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Chocolate hills

Chocolate hills

As famosas montanhas de chocolate de Bohol, nesta altura verdejantes devido à chuva abundante.

Bohol, Filipinas

Filipinas do Outro Mundo

O arquipélago filipino estende-se por 300.000 km2 de oceano Pacífico. No grupo Visayas, Bohol abriga pequenos primatas com aspecto alienígena e colinas extraterrenas a que chamaram Chocolate Mountains


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A probabilidade de se visitar as Filipinas sem dar conta de Bohol é quase nula. Disso se encarregou a autoridade de turismo nacional. Logo à chegada ao aeroporto de Manila, as brochuras promocionais do país destacam um animal de olhos esbugalhados agarrado a uma árvore e sobre um fundo formado por vários outeiros demasiado redondos e verdejantes para parecerem reais.

Apesar de Bohol ter velhas igrejas hispânicas impressionantes, construídas em grande parte com coral, foram aqueles os trunfos escolhidos pelo governo para atrair visitantes. E também por empresas e marcas que lhes associam os seus produtos e serviços e os exibem na TV e na imprensa.

Não custa reconhecer que a estranha combinação nos despertou a curiosidade ao ponto de escolhermos a ilha  como uma de várias escalas no vasto arquipélago.

O voo de Manila só dura duas horas mas já viajávamos desde Vigan (no extremo norte do país) e a noite anterior. Aterramos em Tagbilaran às 7h 30 completamente esgotados e sem qualquer noção de onde nos íamos hospedar. Aguardamos que o balcão do Turismo local abra e apanhamos um tricycle folclórico. Quinze minutos depois, estamos a falar com Mrs. Onôncia D. Balco, uma directora cinquentona e míope que despacha o assunto em três tempos: “Sei perfeitamente quem vai adorar receber-vos. É só um minuto que trato já disso”.

O telefone que usa ainda é de disco. Esperamos meio minuto que a marcação do número fique completa e bastante mais pelo fim da conversa que oscila entre tagalog e inglês, como é hábito entre os filipinos com formação e posses. Pousado o auscultador, a senhora dá-nos a novidade: “Está tudo combinado. Nós levamo-vos até ao Amarela, a seguir, o dono trata de vocês.” Calculamos que se trate de um hotel mas, por essa altura, já estávamos mais preocupados em recuperar o sono que com o esclarecimento.  

O jipe chega à praia de Libaong e estaciona à entrada de uma vivenda de grandes dimensões que, dada a cor, só pode ser o destino final. Um homem com visual e postura de Clark Gable das Visayas vem ao nosso encontro. Apresenta-se, despede-se do condutor e põe-nos de imediato à vontade com um pequeno-almoço revigorante e divertido. Depois, indica-nos um quarto e liberta-nos educadamente para um sono prolongado. Acordamos a meio da tarde e passeamos pelo litoral, com mergulhos refrescantes a cada 100 metros. Afastamo-nos uns quilómetros do ponto de partida e acabamos num bar onde devoramos halo-halos (sobremesas filipinas de fruta, batata doce, feijão, leite condensado e vários outros) divinais. Quando regressamos, já o sol se pôs há muito. Só uma lanterna diminuta nos poupa a mais tropeções nas inúmeras folhas de coqueiro caídas.

O proprietário janta com amigos. Lá mais para  o fim da noite, voltamos a juntar-nos e trocamos estórias, peripécias e preferências. Lucas explica-nos que os sul-coreanos são os seus hóspedes mais indisciplinados e confessa-nos a sua paixão por Porto e Mateus Rosé.  Em troca, falamos-lhe da má fama dos mochileiros israelitas e confirmamos que o vinho português é muito mais que aqueles exemplos incontornáveis. 

Lucas Nunag foi advogado em escritórios de multinacionais com sede em Manila grande parte da sua vida. Aos 55 anos, cansou-se da vida da capital e reformou-se. Tinha acumulado umas poupanças e decidiu construir um resort na beira-mar da sua amada ilha natal. Viu-se em apuros para escolher o nome para o novo negócio. Até que a filha se lembrou da visita que haviam feito a Lisboa, em 2004, e de uma palavra portuguesa especialmente sexy: amarela.

Recuperaram o passado e baptizaram e pintaram o hotel segundo aquela inspiração.

A manhã seguinte desperta cinzenta e o panorama pouco muda com o avançar das horas. Nós não temos grandes planos. A Lucas falta-lhe companhia. O anfitrião faz questão de nos mostrar a ilha, o que aceitamos sem resistência. Em Dauis, apresenta-nos o irmão, um padre que fala espanhol e português e nos mostra o tecto da igreja de Baclayan, todo pintado com cenas da vida local  e o monumento histórico “Blood Compact” que celebra o primeiro tratado de amizade entre filipinos e espanhóis, a poucas milhas do lugar onde os homens do chefe Lapu Lapu trespassaram Fernão Magalhães de morte com lanças de bambu, na hoje chamada Batalha de Mactan.

