mais magra que  o habitual nos espartanos gauleses e a sua alimentação condiz.

Farta da vida na metrópole, tinha-se mudado para aquele território de outre-mér havia dez anos, Céline estava casada com William com quem tinha 3 filhos de 1, 2 e 7. Só ia a Nice ver a família uma vez por ano com as crianças. William nunca a acompanhava. Os voos dos nativos da Nova Caledónia para a metrópole são considerados lúdicos – só existem descontos entre ilhas da Nova Caledónia -  e, como tal, demasiado caros. Por outro lado, também nos dá a ideia que o marido não tem grande vontade.

A presença de Céline em Ouvéa, em representação do turismo regional, suscita sentimentos contraditórios: “Por ser tão magra, estão sempre a implicar, a dizer que estou doente e que não como bem.” Mas a controvérsia não se fica por aí.

Ouvéa, como as restantes Ilhas Lealdade, sempre foi um bastião do combate pela independência da Nova Caledónia, interrompido em 1988 com a assinatura dos acordos de Matignon (revistos no acordo de Nouméa de 1998) que validaram a incorporação na República Francesa mediante uma forte autonomia e a realização de um referendo entre 2014 e 2018. 

Todo este território ultramarino foi palco de confrontos violentos entre 1984-88. Este conflito culminou precisamente em Ouvéa, em Abril e Maio de 88 com o que ficou conhecido como Prise d’otages. Neste período, independentistas kanaks e membros do FLNKS (Frente Libertação Nacional Socialista Kanak) atacaram a polícia presente na ilha e fizeram reféns os seus 31 membros. Mas um dos oficiais recusou a prisão.  Disparou contra os revoltados e deu origem a um pequeno massacre, o desarmamento e aprisionamento dos 27 oficiais sobreviventes. Entretanto, Paris enviou tropas de elite para resolver os imprevistos que se agravavam também nas ilhas vizinhas de Lifou e Maré. Instala-se uma enorme confusão entre o então Presidente François Mitterrand, o primeiro-ministro e o séquito político da sua residência oficial do hotel Matignon. No dia 5 de Maio, os militares lançam a operação alegadamente sem conhecimento do Eliseu e libertam os reféns da gruta em que eram mantidos prisioneiros.

Membros do FLNKS e outros independentistas acusaram as tropas de terem executado sumariamente ou deixado morrer voluntariamente alguns dos raptores após o assalto, depois de aqueles terem já libertado 10 prisioneiros e enquanto aguardavam a clarificação da situação política para libertar os restantes. Pouco depois, Mitterrand viria a ser reeleito e o novo primeiro-ministro Michel Rochard constitui uma missão de diálogo encarregue de pacificar a discussão entre lealistas e independentistas. Esta missão conduziu aos acordos de Matignon - assinados pelo líder do FLNKS Jean-Marie Tjibaou - e a uma amnistia geral para os raptores e os militares implicados no conflito.

Um ano mais tarde, durante a primeira evocação da tragédia de Ouvéa, Tjibaou é assassinado por Djubelly Wéa, um kanak independentista que sempre se opôs ao acordo. A decisão quanto ao futuro da Nova Caledónia foi adiada mas o ressentimento instalou-se no espírito de muitos nativos.

Regressados das Plêiades, Céline convida-nos para um café na grande gite (cabana) da família de William. O pai deste recebe-nos com cordialidade e oferece-nos um pão por ele confeccionado. Constatamos como a francesa se adaptou à sua nova existência tribal e a partilhar o espaço inclusive com a sogra que parece exercer um certo domínio matriarcal e mantém os seus longos vestidos kanak pendurados de forma exuberante do tecto de palha.

Nem todos os anciãos oferecem o acolhimento que sogro nos havia concedido.

Céline acompanha-nos à Pointe Escarpée e em várias outras voltas pela ilha, sobre a caixa da pick-up da família. É suposto regressamos, na tarde seguinte, à capital Nouméa e é ela quem nos deixa no aeroporto mas, como estamos com tempo, passamos na gide da irmã de William que ficara a tomar conta dos três enfants da guia. Também o seu acolhimento é cordial mas o chefe desta família depressa se revela um homem zangado, pouco satisfeito pela visita de forasteiros.

Sentamo-nos sobre tapetes folclóricos e bebemos café gelado. A conversa flui sobre os mais diversos assuntos mas o kanak barbudo mantém-se à parte, alienado e desconfiado. A sua postura contrasta em absoluto com a da esposa bonacheirona. Não cede um sorriso à simpatia, nem sequer quando Céline toma a palavra.

Aproxima-se a hora de irmos para o aeroporto Hulup mas Celine faz uma paragem derradeira na gide de uns vizinhos artistas que a preocupam. “Eles fazem o que podem para se aguentarem mas não é fácil. São muito novos, já têm uma filha e aqui é tudo tão caro! Passam muitas dificuldades com o que ganham só a vender as esculturas. Ainda por cima a casa deles é mal isolada. São picados vezes demais e o dengue atormenta-os”.

Marjorie aparece com a filha Sanjana e mostra-nos algumas esculturas tribais na banca do seu negócio. Pouco depois, surge Robert, visivelmente ensonado e absorto. Confirmamos a informação de Céline. Tratam-se de crianças. Marjorie é nativa, um pouco mais velha. Robert tem o visual alourado e puro de um qualquer métro (nascido na França continental). Mal parece ter entrado na adolescência.

“Os pais regressaram a Nouméa e fizeram tudo para que ele também fosse.”, conta-nos Céline. “Nunca quis.” Ele adora a Marjorie e a miúda. Fez finca pé e ficou mas limitam-se a sobreviver. Ainda por cima habituaram-se a fumar erva para aligeirar as dificuldades. Pode ser muito complicada, a vida por aqui.”

Percebemos que a liberdade tem um preço muito alto, em Ouvéa. Os acordos de Matignon previram um referendo nos próximos anos. Para os nativos, a principal questão está em quanto subirá esse preço se a Nova Caledónia, as ilhas Lealdade e Ouvéa, em particular, decidirem sacrificar o domínio francês.