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Intersecção

Intersecção

Dois condutores de trycicles cruzam-se na estrada lamacenta que liga Hungduan a Banaue.

Hungduan, Filipinas

Filipinas em Estilo "Country"

Os GI's partiram com o fim da 2a Guerra Mundial mas a música do interior dos EUA que ouviam ainda anima a Cordillera de Luzon. É de tricycle e ao seu ritmo que visitamos os terraços de arroz Hungduan.


Marco C. Pereira (texto)
e Marco C. Pereira-Sara Wong (fotos)


A negociação é bem mais curta do que prevíamos. São muitos os moto-triciclos a circular por Banaue e cada proprietário tem que se esforçar para conseguir um número aceitável de viagens por dia e a subsistência. Greg garante-nos que vamos adorar a volta e faz um preço generoso para não deixar fugir a oportunidade. Convencidos, instalamo-nos na cabine sidecar e damos-lhe o sinal de partida.

As primeiras subidas são íngremes e obrigam a moto a um longo sobre-esforço mas, assim que a grande encosta é vencida, o percurso suaviza-se e o dono consegue finalmente descontrair. Sem qualquer aviso, liga a velha instalação sonora do cockpit e mete um dos seus CDs preferidos a tocar em alto volume.

Os GI’s norte-americanos partiram das Filipinas após o fim da 2a Guerra Mundial mas a música Country que ouviam ficou de vez na cordilheira de Luzon e ganhou milhares de novos apreciadores quase fanáticos. Greg é obviamente um deles. Presenteia-nos com “NeonMoon”, um single de 1992 do duo Brooks & Dunn, o seu terceiro sucesso consecutivo a chegar ao primeiro lugar do top U.S. Billboard Hot Country Singles & Tracks.

Enquanto conduz, trauteia e inventa partes da letra que, apesar do barulho ensurdecedor do velho motor de dois tempos, percebemos descrever o desgosto amoroso de um homem abandonado pela companheira que, para vencer a solidão, passa todas as noites num bar texano, à luz de uma lua de néon.

O desfasamento geográfico face ao imaginário da banda sonora deixa-nos intrigados mas, entretanto, chegamos ao destino final e a paisagem reclama-nos toda a atenção.

Greg mostra-nos uma plataforma improvisada à beira da estrada. Dali, observamos a vastidão verdejante e ensopada dos terraços de arroz, e contemplamos os pormenores que lhes dão tanto encanto: o vale fluvial a que se adaptam e que favorece a distribuição da água, os pequenos muros arredondados de pedra, as diferenças de tons de zona para zona e as palmeiras de Areca junto às poucas casas que surgem no panorama.

Contemplamos por alguns minutos mais até que decidimos descer deixando Greg entregue a uma sesta improvisada sobre a mota. Não serve de muito preocuparmo-nos com a saúde das suas costas. Quando o questionamos acerca do conforto, responde, despachado: “Não se preocupem amigos, é a minha segunda cama. Divirtam-se.” 

Uma longa escadaria leva-nos ao início dos socalcos. Do último degrau em diante, avançamos sobre os trilhos estreitos de pedra que alisam o cimo de cada muro. Mas, se do topo da encosta a estrutura da paisagem parece fácil de compreender e seguir, tudo se altera com a proximidade e os terraços revelam-se autênticos labirintos que nos obrigam a retroceder para tentar novos caminhos. Cruzamo-nos com aldeões da barangay (aldeia) Hapao que, apesar de estranharem a presença de forasteiros, dão a sua ajuda. Alguns, curiosos e com um inglês suficiente, metem inclusivamente conversa o que nos atrasa mais que a simples desorientação. Acabamos por regressar bem depois do prometido, mas o guia assegura-nos que já está habituado e que isso só o deixa feliz.

Os nativos de Banaue que trabalham com turistas orgulham-se como ninguém da beleza da sua região e conhecem o fascínio que provoca em quem viaja de tão longe para os descobrir. Hungduan e Hapao não constam sequer entre os lugares mais reputados – que guardámos para os últimos dias – mas, a condizer, revelaram-se uma introdução deslumbrante.

Guias: Filipinas+