Ainda naquela povoação, descobrimos que Lucas faz parte de um núcleo de protecção da cultura local. À tarde juntamo-nos a uma excursão do grupo conduzida por um tal de Mr. Gardini que discorda da nossa presença por temer que, enquanto repórteres, chamemos demasiada atenção a um palacete de madeira que planeavam adquirir.

Lucas resolve a questão com a sua habitual cortesia. Passamos um dia em cheio a admirar edifícios boholinos seculares, com predominância para as palafitas coloniais castelhanas com soalhos de tábuas grossas e compridas: “Quanto maiores mais ricos eram os seus senhores” diz-nos o ex-advogado.  Entramos também em villas de madeira fantasmagóricas com janelas de concha perdidas no tempo e em cenários tropicais improváveis a que, segundo outro dos indígenas da comitiva, o núcleo consegue deitar a mão por 30 mil pesos (500 euros). Evitam, dessa forma, que os herdeiros em conflito as destruam apenas para dividirem os materiais. No fim da tarde, regressamos à Amarela.

Chegamos a Sábado e Lucas tem que voar para Manila. Aproveitamos a boleia para o terminal de autocarros de Tagbilaran. Ali, apanhamos um jeepney excêntrico e sobrelotado. Estava na hora de procurarmos os famosos társios e as Chocolate Hills.

Damos de caras com os primeiros exemplares do primata em Loboc, num jardim à beira do rio homónimo e a caminho das colinas. O encontro é marcado pela admiração e pela indiferença. Nós ficamos surpreendidos pelo seu tamanho minúsculo, em nada condizente com o monstro temível que enchia tantos posters. Os espécimes, por sua vez, confrontam-nos com uma aparente soberba limitando-se a piscar lentamente os enormes olhos – que medindo em média 16 mm de diâmetro podem ser maiores que o cérebro - como que ensonados pela nossa banal presença.

Em tempos disseminados por uma vasta área do Mundo, os társios subsistem apenas em algumas ilhas do Sudeste Asiático. Apesar do aspecto de peluche de porta-chaves, são o único primata à face da Terra exclusivamente carnívoro. Saltam de árvore em árvore, atacam insectos e pequenos vertebrados: cobras, lagartos, morcegos e pássaros que chegam a capturar em pleno voo. De hábitos nocturnos, a combinação morfológica entre o seu tálamo e o os olhos é singular entre os primatas o que levou alguns neuro-cientistas a sugerir que provêm de uma linha de evolução distinta e mais antiga.

Deixamos os társios na sua letargia e prosseguimos para o interior da ilha e do Parque Nacional Rajah Sikatuna. O autocarro termina a viagem no cimo de uma longa rampa onde um miradouro bem posicionado revela o cenário bizarro das Chocolate Hills. Até perder de vista, repetem-se milhares de pequenas colinas cónicas forradas de vegetação com tons de verde e amarelo. Estendem-se por mais de 50 km2 e têm entre 35 e 120 metros de altura. São formadas por pedra calcária e receberam o nome devido ao aspecto que ganham quando a erva que as cobre se torna castanha durante a época seca, tornando-as semelhantes aos beijos de chocolate Hershey’s (Kisses).

Como seria de esperar, várias lendas explicam a formação geológica com nítida inclinação para as grandezas. Há a romântica que fala de Arogo, gigante imortal e poderoso que se apaixonou por Aloya, uma simples mortal que ao morrer deixou o pretendente entregue à dor e ao desgosto. Segundo esta versão, as colinas teriam surgido quando as suas intermináveis lágrimas secaram. Conta-se também que dois gigantes locais entraram em disputa de território e atiraram rochas e areia um ao outro. O confronto durou vários dias. Cansou-os de tal maneira que se esqueceram do que acontecera e se tornaram amigos. As Chocolate Hills seriam o estrago que causaram ao solo e nunca se lembraram de arranjar.

Não tão fantasiosa, a comunidade científica está longe de chegar a acordo. A teoria mais consensual defende que a pedra calcária das colinas contém fosseis abundantes de vida marinha. Que foi erodida ao longo dos tempos pelas chuvas e fluxos de água e pela actividade tectónica. Outras acrescentam a hipótese do levantamento de enormes depósitos de coral e outras ainda, atribuem a sua existência a uma forte actividade vulcânica subaquática ou a movimentos massivos de água provocados por marés extremas, algures nos primórdios do Planeta.

A nossa história em Bohol, aproximava-se do fim. Regressamos à praia de Libaong e à casa Amarela, para refazer as mochilas. Na manhã seguinte, Lucas Nunag estava de volta e conduziu-nos ao aeroporto. Despedimo-nos do gentil anfitrião eternamente agradecidos. Metemo-nos num avião da Cebu Airlines e rumamos à ilha de Panay e à sua Boracay para 3 ou 4 dias de expiação balnear na grande dama das praias filipinas.